Capítulo: 14
“Pela primeira vez em milênios, os humanos contataram diretamente tribos distantes, e não através de comerciantes que traziam produtos para abastecer sua guerra sem fim. E perceberam que o poder bélico que haviam desenvolvido e acumulado ao longo dos últimos três mil anos era tão vastamente superior ao de todos os seus outros vizinhos para além de seu continente de nascença, e que se assim desejassem, poderiam facilmente conquistá-los.
E assim o fizeram.
Quarenta e quatro pequenos países, menores mesmo do que a maioria das subdivisões das menores nações sob o Domo que separa a Tinta além dos céus de nosso chão, os únicos restantes ao fim da Era Vermelha, empregaram suas armas mais poderosas, os quarenta e quatro Príncipes Conquistadores.
De tais armas, poucas informações restaram, mas os fragmentos de detalhes que ainda possuímos são terríficos em suas descrições e exalam a engenhosidade e brilhantismo de nossos antecessores.
Skanda’al foi um Príncipe Conquistador que fazia com que exércitos humanos inteiros, após cometerem suicídio frente ao constructo mágico, fossem reencarnados já adultos e portando todos os equipamentos com os quais morreram, no lugar dos filhos que nasceriam nas nações inimigas, de tal forma transformando todas as fêmeas grávidas dos países atacados em armas. Por tempo indeterminado, quando uma cidadã da nação alvo dava à luz, até que todos os soldados humanos já tivessem reencarnado, ao invés de um bebê, seria um soldado armado que romperia a placenta e não hesitaria em abater todos os presentes ao seu redor.
Ax’din foi uma construção massiva que teletransportava todos os habitantes do país alvo para dentro de si, e os forçava, através de um sistema de “pregos” (cujo significado foi perdido nos anais da história), a lutarem até a morte para o entretenimento dos humanos, semelhante a uma arena gladiatória. Relatos de um humano influente que frequentou tais exibições apontam que, ao fim dos tais chamados espetáculos, a pilha de corpos composta por milhões de pessoas (se é que podiam ser assim chamadas) não-humanas podia alcançar mais de trinta minutos de marcha de ponta a ponta na base, e mais de dez minutos de marcha de altura, e indicam também que havia o costume de devorar os corpos dos abatidos pelas próximas semanas, mesmo quando estes entravam em estado de putrefação, como apenas uma espécie gloriosa como a humana seria capaz de fazer, temendo a nada. O único sobrevivente do espetáculo era então aprisionado numa espécie de coleção nacional, atrás de grades feitas dos restos de seus compatriotas.
Além destes, sabemos também que o objeto celeste que chamamos de ‘lua’ já foi conhecido por ‘Fónóx’ e é também um destes Príncipes Conquistadores, apesar de sua função ser desconhecida nos dias de hoje.
Não demorou para que os humanos logo percebessem que não eram apenas seus vizinhos imediatos que podiam ser conquistados, mas os vizinhos de seus vizinhos, e os vizinhos destes também, e até terras ainda muito mais distantes. Sob o sol, não havia maior poder de guerra, não na mão das deidades protetoras dos outros países, não na mão dos maiores generais de estrangeiros com exércitos de centenas de milhões, não em magia ou metal, não em punhos, garras ou dentes, não em engenhocas ou desastres naturais.
Enquanto levavam séculos para os países do Continente Bélico tomarem meros passos de distância das fronteiras uns dos outros, além do mar e das montanhas que os cercavam, em meros dias eram capazes de anexar nações múltiplas vezes maiores que seu continente inteiro. E pelos próximos mil anos, enquanto puderam expandir seus domínios sem restrições, estiveram satisfeitos e em paz, cada um dos quarenta e quatro países, pela primeira vez, vivendo o império que sempre almejaram. Apesar de haverem muitas críticas insignificantes de espécies inferiores estrangeiras, então fez-se brilhar uma nova Era de Ouro dentro do Domo.”
- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.
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— Maldição! — Verônico socou o trono de ossos élficos em frente ao lago, espatifando-o em milhares de fragmentos.
Ele não era normalmente do tipo zangado, mas para ser justo, eu não o fiz para lidar com um oponente tão esguio. Não, eu o criei para dar discursos inspiradores frente a um inimigo avassaladoramente poderoso, para se fortalecer a partir dos sentimentos cultivados por seus amigos, e retalhar uma figura oponente que se mostre bem à sua frente.
— Tá tudo bem, parece que eles partiram às pressas e há pouco tempo — comentou Landa, pondo uma mão no ombro do Herói que respirava fundo, tentando se acalmar. — Podemos acampar aqui uma noite, talvez? — Sugeriu, cheia de segundas intenções muito além dos meros provocares que era o máximo que eu permitia brotar-lhe a mente.
— Acho que sabiam que estaríamos em sua cola neste ponto. Se têm tanta pressa, é porque temem a nós, e se nos temem, é porque ainda podemos derrotá-los! — acrescentou Mariah, descansando uma mão no outro ombro de Verônico.
— Elas têm razão, senhor Herói. Nem tudo está perdido ainda, mesmo que eles tenham reunido todos os monstros da região, dificilmente teriam mais que cinco mil orcs à disposição.
Verônico suspirou.
— Eu sei, amigos. Eu sei. Sinto muito por isso, é só... — Como poderia Verônico explicar para seus amigos que a falta da introdução de uma nova garota ao seu grupo, ou a presença de um mini-chefe para encará-lo sempre que alcançasse o último ponto onde seu alvo se encontrava, o deixava tão desconfortável? Sentia que havia algo estranho, mas admitir isso por si só era também estranho. A coisa que mais lhe fazia se sentir vivo, feliz, aventurar-se estava estranho, como chocolate sem doçura. — Nada. Enfim, não é hora de descansar. Vamos, temos de alcançar esses monstros e pôr um fim a isso antes que uma nova guerra sacra se inicie. Os países da Liga Sacra ainda estão muito enfraquecidos, populacional e economicamente para uma nova guerra, o solo sequer seria capaz de produzir colheita o suficiente para alimentar um novo exército.
— Hehe, eu sabia que você se recuperaria rápido. Esse é meu homem! — Landa sorriu, disfarçando o desapontamento pela rejeição de sua oferta.
— E desde quando ele é seu homem?! Para começo de conversa, ele é casado, e em segundo lugar, se fosse para escolher outra mulher, essa com certeza seria e-!
— Landa, os monstros deixaram algum rastro óbvio de para onde eles foram? — Saulo intrometeu-se, acabando com a competição.
— Sim, como você disse, deveriam haver cerca de cinco mil orcs e uns dois mil lebralos por aqui há apenas alguns dias atrás, e eles seguiram para o Norte.
— Para o Norte? Com tamanho número? Mas assim eles ficarão presos entre o Baixo Labirinto e o Degelago; sem os navios do Duque do Lago, jamais conseguiriam atravessar aquele corpo d’água sozinhos. Mesmo que orcs fossem capazes de construir embarcações, sequer existem árvores aqui para isso!
Um problema comum da região. Claro, campos de grama são cenários incríveis para grandes batalhas épicas e coisas do tipo, mas são praticamente um deserto de recursos essenciais como madeira ou rochas, e devido à extensão daquela região, levavam semanas para importarem tais materiais das madeireiras e minas mais próximas. Múltiplas vezes as culturas locais quase divergiram da minha estética favorita, e tentaram construir embarcações de palha, e casas de lama e palha, mas jamais que eu permitiria tais coisas horrendas no meu paraíso de arquitetura enxaimel.
— Isso não significa que... Os Reis das Sombras vão liderar um ataque à Cidado Lago?! — Verônico assustou-se. — Temos de nos apressar!
Rapidamente, o Herói e seus companheiros deixaram o abrigo abandonado de orcs e continuaram a perseguição ao rebeldezinho e seu minúsculo e insignificante exército.
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— Isso é... Estranho — comentou Landa, observando a cidade adiante, praticamente idêntica a todas as outras naquele continente, apesar de sua localização desfavorável. Mas o que lhe surpreendia não eram coisas como logística da construção e manutenção daquele assentamento, mas o fato de que este se via perfeitamente intacto.
— Não há sangue ou cadáveres de elfos ou monstros, não há paredes chamuscadas, ou portões arrombados. Tudo parece... normal? — Mariah notara também.
— Tem certeza de que o exército de orcs veio nessa direção? — Saulo questionou.
— É claro que sim! Quantas vezes você já me viu rastrear um inimigo antes? Alguma vez eu errei? Não, né? Então é claro que eu não erraria em rastrear a porra de um exército inteiro!
— Ficar discutindo aqui não vai nos levar a nada. Vamos investigar isso nós mesmos — Verônico liderou seus amigos em direção à cidade, tão confuso quanto os demais, porém certo do que fazer.
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— Como eu já te disse, o Duque está muito ocupado e não vai poder te atender pelos próximos dias — o guarda respondeu, carrancudo.
— Certamente ele seria capaz de fazer uma exceção ao Herói, que está em meio a uma tarefa de extrema urgência, não? — Saulo mal pode conter sua frustração.
— Como. Eu. Já. Te. Disse. O Duque está ocupado, e se ele tivesse tempo para lhes atender, já teria o feito. Agora, se isso era tudo o que vocês queriam, se retirem, pois temos de atender uma série de comerciantes que apenas precisam de selos de confirmação para deixarem o porto.
Verônico e seus amigos deixaram o edifício de administração pública igualmente confusos e frustrados. Não estavam acostumados com aquele tipo de tratamento, não sem ter uma oportunidade clara de revanche logo em seguida.
— O que fazemos agora? Com quem podemos falar para obter informações sobre os Reis das Sombras? — meu campeão coçou a cabeça.
— Se os meios oficiais nos falharam... — Landa assumiu a liderança com um sorriso confiante. — Só precisamos apelar para uma parcela mais desesperada da sociedade!
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— Cinco mil orcs? Não, garota, tenho certeza de que a cidade inteira teria feito um estardalhaço se esse número de monstros tivesse passado por aqui, e eu teria ficado sabendo — um elfo com dentes amarelos pelo fumo respondeu, quase zombeteiro. — Honestamente, existem formas muito melhores de desperdiçar seu dinheiro do que com perguntas absurdas assim...
— Droga... Parece que chegamos a outro beco sem saída — Verônico levantou-se do barril onde sentava-se, encontrando-se num galpão de depósito de cargas portuárias, e exibindo um semblante perplexo que seu rosto bonito jamais fora criado para expressar.
— Verônico — Landa chamou, sorrindo calmamente. — Se lembra quando você me recrutou para seu grupo?
— Uh? É claro, você fez uma baita cena tendo invadido as muralhas do castelo real para roubar comida dos guardas.
— Isso mesmo. Naquela época, eu fui pega e estava prestes a ser executada por este crime contra a família real... Mas você salvou minha vida me recrutando para sua equipe. E sou muito grata por isso. Muito grata a você. Mais do que a qualquer pessoa.
— Eu também, Landa. Você tem se provado uma Ladina muito eficiente e uma excelente amiga. Mas o que isso tem a ver com nossa situação?
— Significa que um bandido valoriza apenas uma coisa mais que o dinheiro — comentou, seu semblante repentinamente sério. — A própria vida! — virou-se rapidamente e chutou o informante bem no peito, arremessando-o cinco passos para trás e contra uma pilha de caixas.
— Buah! — sua vítima golfou, sem ar e enjoado pela pancada forte, desnorteado.
— Eu só vou perguntar mais uma vez, seu tolo: onde estão os orcs! — Landa questionou o homem, que não mais se mostrava tão zombeteiro.
— F-F-Foram embora! Pelo porto! N-Nas caixas!
— O que? — Verônico surpreendeu-se. — O Rei das Sombras enganou o Duque... Não, ele se aproveitou que o homem estava doente e conseguiu contrabandear seu exército pelas defesas enfraquecidas da cidade! Maldição, talvez ele mesmo tenha envenenado o homem! O quão mais à frente de nós o maldito deve ter planejado?! — fez uma série de pulos lógicos, todos errados.
Mas não me importei em corrigi-lo mentalmente. Porque o rebeldezinho havia cometido um erro ainda maior.
— Que decepção, senhor informante — comentou uma voz abafada vindo de um ponto cinco metros acima da cabeça de todos, e quando eles olharam para cima, surpresos, depararam-se com uma figura que apoiava-se na estrutura de madeira que suportava o telhado, toda trajada de preto, empunhando um par de adagas púgio, e vestindo a máscara de um gato irado. — Mesmo que tenhamos deixado tão claro que se você abrisse o bico, perderia a vida.
— Q-Quem é você?! — Verônico perguntou, desembainhando sua espada. Internamente, porém, se perguntava à quanto tempo o homem estava lá, aterrorizado pelo fato de que não havia sido capaz de detectá-lo. — Não... eu já sei quem é você: Rei Das Sombras!
— Uma de suas faces finalmente se revela — Saulo secretamente deixou uma série de Feitiços preparados mentalmente.
— Então essa é a parte Ladina do Rei das Sombras, hu? Ele é bom — Landa sorriu, sentindo-se ofendida e desafiada pelo mascarado por ele ter se esgueirado até eles. — Mas eu vou mostrar para ele que sou melhor.
— Não se deixe levar, não quero desperdiçar minha cura porque você fez uma besteira querendo se exibir — apesar da postura delicada e da voz controlada, Mariah era aquela que mais era consumida por ódio, encarando as orelhas pontudas do mascarado, que entregavam sua origem élfica.
— I-Isso mesmo! Muahaha! Então vocês já descobriram a nossa verdadeira natureza, ao que parece — o mascarado saltou de seu ninho ao teto e caiu do outro lado do galpão, relaxado. — Pois bem. Vocês estavam atrás de nós, não é? Um dos temíveis Reis das Sombras está bem na sua frente agora mesmo. Então? O que vão fazer?
— DESTRUIR CADA PEDACINHO DE VOCÊ! — Mariah berrou, abrindo os braços e projetando um disparo de luz solar em forma de cruz na direção do mascarado.
Quando seu alvo desviou do projétil, a magia trouxe toda uma parede do galpão abaixo, estilhaçando a madeira e levantando uma pesada cortina de poeira.
E por mais que aquilo não devesse ser um problema para o meu campeão...
— Perdi ele de vista de novo?! — Verônico não conseguiu localizar seu alvo em nenhuma das miríades de espectros de luz que conseguia enxergar.
— Ele deve estar usando magia das sombras para se esconder, fique atento! — Saulo explicou, conjurando uma rajada de ventos que carregou toda a poeira para fora do galpão.
— Vocês não se importam se eu levar esse daqui comigo, não é? Minhas outras faces me zoariam se eu deixasse alguém que nos traiu viver — comentou o mascarado em tom brincalhão, ressurgindo a partir de uma nuvem amorfa de sombras, segurando o informante como refém sobre um ombro.
— O único que vai morrer aqui é você! — Landa prometeu, empunhando suas adagas stiletto e avançando sobre o mascarado.
A Ladina Heroica brandiu as armas em “X”, em “Z”, estocou, e deferiu chutes contra seu oponente, mas o mascarado defletiu, esquivou e bloqueou todos os seus golpes sem falha enquanto escalando as paredes do prédio mais próximo, correndo na vertical, e saltando de telhado em telhado.
— É seu fim! — Verônico finalmente interferiu, tendo acompanhado seu alvo das ruas abaixo, e saltado sobre este na primeira oportunidade que teve. — Droga! — no último segundo, porém, o mascarado escondeu-se da espada de Verônico atrás de seu refém, e o Herói desviou sua lâmina e a energia luminosa que cobria a arma, tal energia sendo atirada numa direção aleatória e partindo o farol da cidade em dois, trazendo-o ao chão ainda que estivesse a muitas quadras daquele local.
— Uau, tenho certeza de que o povo desta cidade vai se lembrar de vocês com muito amor quando tiverem concluído seu trabalho aqui — o mascarado riu, saltando sobre uma estátua de bronze do Duque na praça da cidade.
— Eles vão agradecer quando descobrirem da peste da qual livramos eles! — Saulo disse, flutuando sobre seu alvo. Apontando suas palmas para o inimigo, conjurou um tornado de chamas que brotou aos pés da estátua de bronze, e ergueu-se uma centena de metros de altura.
O calor do enorme pilar espiralado de fogo foi tamanho que toda tábua de madeira, palha e material inflamável voltado para a praça num raio de vinte e cinco metros entrou em combustão instantaneamente.
— Saulo! — Verônico chamou, horrorizado.
— Não se preocupe, senhor Herói — batendo as mãos, o tornado flamejante se dissipou e revelou uma pilha de bronze derretido formando uma esfera, uma prisão de metal liquefeito e resolidificado. — Eu o imobilizei para você e dei resistência ao fogo para o refém, ele deve estar intacto.
— Obrigado! Dessa vez, não vou errar — Verônico apontou sua espada sagrada para a esfera de metal derretido. E ao mesmo tempo que a esfera começou a abrir-se como uma flor desabrochando, a espada do Herói carregou-se de seu poder cintilante. — Alvorada! — Verônico disparou na direção de seu alvo assim que este se mostrou visível.
Mas, graças à sua Percepção superior, rapidamente percebeu uma série de anormalidades na figura que encarava: sua postura estava desajeitada demais, as adagas que empunhava não eram idênticas às anteriores, e o refém não se mostrava em nenhum lugar.
— Oh, não! — mais uma vez, quando sua arma estava prestes a tocar o mascarado, Verônico desviou sua arma, então para os céus.
Da ponta de sua espada sagrada, um cegante raio de luz inicialmente tomando a forma de um pombo, fora disparado, cortando as nuvens, ofuscando o próprio sol com sua cintilância, extinguindo todas as sombras em todo o território do Duque da Cidado Lago, queimando à pele de qualquer monstro exposto a sua luz e reduzindo-o às cinzas, fazendo todos os elfos que o observassem se arrependerem de todos os pecados que já haviam cometido. O pilar de luz subiu, subiu, e não parou de subir, até que por fim chocou-se com a lua, quando viu-se ricocheteado de volta ao chão.
— Oh, Deus, conceda-nos sua proteção divina! — Mariah rezou, de olhos fechados. E um escudo amarelado e semitransparente surgiu sobre o assentamento no qual todos encontravam-se.
A proteção divina conjurada pela Curandeira, porém, não parou a subsequente chuva de centenas de fragmentos de luz; nada seria capaz de fazê-lo.
A magia perfurou telhados, pisos, ruas e esgotos, e ainda cavou o chão em muitos metros, cada uma das gotas de luz provocando uma cratera de cinco a quinze metros de diâmetro, e praticamente aniquilando a infraestrutura que os locais (e eu) haviam tido tanto trabalho para erguer nos conformes de meu gosto.
— N-Não foi o que-!
— Não se preocupe, Verônico, a proteção divina não permite que mal algum recaia sobre pessoas de bom coração. Ninguém se feriu — prometeu Mariah... omitindo o fato de que quase setenta criminosos que ela julgava merecer punição haviam tido cada célula de seu corpo completamente vaporizada, incluindo o próprio Duque local.
Aquilo era simplesmente contra tudo o que eu criei aquela mulher para representar, não havia perdão ou compaixão por malfeitores em seu coração, e lendo seus pensamentos percebi que ela só não permitiu a aniquilação de ainda mais pessoas apenas para que seu líder não percebesse as mortes.
Observando as pilhas de roupas branqueadas deixadas para trás pelas vítimas do acidente, me senti conflituoso. Nada daquilo era ideal, não aquelas mortes, não a destruição causada por meu campeão, não a mudança de personalidade de meus brinquedos. Mas no fim do dia, nada daquilo importava. Uma vez que aquela brincadeira chegasse ao fim e o rebeldezinho morresse, eu poderia voltar no tempo e estourar-lhe uma artéria cerebral assim que ele percebesse a natureza de sua realidade, evitando tudo aquilo. E eu não corroborava para com aquilo por um senso de honra para com nosso acordo, ou dever, mas apenas para provar para a Maior quem realmente precisava de quem naquele mundo.
— Ufa! — o Herói suspirou, tranquilizado, confirmando que “ninguém” havia se machucado. — Aquele maldito... — aproximando-se da figura mascarada, Verônico revelou que seus trajes eram apenas sombras, que dissipavam-se rapidamente: — Ele deve ter se aproveitado do meu momento de distração, quando chamei a atenção de Saulo, e substituiu a si mesmo pelo refém.
— E não vi nem rastros do último navio a zarpar lá de cima — Saulo comentou, flutuando de volta para o chão, conflituoso. — Devem ter usado algum tipo de Feitiço para acelerar o movimento das embarcações, ou ocultá-las de nós. Sua face mágica é poderosa.
— E considerando o tamanho deste lago, duvido que vamos encontrá-los nessa situação apenas voando ou correndo por aí aleatoriamente — Verônico massageou sua glabela. — Maldição, por que o Rei das Sombras dessa vez não pode agir como todos os outros e simplesmente escolher uma direção, um exército, e nos encarar de frente?!
— Ele deve ter algum plano... só precisamos descobrir qual é. Vamos acha-lo de novo — Saulo tentou soar animador, mas percebeu que, sem ideia do que o inimigo da vez tinha em mente, falhava.
— Vocês disseram que ele tinha só cinco mil orcs. Isso não é nem de perto um exército grande o bastante para enfrentar a Sacra Liga, não é? Ele deve ter ido para algum outro lugar com grande concentração de monstros — sugeriu Mariah.
— ...É. Deve ser isso. Saulo, onde fica a maior concentração de monstros do outro lado do Degelago?
— Ah, esta só poderia ser a Cidade do Abismo.
— É para lá que vamos, então.
Verônico e seus amigos entenderam tudo errado.
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“Verônico, meu esposo, meu Herói. Minha mãe demitiu minha instrutora de dança. Disse que é um desperdício de dinheiro pagar tão caro por algo para o qual eu não tenho talento. Disse que eu não tenho talento para nada. Disse que é por isso que, mesmo quando a guerra sacra acabou, você passava tanto tempo viajando e caçando os remanescentes mais fortes do exército das sombras, ao invés de deixar isso para nossos generais.
- Atenciosamente, Princesa Criscina.”
“Aah, me lembro bem desse tempo. Passei semanas explorando túneis subterrâneos atrás de um Duque das Sombras que tentou contatar Demônia em pessoa e pensou que conseguiria chegar ao inferno a pé! E também teve um Marquês que tentou recrutar os necromantes da Cordilheira das Guardas, e enquanto todo mundo me garantiu que isso não aconteceria, que ele não seria o primeiro ou último a tentar convencer aqueles esquisitos a juntarem-se à sua causa, e que acabaria apenas como um experimento dos eremitas necromantes, preferi não arriscar e lidar com tal Marquês de uma vez por todas também. Até considerei acabar com a ameaça necromante também, mas me senti mal conforme me dirigi em direção às montanhas que os abrigam, e Mariah me convenceu a voltar; ela estava preocupada com o próprio Herói, acredita? Hahaha!
Enfim, não se preocupe, Criscina, você é bonita. Tchau.
- Herói Verônico.”
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