Capítulo: 18
— O aprendiz de m-m-minha aprendiz — comentou o velho, descendo as escadas iluminadas por luz emitida de seu cajado modificado por peças ancestrais. Soltou uma gargalhada seca.
Havíamos há muito tempo deixado o campo de tiro ao alvo para trás, passando por uma série de criaturas petrificadas, cercadas de cogumelos; trabalho do velho artífice. Então, carregávamos nosso saque, incluindo a caixa fechada, que era minha última esperança de conseguir uma arma ancestral para mim mesmo.
— Eu esperava que você fosse mais m-m-macio, mas de aparência, está dentro dos padrões dela. A m-m-menina sempre foi meio gay.
— Ei! — Felicida gritou. — Como se atreve a chamar meu mestre de afeminado!
— Felicita. Ele nunca usou essa palavra — apontei com minha expressão mais neutra.
— ...D-Desculpa, mestre.
— Diga-me, onde está aquela m-m-minha aprendiz tola? Ela conseguiu a casa de conto de fadas que sempre sonhou? Ou virou uma das cabeças do Sindicato?
— Ela morreu.
Silêncio. Os passos confiantes do velho artífice eremita hesitaram apenas por uma fração de segundo antes de prosseguirem escada abaixo, fazendo ecoar um tilintar metálico de seu cajado contra os degraus de aço vazado.
— Entendo.
— ...É por isso que estou aqui, na verdade. Ela me deu alguma ordem estranha antes de morrer. Uma que ainda não sei como cumprir. Disse que eu já sabia como fazer isso parcialmente, mas que ela não podia me explicar por algum motivo. Disse para eu ser livre.
— Entendo — Versus repondeu de novo, dessa vez com o mais leve dos traços de um sorriso no rosto.
— Entende? E o que isso quer dizer? O que eu devo fazer?
— Como eu vou saber, m-m-moleque? Artífices são feios e esquisitos; quanto mais talentosos, mais feios e mais esquisitos. E sua m-m-mestra era talentosa como ninguém — sorriu. — Não faço ideia do que se passou na cabeça dela. Nunca fiz. Ela criou seu próprio feitiço original baseando-se na minha manipulação de plantas antes que eu lhe convencesse de que focar em feitiços diretos era algo estúpido. E suas loucuras não param por aí! Quando ela era apenas uma adolescente, enfrentou o artífice clandestino de seis pontas Josefinaldo, infame por reduzir um castelo inteiro a cinzas. Ele a interceptou no sertão, sem qualquer m-m-morto que ela pudesse usar. E sabe o que ela fez? M-m-m-minha aprendiz doida cortou fora a própria mão e a enfeitiçou para matar o inimigo!
— Durante a rebelião do falecido Patrono Absoluto Orlan, eu vi a Décima transformar formigueiros desimportantes em minas terrestres indetectáveis — Salessandra comentou, sua voz cheia de admiração.
— Na mesma época, vi a Décima matar mais de duzentos soldados inimigos que abrigavam-se numa fortaleza. Acontece que tal fortaleza era a casca de um tatu-montanha, que ela enfeitiçou para esmagá-los todos de uma vez — adicionou Edgardo, sério e respeitoso.
Minha antiga Mestra era a mais forte. E ela havia morrido.
— Ela pensava que você estava morto — apontei. — Você deveria estar morto, sem nenhum equipamento de proteção nesse lugar.
— Diferentemente do que pensam na Terra Sadia, a Perdição não é uma doença, nem azar. Eu estou bem. Contanto que ela continue dormente. Contanto que o azar a m-m-mantenha dormente... Contanto que ela não sinta ainda m-m-mais azar em outro lugar, que não saiba que ainda há mais de nós, não convertidos.
— Então, o que é a perdição? — perguntei, bem quando alcançamos o fim da escadaria e um par de portas de metal.
— Exatamente o que eles queriam — respondeu Versus, abrindo as portas com seu cajado. — E o motivo pelo qual ainda estou aqui.
Atravessando a soleira das portas de metal, entramos no que deveria ser o nível mais profundo daquela instalação, um fosso do tamanho de um horizonte e igualmente profundo, abrigando um arpão cor-de-ossos tão grande que eu não conseguia ver o fim.
— Uma estrela cadente — apontou Felicita. — Os rebeldes planejam usá-las como arma de destruição em massa de alguma forma.
— Bem informada, sua aprendiz — Versus assentiu em confirmação. —Oficialmente, eu fui enviado para cá para estudar essa coisa, mas foi, na verdade, uma sentença de morte não oficial, porque uma vaga no comitê triplo havia surgido e fui considerado uma ameaça para as facções que competiram por esta — encarando a própria mão, marcada por uma horrível cicatriz, adicionou, sussurrante: — M-m-mas quando meu traje foi violado, o que eu experienciei não foi a morte. Foi uma explosão de vida.
— Você foi infectado pela Perdição e sobreviveu? Como? — eu quis saber.
Dando de ombros, Versus voltou a andar, seguindo para uma outra porta.
— A perdição tem origem mágica, e magia é algo muito menos preto no branco do que o Sindicato acredita. Não, as próprias regras do universo são! — abrindo a próxima porta, revelou o que parecia ser sua base; uma sala com muitos livros e materiais de estudo e pesquisa, uma cama simples num canto, e inúmeros objetos ancestrais saqueados.
Trocamos olhares, repentinamente preocupados, enquanto Versus vasculhava os baús e armários de seus aposentos.
— M-m-matéria é criada e destruída com o poder de pensamentos, pensamentos são controlados por mentes mais fortes; velocidade, temperatura, espaço, tudo o que existe é sujeito aos caprichos de artífices ou m-m-marechais. Tudo a mesma coisa, honestamente — Versus continuou, despejando inúmeros equipamentos valiosíssimos ao chão, descartados como tralha. — Será o sol, mesmo, apenas um mero feitiço massivo de controle de temperatura e luminosidade evocado pela nossa benevolente Origem? Ou isto é apenas um efeito colateral insignificante? M-m-mesmo o feitiço mais idiota do aprendiz mais incompetente cria luz e calor, afinal. E quanto a todas as outras estrelas no céu? Cada uma abriga mais como nós?!
— Uh, senhor Versus, estamos profundamente gratos por sua ajuda, mas nós temos que voltar ao barco logo — Edgardo explicou, recuando o mais educado que podia.
— Eles gritam dentro de m-m-minha cabeça dia e noite, sem descanso, bilhões de almas implorando para que eu me junte a elas, que nos tornemos um só, para que eu permita que moldem meu corpo e mente num verdadeiro servo do divino! O que as videntes enxergam no fim dos tempos?! O que temem as estrelas?! Aaai, apenas ignorantemente dizer “não” dói tanto! E não para de doer! — armários eram tombados pelo velho mestre de Morrogna, baús revirados, e caixas chutadas para longe.
— Vamos — Edgardo me puxou pelo braço. — Eu sei como você se sente, mas até sua Mestra sabia que ele já estava morto.
Saíamos do quarto de Versus, quando este gritou:
— Aprendiz de minha aprendiz! — parei para ouvir, e quando me voltei à Versus, mal tive tempo de reagir aos objetos que ele jogou em minha direção. — Vocês não chegar a tempo se voltarem por onde vieram. Os canos verdes na parede levam até uma saída. Os sigam. É mais rápido e seguro. Eu vou... Eu tenho que continuar meus estudos — concluindo suas instruções, Versus sentou-se à escrivaninha, encarando um dos muitos documentos sobre esta.
— ...Obrigado — hesitei, me perguntando o quão prepotente aquilo que eu segurava à garganta poderia soar. Me lembrando do que minha antiga Mestra pensava sobre tais preocupações, sorri. — Eu não sei se isso pode te ajudar em sua própria missão, mas eu sinto que minhas decepções me ensinaram tanto quanto minhas vitórias. E a Terra Sadia ainda está cheia de pessoas que podem te decepcionar.
Partimos.
✹
— O Mestre está tão maneiro! — Felicita falou, tremendo da cabeça aos pés. — O Mestre é o mais descolado de todos!
— Huh, quem diria que você conseguiria suas primeiras tatuagens depois de morto?
— Salessandra! Por favor, que rude!
— Que foi, Ed? Eu só quis dizer que é curioso?
— Não dê ouvidos a ela, senhor Edgardo, ela só está com inveja porque as tatuagens do Mestre são muito mais legais do que as dela. E o cabelo muito mais bonito também.
— Até parece, pirralha! E só para você saber, meu corte é uma escolha estratégica!
Enquanto meus companheiros discutiam entre si animadamente, eu examinava os reparos feitos pela relíquia ancestral cedida a mim por Versus: uma liga de metal dourado havia substituído a quitina perdida e preenchido as rachaduras que se espalhavam mais e mais pelo meu corpo artificial, enquanto a casca branca que ainda restava e compunha a maior parte do meu exterior havia recebido intrincados desenhos na cor azul de flores há muito extintas, bem como meu cabelo e íris haviam também se tornado azul e dourado.
Toda aquela mudança estava contida num dos dois presentes que Versus me deu, uma maleta que detectou os danos no meu corpo e os reparou sozinha, com uma miríade de pequenas aranhas metálicas que controlava.
Enquanto os reparos (e mudanças estéticas) eram muito-bem vindas, eu podia dizer instintivamente que minha força e resistência estavam, em geral, inalteradas.
— Eu não estou ofendido, Salessandra pode fazer tatuagens novas quando voltarmos, e obrigado pelos elogios, Felicita — interrompi meus companheiros. — Já estamos quase lá.
Logo o vagão de mão que operávamos parou e saímos próximo ao mar, atrás do que um dia deve ter sido uma banca de jornal de fachada.
Subindo à superfície, fomos recebidos por um outro tremor. E nossos alertas passaram a piscar.
— Vamos sair logo daqui, nenhum saque é o suficiente para nos manter vivos por muito tempo nesse lugar perdido... bem, vivos e sãos — Salessandra tomou a dianteira.
Poucos instantes depois e logo antes do horário de partida, nos aproximávamos do anfíbio que nos trouxe àquele fim de mundo, mas os tremores também aumentavam perigosamente de intensidade.
— Corram — eu disse, disparando na direção do anfíbio o mais rápido que podia.
O chão tremia sob nossos pés e vapor subia das bocas-de-lobo escondidas sob a densa vegetação. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava, mas eu tinha um mau pressentimento.
— Hwaaah! — ouvi um marujo berrar, caindo à minha frente e esquerda.
Corri para ajudá-lo, mas quando o alcancei, era tarde demais: o pobre coitado havia sido soprado pelos vapores- não, pelos esporos vindos do subsolo, e sido mumificado pelo fungo cujas raízes trespassaram o macacão protetor num instante.
— É tarde demais para ele, continuem! — Salessandra me puxou pelo braço, e tornei a correr.
— A mochila dele...
— O quê? O desgraçado sem sorte tinha alguma coisa valiosa? — gesticulei para discutirmos aquilo depois, e Salessandra assentiu.
— Haarff! E-Eu nunca... C-Corri tanto na minha vida...! — Felicita reclamou quando finalmente entramos no veículo anfíbio, e este logo retornou ao mar de cor vermelha e salgada.
— Você foi bem — estapeei suas costas levemente.
— ...Hoo... Hoho...! — minha aprendiz riu baixinho.
— Então? O que havia na mochila do morto? — Salessandra perguntou baixinho, nosso grupo sentado afastado dos demais; com a morte de um terço dos novatos e pelo menos dois veteranos, havia muito mais espaço no interior do veículo.
— Amostras da perdição.
— Pesadelo. Mas por quê?
— Vocês não viram nada relacionado a isso no prédio que invadiram em Amore? — Felicita perguntou.
— Aah. Isso explica como eles estão produzindo aquelas abominações. E porque o capitão desse grupo de recuperadores tinha influência sobre os guardas — Edgardo repensou os acontecimentos.
— Enfim, o que vamos fazer agora, Mestre? Com os materiais que estamos recuperando, provavelmente faremos dinheiro o suficiente para vivermos tranquilos por várias estações antes de precisarmos partir na próxima expedição de recuperação. Se usarmos da influência do capitão, podemos muito bem viver tranquilamente em algum lugar da Supremacia Purista até lá. Então? Você encontrou sua brincadeira favorita enfrentando leviatãs ou piratas, explorando a Terra Perdida e fazendo montanhas de dinheiro?
Por algum motivo, Salessandra e Edgardo pareceram igualmente interessados no assunto, me encarando atentos e em silêncio.
— ...Como se eu quisesse passar mais um dia sequer sentindo o cheiro de podre dos leviatãs, de piratas ou dessa Terra — respondi minha aprendiz com uma metáfora e um sorriso. — Não se preocupe, vocês são livres para fazerem o que quiserem quando atracarmos, e isso não me interessa, mas voltando à Terra Sadia, vou te ressarcir pelo seu vestido.
— Mestre! Você não precisa, por favor! N-N-N-Na verdade, s-s-s-se você preferir... pode rasgar ele todo, com os próprios dentes!
— Machius! — Edgardo me puxou para perto de si mesmo enquanto Salesadra zombava de Felicita, dizendo que eu preferia mulheres mais velhas. — Meu bom rapaz, eu sei que você... tem muita coisa dentro de si agora, mesmo. Mas, sabe? Você não precisa repetir esse ciclo odioso, você pode quebrá-lo! — o artífice continuou, cripticamente.
Não demorou para retornarmos ao navio, onde o capitão nos recebeu com fanfarra ainda maior quando viu todos os artefatos que recuperamos. Ele ainda tentou se apossar do rifle e da “bazuca” (nome a nós revelado por Versus) que meus companheiros tomaram para si, mas a mestra da casa de máquinas o convenceu a nos deixar manter os itens como recompensa pelo evento com os leviatãs.
Infelizmente, quando retornávamos à Terra Sadia, piratas não se importaram com o quanto eu não queria lutar com eles, e não deixaram passar nossa embarcação com canhão danificado.
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