Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 7

Capítulo: 7


No dia seguinte, uma intensa tempestade de vidro garantia que não haveria ataques na superfície, ventos poderosos levantando os cacos criados pelos bombardeios de mais de um ano atrás e picotando tudo e qualquer coisa em seu caminho. Todos patrulhávamos o subsolo à procura de qualquer vulnerabilidade, outro túnel que os inimigos haviam, de repente, se tornado especialistas em cavar.

A Mestra e eu andávamos sozinhos ao longo de um dos vários corredores subterrâneos.
— ...Minha vila não era tão diferente da sua, sabe? — comentou, esfregando o enfeite de borboleta que saqueou de um corpo com o polegar. — Toquestrela. Um assentamento com não mais de duzentas pessoas, localizado bem à sombra de uma estrela cadente. Metade de seus habitantes criava caracóis, e a outra metade fazia produtos a partir dos bichos. E eu teria seguido um desses caminhos, tido uns doze filhos e morrido há uns cento e cinquenta anos se eles não tivessem passado por lá.

— Eles quem? — Minha ordem era para demonstrar curiosidade.

— A família Patrona Absoluta. Bem, na época eles ainda não se chamavam assim, mas estavam se preparando. Tinham acabado de recuperar a aeronave ancestral que viriam a usar como quartel-general, arma principal, e posteriormente palácio. O veículo era maior que meu vilarejo inteiro, e possuía mais tripulantes também. Mas ela era apenas tão linda — apertando o pingente de borboleta, fitava o nada, uma memória distante.

— A nave?

A Mestra sorriu.

— Também. Mas eu falo da Patrona Absoluta Consorte. Seu vestido era como as pétalas de uma flor, suas joias como as estrelas do céu noturno, sua pele sem falha, viva e corada, e seu cabelo tão sedoso e brilhante — seu sorriso sumiu. — Foi então que eu entendi que eu odiava aquela vila. Eu odiava o quão pobres éramos, o quão feios, o quanto nossas vidas eram curtas, o quão impotentes éramos.

— A Mestra não é nada disso. A Mestra é a artífice mais forte de todo o Patronato — como muitas vezes antes, as palavras deixaram meus lábios automaticamente. Porém — Uh...? — eu não soube dizer de onde exatamente elas vieram.

— Oh, Machius. Meu fofíssimo aprendiz — suas mãos enluvadas delicadamente acariciaram minhas bochechas. — Sua Mestra é a maior idiota de todas.

— Isso-

— Silêncio — não tive escolha além de obedecer à ordem. — Você tem razão. Eu sou forte.

Continuamos nossa patrulha, e a Mestra continuou seu relato:

— Depois da família Absoluta ir embora, não demorou para que um artífice procurador aparecesse. Eu não pensei duas vezes em implorar para que ele me tornasse sua aprendiz. Ele disse que não podia fazer isso, que estava perseguindo um clandestino perigoso na região e não em busca de aprendizes. E eu disse que aquilo era besteira — Morroga riu. — A família Absoluta havia visitado, oficialmente, para parabenizar um líder local por qualquer merda, mas eu disse que isso fazia tanto sentido quanto se o líder local visitasse minha casa para me dar feliz aniversário. Então, quando o artífice procurador apareceu, eu soube que ele estava lá pelo mesmo motivo que os Absolutos. E ouvir isso o impressionou tanto que ele me aceitou como aprendiz.

Caminhamos em silêncio por alguns minutos, alcançamos o final de nossa rota de patrulha, e começamos o caminho de volta.

— Versus, meu mestre, era um artífice atraente e talentoso, capaz de conjurar feitiços de sete pontas. Ele foi o favorito para entrar no comitê triplo em sua época, mas sua promoção sempre parecia apenas um passo adiante por um motivo ou outro... Na época eu não entendia o porquê — de repente, sorriu. — Ah, não precisa se preocupar, ainda que tenha sido meu primeiro amor, Vérsus gostava de homens, e hoje em dia ele deve estar morto. Foi mandado numa missão suicida para muito longe e nunca mais voltou.

Alcançamos novamente os aposentos de Morrogna ao fim da ronda, e ela abriu a porta.

— Mas hoje em dia eu entendo. Demorei até demais para entender. Competência não é tudo quando se tratando dessas coisas — entramos no quarto. — Tire a roupa.

— Sim, Mestra Morrogna — odebeci.

Seguindo a direção que minha Mestra apontava, após despir-me por completo, sentei-me à cama.

E logo ela veio, prendendo o cabelo atrás da orelha.

— Há muito mais o que se aprender do que técnicas de magia, meu fofíssimo aprendiz — comentou, deslizando seu dígito sobre toda minha extensão. — Tanto mais que quero te mostrar... — beijou minha ponta, que começava a vazar algo como saliva. — Muah... muah... muah... — a cada novo toque de seus lábios, eu tremia mais. Então: — Hmmm...!

Morrogna engolia meu membro por completo, da ponta à base, envolvendo-o com a língua e chupando-o como se tentando ordenhá-lo.

— Urgh- Ah.

— Fufu — seus olhos de escuridão insondável me encararam, apenas levemente apertados, satisfeitos.

Quanto mais fundo ela me tomava, mais próximo eu ficava de seu calor; naquele instante, eu podia mesmo sentir seus batimentos cardíacos no fundo de sua garganta.

— Ah- Mestra...

Morrogna soltou minha virilidade com um estouro, “pop!”.

De pé na minha frente, desabotoou a própria calça e a deixou cair aos tornozelos, expondo sua roupa íntima negra bem à altura de meu rosto.

— Considere isso uma lição. Agora, seja um bom aprendiz e satisfaça sua Mestra do mesmo jeito como te mostrei — ordenou, segurando meu queixo delicadamente.

— Sim, Mestra.

Minhas mãos se moveram até o cós da calcinha, mas fui logo impedido.

— Não. Primeiro, se introduza direito. Me beije, me acaricie.

— Sim, Mestra.

Os feitiços que animavam meu corpo não sabiam exatamente como tocar no corpo de uma mulher de forma a lhe dar prazer, e eu também não conseguia encontrar qualquer referência nas memórias de quando eu era Machius de Macus, tendo sido morto ainda muito jovem. Dei meu melhor e segui as instruções à risca.

— Nghn... — Morrogna reagiu quando desajeitadamente deslizei meu dedo indicador na vertical sobre ela, seguindo sua fenda. — Aghn...! — gemeu baixinho quando plantei um beijo no mesmo lugar. E enquanto eu continuava a fazer como ela pediu, comentou: — Eu sempre deixava você lavar nossas roupas. Me pergunto quantas vezes você sujou minhas calcinhas antes de lavá-las... Hmm! — segurando meus cabelos firme, ordenou: — Isso, agora faça como eu mostrei — expus sua entrada sem remover sua roupa íntima, e passei a beijá-la diretamente. — Ah... ah... Porra. Eu gostava de deixá-las bem molhadas antes de jogá-las no cesto de roupas- Hm! Será que você as cheirava? As lambia? Aah... porra! Ah!

Tentando copiar a forma como minha Mestra usou sua língua mais cedo, eu projetava papilas gustativas ao seu interior, quando Morrogna me empurrou ao colchão.

Ela ofegava enquanto suas mãos deslizavam por sobre toda minha face e cabelos.

— T-Tão fofo...! Ah, eu quero fazer você vestir todo tipo de coisa!

— Agh — grunhi quando senti o peso da cintura larga de minha Mestra me envolvendo.

— Quero ver você tremendo enquanto eu te como na hora do café! — sua saliva pingava sobre mim de seus lábios de baixo e dos de cima. — D-Diga que me ama!

— Eu te amo, Mestra Morr- — fui interrompido, sufocado.

— Porra... Porra!

Entre confissões de seus desejos e pedidos de todos os tipos, a Mestra me usou até se satisfazer por completo, daquela vez não parando quando a preenchi apenas uma vez, mas levando meu corpo de serviçal a limites para os quais eu não havia sido preparado.

E como da última vez, quando apetecida, sentou-se à sua escrivaninha e meditou, ora encarando os próprios pés, ora a mim.

Eventualmente, porém, a tempestade de vidro cessou, e todos retornamos ao que havia se tornado uma rotina na qual apostávamos nossas vidas a cada hora.

 

 

Semanas depois, um bombardeio repentino reduziu meu corpo a pequenas frações carbonizadas.

— Sim, infelizmente isso é o melhor que posso fazer — tão surpreso quanto os complexos sistemas mágicos dentro de mim me permitiam ficar, abri os olhos nos aposentos de minha mestra. — Só o fato de que consegui ao menos reanimá-lo já é surpreendente! Foi pura sorte que a cabeça e parte da espinha voaram para longe, intactas o suficiente para que eu pudesse sequer ativar o serviçal de novo! — o artífice produtor argumentou, agitado.

Mas a Mestra apenas me encarava em silêncio por trás de mechas de cabelo escuro que ocultavam-lhe parcialmente a face.

— Você transformou meu serviçal numa estátua — Morrogna apontou que agora todo meu corpo era constituído pela mesma quitina similar à porcelana que substituiu meu braço. Era uma réplica quase perfeita de meu corpo original, mas dura, fria e pálida.

— E-Eu lhe dei um corpo apropriado ao campo de batalha quando não havia mais nenhuma carne em seus ossos! — o artífice produtor enfatizou as modificações que implantou em mim.

Minhas juntas eram esferas que ofereciam maior mobilidade, minhas unhas eram metálicas e afiadas, e ainda mais pistões e mecanismos internos fortaleciam e agilizavam minhas habilidades físicas.

— Ele não tem um pinto.

— ...Perdão?

Cobrindo a própria face e respirando fundo, Morrogna instruiu:

— Arrume um pinto para ele. O mais próximo do original possível.

— ...Você não pode estar falando sé-

“BAM!”, o punho da Mestra atingiu a tampa de sua escrivaninha.

— Você vai implantar um pinto nele, mesmo que tenha que arrancar o seu próprio para fazê-lo. Entendido?

— S-Sim, Décima — fui levado de volta à sala do produtor, onde o procedimento requisitado foi realizado.

 

 

Uma estação depois, o artífice produtor estava morto, bem como mais 12 soldados, pegos de surpresa por uma invasão de máquinas de guerra que nos alcançaram durante uma tempestade de vidro.

— Três corações — a Mestra contou, vasculhando seu próprio interior e removendo os órgãos apodrecidos da enorme fenda negra que lhe abria do peito ao umbigo. — Esses canhões ambulantes são um pesadelo — comentou, substituindo os órgãos perdidos por azar com as próprias mãos, costurando-os. — Pelo menos órgãos nunca estão em falta por aqui.

Imediatamente, sinapses poderosas foram feitas pelo cérebro no interior de minha cabeça de quitina. Imagens da Mestra tocando o próprio estômago, desconfortável, depois de usar algum feitiço poderoso. Imagens do mesmo acontecendo, múltiplas vezes, em um vilarejo próximo a uma floresta de vermes logo antes de Morrogna me dispensar. Imagens de rostos borrados cujo pavor transcendia expressões faciais encarando minha Mestra, paralisados, enquanto eu lhes dava as costas, ignorante.

— Machius.

— Sim, Mestra?

— Se masturbe. Quero você pronto quando eu terminar aqui.

— Sim, Mestra.

 

 

Três estações depois, restavam apenas 72 combatentes no total. Salessandra, Edgardo, eu e a Mestra lotávamos o pequeno aposento de Morrogna enquanto dezenas dos demais esperavam no corredor imediatamente do lado de fora.

Todos se encontravam lá pelo mesmo motivo.

— Aqui é a artífice Décima, Morrogna de Toquestrela, atualmente liderando força de 72 combatentes. Resistimos entrincheirados atrás das linhas inimigas na fronteira do território do Patrono Maior Fernandriel — a mestra identificou-se para o rádio. E este respondeu.

— Artífice Décima, Morrogna de Toquestrela, aqui é da central de comunicação da linha de frente da mesma fronte. A mensagem a seguir é uma citação direta do Patrono Superior Emanuele — burburinhos e cochichos sobre possíveis resgates percorreram as fileiras de soldados ao corredor. — Abre aspas, a Supremacia Purista nos traiu, ponto. Invadem pelo sul, ponto. Matam rebeldes e lealistas, ponto. Batemos em retirada, ponto. Que a Patrona Absoluta favoreça vocês, ponto, fecha aspas.

Silêncio, a comunicação do outro lado cortando contato imediatamente após transmitir a mensagem.

— O que... isso significa? — Edgardo perguntou tão devagar e baixinho que eu duvidava se ele queria mesmo ser respondido.

— Que fomos abandonados. Pft! — Salessandra cuspiu.

Notando a retirada de nossos aliados, o exército rebelde atacou com todas as forças.

 

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