Capítulo: 27
Nosso piloto nos deixou nas bordas da planície, longe o suficiente da civilização para não ter ainda mais problemas com oficiais, mas perto o suficiente para uma caminhada até meu objetivo.
Eu me encontrava mais perto do meu vilarejo natal do que em tantos anos, no que deveria ser território bastante interiorano das forças lealistas, o coração da zona produtora de alimentos daquelas bandas, mas contrário às minhas expectativas...
— Bwah! — o bandido caiu ao chão, morto pelo crescimento descontrolado dos próprios ossos.
— Bom trabalho, Felicita — acariciei a cabeça de minha aprendiz e me aproximei do corpo, examinando-o. Bem como os demais, tinha uma tatuagem tosca de uma casa negra no pescoço.
— Esse já é o décimo-nono ataque — Ed agachou-se ao meu lado. — Tem algo de estranho acontecendo por aqui.
— Há uma cidade não muito longe daqui, Cordial. podemos descobrir algo lá — estabeleci um plano.
✹
A cidade não estava muito diferente do que eu lembrava das poucas vezes que a visitei na infância, pelo menos em questão de estrutura; as maiores divergências de minhas memórias sendo os artefatos-canhões montados nas muralhas e nos telhados dos prédios, ou as barricadas e outras fortificações militares reorganizando o trânsito.
Não, o que eu mais estranhava eram as portas e janelas trancadas, os olhares assustados por trás de cada fresta, e as cores rebeldes que substituíam as lealistas.
— A cidade foi tomada? — Salessandra franziu o cenho. — Mas não há nem de perto tantos cadáveres, ruínas ou destruição quanto deveria.
Havíamos escondido nossas armas ancestrais na boca de um esgoto do lado de fora da cidade, e então a explorávamos sob disfarce.
— Talvez tenham se rendido? Ou mudado de lado? — Ed sugeriu.
— P-Por favor... comida! — um pedinte se aproximou com uma cumbuca em mãos.
Sua figura estava muito suja e desgrenhada, mas eu o reconheci instantaneamente:
— Você era um dos meio-irmãos de Casko. Asco ou algo assim?
— Casko...? — repetiu, me encarando bem por um longo segundo. — A-Ah! V-Você, é aquele que parecia uma menininha! — lembrou-se. — Hahaha! Eu sou “Lascko”, nós nos divertíamos tanto naquela época, não? Teria um pão para um velho amigo?
— ...É claro. Mas antes, o que aconteceu por aqui?
— Os soldados fugiram. No meio da noite, de repente! Deixaram quase tudo para trás, foi tão repentino... Quando os rebeldes perceberam que seus inimigos recuaram, avançaram sem resistência. Mas ninguém sabe o que farão com a cidade ainda... E-E aquele pão?
— Sim, o pão. Me diga onde está meu “velho amigo”, e farei de tudo para ajudá-lo — segui em frente, abandonando o pedinte, que imediatamente começou a proferir lições de moral pré-prontas.
— Será que a guerra está para acabar? — Ed perguntou, altivo.
— Não — Felicita respondeu, certa. — Nenhum dos lados desistiria sem usar sua arma secreta antes.
— De qualquer forma, agora sabemos que não são monstros ou armas de destruição em massa que fizeram isso. Vamos ficar mais ou menos seguros se formos discretos — respondi, descendo um barranco até a boca do esgoto e... — Pesadelo.
Nossas armas haviam desaparecido.
✹
— Huh? Não sei do que você tá falando — o pedinte que já foi meu algoz limpou o nariz, desinteressado. — As ruas estão bastante perigosas hoje em dia, pode ter sido qualquer u- — o interrompi quebrando seu braço com um único apertão ao mesmo tempo que tapando sua boca.
— Não vou perguntar de novo. Para onde são levados os itens roubados por aqui?
— P-P-Para a Trupe do Galpão Velho! Eles são a gangue dominante na cidade! — confessou por entre lágrimas, segurando o membro machucado.
— Mostre o caminho.
✹
— N-N-Não deveríamos fazer isso! — Lascko apontou para os cinco guardas na frente do galpão negro. — Olhem! Eles são quase duzentos, e possuem até artífices clandestinos em sua força!
— Ótimo, meus amigos estão precisando de um aquecimento, ou minha aprendiz vai superá-los num piscar de olhos — ignorei o implorar, arrastando Lascko pela gola da camisa comigo.
— Até parece! Pft! — Salessandra rebateu, cupindo.
— Não é como se eu me orgulhasse do quanto eu matei — Ed deu de ombros. — Quando Felicita vier a me superar, ao menos espero que seja devido aos seus estudos, e não a uma realidade de guerras contínuas.
— Ele disse “quando”. Viu, senhora Salessandra? O senhor Ed já aceitou o inevitável, por que você não faz o mesmo também?
— Vai sonhando, pirralha!
— Não, não, não! — o pedinte continuou a chorar.
— Ei, vocês aí! — os guardas do galpão finalmente mostraram suas garras quando chegamos perto. — A menos que queiram que eu lhes abra o bucho- Urgh?!
— O-O que você fez com eles? — o pedinte pergutou.
— Assumi o controle — expliquei enquanto eu e meus amigos roubávamos as armas dos bandidos paralisados.
— Assumiu...? Você os subornou, não é? Mesmo assim, você não vai poder fazer nada contra o resto dentro do galpão! Por favor, ao menos vamos esperar até a noite, quando eles realizarem o leilão do saque!
— Leilão? Esse é apenas mais um motivo para fazermos isso agora, os idiotas não devem fazer ideia do que têm em mãos.
“BAM!”, arrombei as portas da frente do galpão negro com um chute.
Dentro do lugar, homens, mulheres e crianças malnutridas e machucadas estavam presos dentro de gaiolas e caixotes, documentos de transferência de propriedade eram empilhados num canto, e todo tipo de saque empilhado no outro. E é claro, dezenas de criminosos mal-encarados moviam seus prisioneiros e a propriedade dos outros.
— ...Mudança de planos. Matem todos primeiro, achem os artefatos depois.
— É um ataque! Matem-nos! — um dos bandidos gritou, dando início a batalha.
“BUM! Vush! Bang!”, feitiços voaram para lá e para cá, meus amigos e aprendiz fazendo o que podiam com o equipamento roubado (e no fim das contas, podiam fazer muito com isso), enquanto os bandidos, desprevenidos e assustados com o poder de seus oponentes, protegiam-se atrás de qualquer coisa.
Alguns tentavam fazer reféns, mas destes eu assumia controle com linhas quase invisíveis que saíam das pontas de meus dedos, e os forçava a cometer suicídio.
— Pedinte, onde está o líder desses caras? — perguntei.
— Pesadelos...!
— Não me faça repetir.
— N-Nos fundos! Ele está nos fundos!
Despretensiosamente controlando os inimigos e os impedindo de me atacar, cruzei o galpão por inteiro, deixando que meus companheiros lidassem com os subordinados.
— É aqui? — perguntei, varrendo a sala ao fundo do galpão, cheia de tesouros. — Não vejo ele em lugar algum.
— Atrás de você, idiota! — Lascko grunhiu, brandindo uma adaga com um cabo de ouro e pedras preciosas contra mim.
“Plink!”, a lâmina patiu-se contra o metal ancestral que compunha parte de meu corpo.
— Q-Que?! — o pedinte- não, o líder do grupo de foras da lei “Galpão Velho” gaguejou quando segurei-lhe o pescoço.
— Huh. Então você analisava pessoalmente todo mundo entrando ou saindo da cidade e decidia quem valia a pena roubar, é? Tenho que admitir, foi levemente interessante. Agora, me diga onde estão as nossas armas, e vou lhe garantir uma morte rápida.
— V-Você acha que pode se safar dessa?! Mesmo se me matar, outros vão assumir meu lugar e vão vir atrás de você! Se não por vingança, para garantir que nossos segredos não sejam vazados! Mesmo a guarda da cidade está do nosso lado!
— Foda-se? Me diz logo onde estão as armas, ou vou quebrar seu outro braço.
— V-Você é louco...!
“Crack!”
— AAARGH!
— Diga.
— N-No cofre, atrás daquela pintura! A senha é 9-8-7-7-6-4!
— Ótimo — eu disse.
E com as próprias mãos, desconectei a cabeça e pescoço do criminoso do resto de seu corpo, desfiando-lhe a carne e veias e removendo a coluna vertebral ao mesmo tempo.
Tudo bem a tempo de uma centena de soldados rebeldes quebrarem os vidros de cada uma das janelas do galpão, arrombarem cada porta, e invadirem o local por todos os lados.
— Parados aí, vis criminosos! — gritou um homem três vezes mais alto que eu e muitas vezes mais musculoso, de pele bronzeada; mais fisiculturista que soldado, vestia apenas uma tanga de escamas douradas e empunhava uma espada com cabo de ouro e lâmina cravada de rubis. — Pela minha autoridade como herdeiro legítimo do Patronato, o Patrono Absoluto-Absoluto Kálcaro, vocês estão presos!
...Certo. Discrição, né?
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