Capítulo: 1
Quatro anos haviam se passado desde minha primeira batalha, e então eu observava, do acampamento do exército sacro, uma imensa cidade de pedras negras iluminada por chamas esverdeadas que queimavam em cada alcova, uma massiva metrópole imponente e assustadora em partes iguais. A capital e centro de operações do Exército das Sombras e do próprio Rei das Sombras.
— Sabe, isso faz me perguntar se eles têm, tipo, faculdades — um soldado comentou, parando ao meu lado e baixando as calças. Começando a urinar, não parou de falar: — Digo, é preciso arquitetos para construir coisas assim, né?
— É, acho que tens razão — dei de ombros, imperturbado. — Eles conseguem falar, afinal, só odeiam a nós com todas as forças, então talvez sejam capazes de se organizarem assim mesmo.
Encarar aquela cidade sob cerco, o último ponto de resistência do exército das sombras e o coração das forças do campeão de Demônia me fez refletir sobre minha jornada até aquele ponto.
Meus ossos quebraram, minha pele fendeu-se, fui dilacerado, queimado, esmagado, perfurado, cortado e alvejado, e mais de uma vez tive certeza de que seria meu fim. Vi amigos e amantes, companheiros e conhecidos morrendo de todas as formas possíveis, Maicon, Conrad, e Coruja nos primeiros meses, depois Victor, Daniela, Matilde e Laerte no segundo, e muitos e muitos mais depois destes ainda.
— Há, ha — ri brandamente.
— Que? — perguntou o mijão.
— Estava me lembrando de uns velhos amigos, só isso.
— Vish! Sai pra lá, que má sorte, hein! — o homem rapidamente vestiu-se de novo e foi embora. — Se você quer sobreviver, é melhor pensar numa paixão de infância ou algo assim, viu! Fica a dica!
— Uma paixão, é? — eu não conseguia pensar em algo parecido. — Tipo, um objetivo? — nesse sentido, eu me lembrava de meus falecidos amigos e namorada.
Maicon era um homem comum, como eu, e o primeiro amigo que vi falecer com meus próprios olhos. Conrad morreu uns dois meses depois, logo após comprar uma lápide de pedra para seu pai. Coruja sobreviveu por um ano inteiro, e só veio a perder a vida depois de obter sua vingança contra o monstro que liderou o ataque ao seu vilarejo, tendo sido mortalmente ferido na luta contra o mesmo.
— Parando para pensar, daí para frente, quase todo mundo com que me encontrei era assim — depois de um ano de baixas, a maioria esmagadora dos soldados restantes tinha um sonho para ser realizado depois da guerra, ou buscavam algo no campo de batalha, e muitos poucos eram aqueles como eu, que pararam ali apenas para tentar fazer uma vida. — Não é uma surpresa que esse tipo de superstição se desenvolveu.
— A POSTOS! — o líder da operação por vir urrou, convocando suas forças dispersas no acampamento.
Suspirando, baixei a viseira de meu elmo de metal do tipo bascinet, e caminhei para o ponto indicado.
Sim, nesses últimos quatro anos eu consegui ao menos montar um conjunto de peças de armadura relativamente decente, comprando partes aqui, coletando partes ali (por mais que o ato de saquear fosse ilegal, e os objetos dos derrotados pertencessem à Liga Sacra, contrabando de tais itens era comum entre a infantaria). Então eu me revestia com fábrica de qualidade, couro, cota de malha, e coxotes, caneleiras, peitoral e elmo de placas de aço, e também um número de cintos e alforjes e uma miríade de outras ferramentas que provaram seu valor ao longo dos anos.
Além disso, após tantos confrontos de vida ou morte, meus Níveis inevitavelmente subiram também.
Então, meus Atributos encontravam-se assim:
Nome: Haicard de Caminho Errado
Nível: 9
Força: 8
Percepção: 8
Ocultismo: 4
Eu não havia investido nenhum ponto em Ocultismo, como por instrução dos superiores, por mais que eu já houvesse me colocado em enrascadas devido à “distribuição imprópria de pontos de Atributo” antes, já que para dar qualquer utilidade àquele Atributo, eu precisaria conhecer algum Feitiço em primeiro lugar, e estes eram guardados como segredos valiosos por artesãos e guildas, que preferiam vender objetos encantados e de uso único, do que ensinar as massas como dar uso a um terço de sua força mesmo em tempos de guerra. Ainda assim, eu me encontrava um, ou melhor, alguns passos à frente de fazendeiros e trabalhadores comuns, e até à frente de aventureiros de classificação mediana.
Eu tinha até boas chances de vitória num duelo até contra um Orc entre os Níveis três e quatro, o que pode não parecer muito, até você se lembrar que o Atributo base de Força de um membro dessa espécie é de 5.
— Prestem atenção! — Duque Constance começou a falar do topo de uma caixa de madeira. — O alvo de vocês dessa vez é o elevador Nordeste da Cidade do Abismo. Agora que já tomamos as escadas, ele é um dos oito elevadores e únicos pontos de acesso que os inimigos podem usar para emboscar as forças principais durante o cerco. Não importa o que, vocês não podem falhar nesta investida. O líder desta operação vai agora explicar-lhes os detalhes da função de cada um de vocês — e com aquilo, o nobre comandante cedeu espaço para uma Cavaleira, seguindo então em direção a uma tenda onde os nobres de mais prestigioso nascimento discutiam com o representante da Rainha, que governava sozinha, o mestre historiador, bem como um membro do clero, cuja presença era mais uma formalidade que funcional.
Passei a ouvir sobre nossas posições na operação por vir, ditadas pela Cavaleira. Isso mesmo, em algum ponto ao longo do caminho, os papéis que passei a exercer na guerra assumiram maior e maior significância, conforme o exército das sombras era encurralado.
E mesmo assim, eu sequer fazia parte das forças principais. Em todos aqueles anos, eu nunca havia visto o Herói ou sua equipe Heroica numa distância menor que alguns bons minutos de marcha.
Havia benefícios, porém, que acompanhavam a posição de veterano, então apenas um pouco menos descartável.
— Linha de frente, adiante! Agora vocês receberão seus Fortalecimentos — a líder da tarefa nos instruiu, uma mulher com uma única mecha de cabelo branco, e fizemos assim.
E de repente, meia dúzia de Magos começou a recitar encantamentos, conjurando círculos mágicos sob nossos pés. Logo, fomos todos envolvidos por fechos de luz, e nossa Força e Percepção aumentaram em +1 ponto.
Para desentendidos, aquela não podia parecer grande diferença, mas efetivamente nos tornava um décimo mais poderosos e aumentava nossas chances de sobrevivência significativamente. Claro, não se comparava com a miríade de Fortalecimentos que cobriam e recobriam os nobres e comandantes do exército, que os tornavam verdadeiros super elfos, e os deixavam tão brilhantes que emitiam luz o suficiente para irradiar uma área de vários segundos de marcha de distância sem necessidade de tochas.
— Agora, marchem! Para o nordeste! — a comandante ordenou.
E assim nos colocamos todos a caminho do próximo campo de batalha.
҉
O elevador de madeira encontrava-se embutido nas paredes negras e escarpas do fundo do abismo e era cercado por uma pequena fortaleza seguindo o mesmo estilo arquitetônico da cidade, incrivelmente angular, afiada, e iluminada por tochas esverdeadas.
O caminho para a fortaleza também era ladeado por postes altos que, antes de serem apagados por nossos batedores, queimavam com a luz verde. Na verdade, o fundo do abismo inteiro era surpreendentemente bem iluminado pelas chamas sinistras que queimavam por todos os lados em alcovas, tochas e lâmpadas, a cor do fogo devendo-se ao fato de que o material queimado não era carvão, mas sim um outro componente vindo, supostamente, direto do Inferno; da mesma forma como Paraíso vagava o mundo sobre as nuvens, Inferno encontrava-se muito profundamente no interior da própria terra, e alguns especulavam haver passagens até este, afinal.
Contudo, mesmo com toda aquela luz verde, caso alguém olhasse para o abismo da superfície, não veria nada além de escuridão devido a um Feitiço protetor que impedia o bombardeamento da cidade ao fundo.
— E outra propriedade engraçada é que esse lugar não alaga quando chove porque a rocha que compõe o chão aqui é muito porosa e absorve a água mais rápido do que ela consegue se acumular — expliquei para o soldado ao meu lado durante a caminhada ao nosso objetivo.
— É, legal... — ele resmungou.
Além de Níveis, equipamentos e tudo o mais, nesses anos todos eu havia percebido também que não era exatamente um eremita solitário e gostava da presença de outras pessoas... por mais que aquele colega não parecesse tanto ir com minha cara. A palavra de mal agouro deve ter se espalhado de boca a boca pelo mijão de antes.
Bem, fazer o que?
Dei de ombros e me foquei no objetivo à frente. Não havia mais tempo para conversa fiada, de qualquer forma.
Prosseguimos através da escuridão, usando das rochas e fendas como camuflagem para chegar o mais perto possível do forte sem sermos percebidos. Ainda estávamos a uns bons minutos de marcha de distância das paredes do alvo, mas dificilmente chegaríamos mais perto sem sermos notados, uma vez que o exército das sombras na guarnição já estava à nossa espera desde que nossos batedores apagaram os postes que iluminavam o caminho para o forte.
Nós conseguíamos enxergar uns aos outros apenas devido ao pequeno brilho emitido pelo Fortalecimento nos concedido. E foi assim que vimos a mão de nossa comandante se erguendo, e então baixando-se, dando a ordem de ataque.
Em silêncio, todos disparamos de nossa posição, correndo a toda velocidade contra a muralha da pequena fortaleza com um escudo em uma mão e uma escada na outra, enquanto uma linha de arqueiros atirava nos guardas inimigos de nossa retaguarda.
— SACROS! — um orc gritou do topo da muralha, e os demais todos puseram-se em ação.
Sinos tocaram, e um enxame de orcs ocupou-se das muralhas. Flechas inimigas não tardaram a nos alcançar.
— TUC! — uma seta quebrou-se contra meu escudo de aço, falhando em penetrá-lo.
Felizmente, os Magos do exército das sombras deveriam estar todos concentrados na Cidade do Abismo, caso contrário estaríamos em grandes apuros com força tão pequena.
— MATEM OS DA ESCADA PRIMEIRO! — um dos orcs urrou.
Infelizmente, eu era um desses “da escada”.
— Merda — me encolhi sob uma chuva de flechas e pedras atiradas acima de mim.
É claro, eu não estava sozinho, e um grupo de soldados protegia as minhas costas, mas eu ainda era um alvo primo dos inimigos, e à minha esquerda e direita eu via outros soldados carregando escadas sendo abatidos.
Foi quando vi uma flecha assoviando, cortando o ar e vindo bem contra meu pescoço.
Sim, eu a vi, da mesma forma como uma pessoa de Nível: 1 pode ver uma pedra sendo atirada em sua direção. Ainda era um projétil muito rápido, mas significativamente mais devagar que o esperado de uma flecha, logo consegui posicionar a escada a tempo de bloquear a seta, que cravou-se na madeira da ferramenta de cerco.
Logo que a escada tocou uma ameia da muralha, meus companheiros puseram-se a escalar as travessas da escada, e a atenção dos orcs voltou-se aos invasores mais eminentes, me dando espaço para pelo menos sacar minha espada.
— Francamente, pode me punir quantas vezes quiser, mas eu vou continuar colocando pontos em Percepção — comentei comigo mesmo, entrando na fila para subir a escada que levantei.
Sim, eu havia sido punido antes por “distribuição indevida de pontos de Atributo” por ter investido mais em Percepção do que o exército sacro desejava; minha ração foi reduzida, fui punido fisicamente com chibatadas e recebi trabalhos degradantes. Mas eu não me arrependia nem um pouco disso.
Graças àquele investimento insubordinado, eu era capaz de notar as coisas ao meu redor no campo de batalha apenas um pouco mais efetivamente que meus companheiros, mas aquilo era o suficiente para me salvar de uma miríade de situações de vida ou morte. Por que, então, meus superiores preferiam que seus soldados investissem mais em Força? Oras, porque enquanto eu tinha mais chances de sobreviver, o dano que eu era capaz de infligir era significativamente menor também. Os Atributos ideais para os soldados plebeus haviam sido estudados e calculados ao longo de várias guerras sacras, e o consenso era que o sistema atual era o melhor no quesito custo (subordinados mortos) benefício (inimigos mortos). Não necessariamente o melhor para mim era o melhor para meus superiores, eu rapidamente entendi, mas eu não podia me importar menos com aquilo.
— Mas a parte difícil vem agora... — resmunguei, finalmente pisando sobre a passarela da muralha, ladeado por corpos de aliados e oponentes.
O espaço no qual nos encontrávamos era muito estreito e dava numa queda de seis passos, não mais que três elfos ou dois orcs podiam lutar lado a lado, o que poderia parecer vantajoso à primeira vista, mas-
— WAARGH! — urrando, um orc baixou sua incrivelmente pesada lâmina, mais parecida com um cutelo longo demais, sobre um de meus aliados, e o impacto foi tamanho que cortou direto através de sua proteção em camadas de couro e algodão, quase torando fora o braço esquerdo do homem, que manteve-se conectado a seu torso por apenas uma fina tira de carne. — URAGH! — com o braço do escudo inutilizado, meu aliado não pode se proteger do segundo ataque, que lhe cortou fora a cabeça num movimento só.
O corpo morto de meu aliado girou no mesmo lugar com a força do golpe que o decapitou, espirrando pulsantes jatos de sangue sobre todos nós, e despencou muralha abaixo logo em seguida, apenas para ser substituído por um novo, e extremamente nervoso, soldado élfico.
Sim, orcs eram significativamente mais fortes que elfos, sendo em média três cabeças mais altos, seus corpos naturalmente musculosos, de pele esverdeada, e com caninos inferiores proeminentes. E, como se sua vantagem biológica não fosse o suficiente, eles ainda equipavam-se de aço o máximo possível. Para cada um inimigo daquele tipo que abatíamos, dois de nós morríamos, e o pior: sempre que um aliado meu morria, eu me aproximava mais das linhas de frente.
— Merda...! — alcancei uma das quinquilharias penduradas nos meus cintos com uma mão, e a trouxe à minha boca, depois carreguei-a, e disparei: — Fush!
— RAARGH! — o orc assustou-se quando um dardo cravou-se em sua bochecha, perto de seu olho.
Foi abertura o suficiente para que dois de meus aliados fincassem suas lâminas nas partes menos protegidas do inimigo e atirassem-no da muralha.
Rapidamente recarreguei minha zarabatana com um novo dardo e me coloquei a dar suporte aos soldados na linha de frente. Afinal, o peso extra de equipamentos que comprei e saqueei por conta própria não eram apenas decoração, mas serviam todos para aumentar minhas chances de sobrevivência, e a zarabatana em particular foi uma escolha feita pela acessibilidade, silenciosidade, facilidade de se produzir sua munição, compatibilidade com o veneno de últimamora, e mira surpreendentemente estável.
— PARA O ELEVADOR! — berrou nossa comandante enquanto descíamos as escadarias da muralha para o pátio da pequena fortaleza.
— PROTEJAM O ELEVADOR! — urrou um orc especialmente grande da frente de uma linha defensiva de inimigos que formavam um semicírculo ao redor de nosso objetivo.
Nossas forças correram na direção do elevador e contra o último empecilho em nosso caminho. Infelizmente, porém, não éramos os únicos que formavam estratégias, e das portas embutidas na muralha às nossas costas, uma enxurrada de inimigos surgiu.
— COSTA-A-COSTA! — nossa comandante ordenou, e nós fomos forçados a dividir nossa atenção em dois frontes no meio do pátio da fortaleza inimiga.
Minha zarabatana não seria o suficiente para me manter longe do combate corpo a corpo daquela vez.
Enquanto naquele ponto da guerra e naquela investida em particular os soldados sacros tinham vantagem numérica, no meio daquele pátio estávamos tragicamente igualados aos orcs em números, seria um para um, pelo menos por um momento.
— São nesses momentos que eu queria ter investido mais pontos em Força...
— RAAAARGH! — um inimigo enorme e vestindo cota de malha pulou em cima de mim, segurando sua espada falchion-cutelo com ambas as mãos num golpe poderoso o suficiente para, no mínimo, me desequilibrar.
Eu não podia apenas me desviar também, uma vez que isso quebraria a formação e poderia fragilizar todas as nossas forças encurraladas. Por isso apoiei minhas costas no soldado atrás de mim, o mesmo soldado mijão de antes, e recebi o impacto em cheio no escudo de aço em minha mão esquerda.
— Kuh! — trinquei meus dentes uma vez que a vibração do impacto abalou até minhas fundações. Consegui não cair ao chão apenas por ter dividido o peso do golpe do orc com meu companheiro. — Hargh! — estoquei com minha espada reta contra o espaço entre o ombro e pescoço do inimigo ainda curvado ao fim de seu ataque, uma vez que todo o resto de seu corpo via-se coberto de couro e peles grossas e placas de aço rudemente forjado.
— Patético! — o orc gritou, empurrando minha espada para longe com sua manopla de aço, exibindo apenas uma pequena ferida pela qual sangue esverdeado escorria, mas que mal lhe prejudicava os movimentos. — ISSO É UM ATAQUE DE VERDADE! — em resposta, brandiu sua lâmina pesada demais para um ellfo normal contra mim mais uma vez.
Recebi o golpe com meu escudo de novo, e graças à minha Força quase três vezes superior ao de uma pessoa comum, consegui bloquear o corte sem ser arremessado para longe. Porém, não ileso, é claro: o golpe foi tão poderoso que meu braço esquerdo foi deslocado, saindo de posição com um audível “plop!”.
— Aargh! — aquela energia que corre em nossas veias em situações de vida ou morte amenizou a dor em muitas vezes, por mais que não tivesse a extinguido completamente, e consegui responder antes que o oponente seguisse aquele golpe com uma sequência ainda pior, e finquei a ponta de minha arma contra sua canela esquerda, colocando outro corte no inimigo.
— Haha! Quebrei seu braço, e você me arranhou. Você e seu Herói morrerão aqui hoje — eu não podia ver seu rosto por trás do elmo fechado de metal, mas eu apostaria que o orc sorria naquele momento. Mas não continuaria assim por muito tempo. — Urgh? Q-Que? Wargh...?! — o monstro enorme cambaleou para trás por um instante, seus pés incertos, então caiu sobre as próprias costas. A cada segundo, era visível a dificuldade crescente que tinha em respirar. — O que... comigo?! — Não havia ponto em me explicar para um oponente à beira da morte, então foquei-me em pôr meu ombro de volta no lugar, e substituir meu companheiro à esquerda, que caiu praticamente ao mesmo tempo que meu adversário. — Vene... no?! Co...varde...! — com suas últimas forças, o orc envenenado pelas últimamoras que impregnavam em minha lâmina faleceu por asfixia devido à paralisia.
— Você tem, tipo, duas vezes minha altura e eu quem sou o covarde por usar um pouquinho de veneno? — tentei não dar bola para o comentário, mas acabei por resmungar mesmo assim.
—Veneno?! — o Orc que matou o soldado à minha esquerda recuou, evitando minha estocada.
Uma vez que aquele inimigo já sabia de minha carta na manga, eu provavelmente não conseguiria derrotá-lo num combate um contra um. E não apenas isso, eu não me via num vácuo, e embates eram travados por todos os meus arredores, nos quais, para piorar e sem surpresa alguma, nós estávamos perdendo. Era difícil para um elfo derrotar um orc num duelo, e na maioria das vezes os soldados sacros perdiam, apenas para colocar seus vizinhos numa situação ainda mais complicada, que então tinham a impossível tarefa de lidar com dois orcs de pelo menos Nível: 3.
Se precisássemos resistir por mais tempo, seríamos todos massacrados, e nenhum de meus truques seria útil naquela situação. Felizmente, nosso papel já havia sido cumprido.
— FOGO! — a comandante ordenou, e os arqueiros que nos deram cobertura durante a escalada da muralha e haviam ficado para trás dispararam uma salva de flechas, então a postos no topo da muralha.
—Bwahr!
— Urgh!
—Huargh!
Com Força superior ou não, seria um feito lendário ser atingido por uma saraivada de flechas e sair ileso, e enquanto uma armadura de placa de aço poderia parar os projéteis, eram poucos aqueles com fundos para obter uma (controle do tráfico deste tipo de equipamento superior era mantido com muito mais severidade, afinal), e quando podiam comprar uma peça, poucos preocupavam-se em proteger suas costas, uma vez que, se você está dando suas costas para o oponente no campo de batalha, você já está praticamente morto. Eu não sabia exatamente como funcionava a distribuição de equipamentos dentre meus inimigos, mas a julgar pela forma como se protegiam, deveria ser semelhante à nossa própria, e mesmo aqueles enormes oponentes viram-se enrascados: o jogo virou, e conseguimos abater os inimigos que vieram de nossas costas, aqueles que não foram perfurados pelas setas, sucumbiram perante nossas lâminas.
A batalha estava longe de ganha, porém.
— Buaah!
— Waargh!
Dois soldados sacros foram arremessados dois bons metros ao ar pelo enorme martelo de guerra daquele que parecia liderar as forças inimigas locais, um orc ainda mais alto que seus semelhantes, equipando um conjunto de armadura de aço completo, que não deixava brechas para ataques ardilosos.
— Um Cavaleiro das Sombras... — não havia dúvidas, o poder superior, o equipamento de qualidade, aquele era um membro da elite do exército das sombras.
Se havia um lado positivo naquilo, era que o inimigo deveria ser apenas um Cavaleiro, a terceira classificação mais baixa dentre os nobres. Assim como dentro do exército da Liga Sacra, aqueles monstros mais afortunados tinham acesso a melhores equipamentos, Fortalecimentos e ainda, devido à sua posição elevada dentro de suas forças, o título de Padre Guerreiro Profano, uma versão superior de Diácono Guerreiro, que concedia mais dois pontos para cada Atributo. Se ele fosse membro de uma classe superior, afinal, com certeza já estaríamos mortos.
— TRAGAM-ME A CABEÇA DO COMANDANTE INIMIGO! — berrou nossa comandante, atirando uma bola de fogo no último dos orcs de patente baixa, cuja armadura tornou-se vermelha cintilante devido ao calor, e assou-o vivo.
— Mais fácil falar do que fazer... — resmunguei, me posicionando o mais distante possível do Cavaleiro inimigo, mas não distante o suficiente para ser apontado como um desertor e abatido pelos soldados sacros às minhas costas.
Dardos, venenos, estrepes e outros truques baratos não funcionariam contra aquele inimigo.
— AVANÇAR! — nossa comandante ordenou, atirando uma bola de fogo contra o cavaleiro orc.
— Hurgh! — o inimigo dispersou as chamas com um golpe de seu martelo de guerra.
Todos nós avançamos ao mesmo tempo, mas no caminho, juntei a lança de um dos orcs abatidos; a arma era mais pesada e seu cabo mais grosso do que o confortável, mas ainda me colocava a uns bons passos de distância de meu alvo, então aguentei o fardo extra.
— WAAARGH! — o orc Cavaleiro não se intimidou com a aproximação de nossas forças e disparou em nossa direção com sua arma erguida sobre sua própria cabeça.
— Aah- — os gritos de um companheiro da Liga Sacra foram cortados quando aquele que o pronunciava teve sua cabeça achatada contra o chão pelo martelo do inimigo, com armadura e tudo.
Ainda assim, os presentes éramos todos veteranos de quatro anos de guerra, e não recuaríamos devido a uma única morte: ao mesmo tempo que estoquei com a pesada lança orc, meus aliados todos jogaram-se sobre o comandante inimigo, todos nós visando qualquer “brecha” na armadura do enorme orc.
— HUURGH! — o Cavaleiro girou sobre o próprio calcanhar direito, brandindo seu martelo como um furacão, e atirando aqueles que tardaram em recuar para longe. Não parou por aí, porém, e agarrou o soldado mais próximo pelo elmo com a mão esquerda, e usou-o como escudo contra a próxima bola de fogo de nossa comandante; atirou, ainda, meu aliado em chamas sobre seus camaradas, derrubando-os e espalhando as chamas vorazes para mais dois soldados da Liga Sacra.
O orc não havia saído ileso de nosso último ataque, porém, e nascentes verdes jorravam por sob a cota de malha que protegia as juntas de sua armadura de aço completa; eram muito provavelmente apenas ferimentos superficiais, mas era assim que batalhas contra inimigos tão mais fortes funcionavam, desgastando-os aos poucos.
E logo, tivemos outra oportunidade para avançar sobre o cavaleiro orc enquanto ele afundava seu martelo no peito de um outro companheiro meu.
Foquei na parte de trás de seu joelho e, colocando todo o peso da arma na estocada, perfurei a cota de malha, e o couro e algodão por baixo.
— Gurh! — aquele impacto em específico pareceu ter incomodado o comandante inimigo, uma vez que o joelho ferido fraquejou por um instante.
E o Cavaleiro orc virou-se em minha direção, imediatamente quebrando a haste de minha lança com um golpe de seu martelo e avançando contra mim.
— Porra...! — rapidamente enfiei a mão numa bolsa em minha cintura, apanhei um punhado de estrepes e atirei-os no caminho do inimigo.
— Kah! — o cavaleiro pisou em cheio sobre os espinhos de ferro e parou em seu caminho, caindo sobre um joelho por tempo suficiente para um de meus companheiros brandir sua lâmina contra seu pescoço.
Teria sido um golpe fatal, se o orc não tivesse parado a lâmina com a própria palma da manopla esquerda. Mas havia muitos mais de nós ali presentes, e um outro soldado baixou a lâmina de seu machado sobre o pescoço do inimigo do outro lado.
A lâmina nunca tocou o pescoço do orc cavaleiro, porém, uma vez que um martelo de guerra amassou o capacete daquele que brandia o machado de tal forma que jatos vermelhos esguicharam através dos dois buracos que proporcionavam visão ao seu usuário.
— Hurgh! — pisei adiante, então brandindo minha espada contra a abertura dos olhos do orc Cavaleiro. — Sem chances! — praguejei, recuando e deixando minha espada para trás quando o inimigo levantou o rosto bem a tempo de evitar um golpe fatal, recebendo a ponta de minha lâmina no osso zigomático ao invés de em seu olho esquerdo.
— Vush! — depois de tudo aquilo, porém, não conseguiu escapar da seguinte bola de fogo disparada pela nossa comandante, que envolveu seu capacete completamente, como uma espécie de cola flamejante.
— Huaargh! — o orc cavaleiro levantou-se e afastou o resto de nós com seu martelo com uma mão, enquanto com a outra, removeu minha espada de sua cara, e depois despiu-se de seu elmo revelando um rosto com um corte feio, e queimaduras ainda mais feias. — Sua puta...! — disparou contra a muralha, forçando seu caminho através de nossas linhas com golpes selvagens de seu martelo.
— Tch! — nossa comandante estalou a língua, apontou uma mão para a escadaria que levava ao topo da muralha onde ela se encontrava, e começou a conjurar um Feitiço.
Demorou um instante demais, porém, e o orc Cavaleiro era rápido, provavelmente tendo mais que quinze, talvez mais que vinte pontos em Força. O enorme inimigo subiu os degraus antes que ela pudesse interferir com ele.
— Ragh! Wagh! Urgh! — o Cavaleiro atirou arqueiros por sobre a muralha direto para o chão, e esmigalhou crânios com seu martelo, aproximando-se perigosamente de nossa comandante e seus guarda-costas. — Urg... Arf, arf...! — mas o veneno de minha arma começava a surgir efeito, e somado com a fatiga da longa batalha, seus movimentos tornavam-se lentos.
— É o fim do Rei das Sombras e seu exército amaldiçoado! — nossa comandante proclamou, fazendo surgir um círculo mágico azul sob o orc. E um instante depois, um pilar de fogo pouco maior que seu alvo explodiu sob os pés do último inimigo vivo na fortaleza.
As chamas brilharam tão ardentes, que não conseguimos nos aproximar mais que alguns poucos passos, tendo perseguido o orc cavaleiro para o topo da muralha.
E ainda assim o monstro surpreendeu a todos nós quando seu martelo surgiu das chamas, cintilando vermelho, derrubando os guarda-costas de nossa comandante, o orc agarrando-a pelo pescoço logo em seguida, com a pele completamente carbonizada e esfumaçando, todo o metal que protegia seu corpo então reluzindo ardente.
A resiliência de criaturas de alto Nível nunca deixava de impressionar, independentemente de quantas vezes eu a visse.
Porém, mesmo elas podiam cair: então sua armadura de placas aço via-se maleável demais para impedir a passagem das lâminas e flechas de cerca de quarenta soldados da Liga Sacra, incluindo a mim mesmo, que recuperei minha espada uma vez que o orc a retirou de sua cara.
Finalmente o Cavaleiro das Sombras caía de joelhos, perfurado meia centena de vezes, envenenado e carbonizado.
Nossa líder massageou seu pescoço, por mais que não tivesse sido realmente ferida devido a um gorjal bem forjado. Uma vez recomposta, ordenou:
— Desativem o elevador.
A obedecemos em silêncio, desconectando os contrapesos do dispositivo. Em seguida, nossa capitã ergueu uma varinha mágica e disparou um sinal para os céus escuros do abismo, sinalizando nosso sucesso na tomada do elevador.
E nós devemos ter sido os últimos a conquistar os objetivos secundários, pois tão logo quanto nossa líder sinalizou, as forças principais, cercando a Cidade do Abismo, começaram a avançar.
Se nossa batalha numa pequena fortificação lateral havia sido tão complicada, eu mal podia imaginar o tamanho da dificuldade da guerra que decorria diante de meus olhos lá abaixo; a vasta maioria esmagadora dos membros de alto Nível e nobres do exército das sombras havia sido reunida na Cidade das Sombras. Pelo que ouvi, Cavaleiros tão fortes quanto aquele com que tivemos tanta dificuldade em derrotar serviram como soldados rasos da última resistência do Rei das Sombras, que continha monstros inúmeras vezes mais poderosos.
Mas nós também possuíamos uma carta na manga.
— Haha. Insano — foi tudo que consegui comentar quando vi uma fração do poder do Herói pela primeira vez, a horas de marcha de distância de minha posição e no escuro. Bem, quando ele usou tal poder, de repente o abismo não era mais tão escuro.
Um semicírculo de luz branca do tamanho de uma vizinhança inteira atingiu o topo da muralha da Cidade do Abismo em cheio, e os inúmeros Cavaleiros, e até alguns Barões das Sombras, simplesmente... sumiram. Reduzidos a nada num único ataque antes mesmo da batalha começar.
E os companheiros do Herói, os Heroicos, não ficaram para trás também, um deles invocando um enorme cavalo de chamas que voou direto contra as portas da Cidade do Abismo e arrombou-as numa única investida, outro membro do mesmo grupo correu verticalmente sobre a superfície da muralha, multiplicou-se em centenas de vezes e picotou o exército das sombras com seus clones, cada um empunhando um par de adagas. Como se isso não fosse o bastante, pelo que eu havia ouvido dizer, a Curandeira do grupo do Herói era muito bem capaz de reconectar membros perdidos, os soldados que lutavam perto dela o fazendo com a certeza de que eram quase imortais.
A distância entre aqueles como eu e aqueles como o Herói era como aquela entre um suspiro cansado e um tornado.
Naquele dia, após muitos anos de guerra, o Rei das Sombras foi finalmente abatido pelo Herói e seu grupo de aliados mais próximos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário