Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 16

Capítulo: 16

— Prestem atenção se vocês querem voltar vivos para casa — o capitão gritou da tolda. Enquanto os recuperadores mais experientes distribuíam pacotes para cada um de nós, continuou: — Vocês estão recebendo equipamentos de proteção individual. Sim, seu uso é obrigatório. Não, vocês não podem tirar eles nem por um segundinho, se você está com a bexiga cheia, é melhor mijar agora ou deixar o mijo encher as botas dos seus macacões.

Um dos marujos me encarou por um segundo, seus olhos me analisando dos pés à cabeça antes de passar direto para o próximo novato enfileirado ao meu lado e dar-lhe o pacote que deveria ser meu.

— Reiterando as regras, e espero que o ermo diante de vocês agora os faça levá-las a sério: não engajem em combate, seus macacões não foram feitos para isso; não importa o que vocês virem ou ouvirem lá, não são humanos; e, por fim, vocês vão ser pagos de acordo com o saque que vocês trouxerem... E a viagem de volta não pode ser paga apenas limpando o convés — enquanto os novatos empalideciam, encarando a terra desolada adiante, concluiu: — Os anfíbios partem em quinze minutos! Vamos, vamos, vistam logo essas porcarias!

Todos se apressaram a vestir os macacões prateados que lhes protegiam o corpo inteiro, e as pesadas mochilas cilíndricas de metal sólido que conteriam os artefatos recuperados.

Todos, com exceção de mim, é claro.

— Edgardo, não é? — o capitão envolveu o pescoço de meu companheiro com um braço, indicando para que nos afastássemos do resto dos recuperadores. — Você tem um excelente autômata em mãos, sabia disso? É uma máquina de ponta mesmo, eu sabia que tinha tomado a decisão certa ao permiti-los a bordo.

— É um pouco insensível chamá-lo de “máquina”, capitão. Machius já foi um garoto humano uma vez... bem como todos os outros de seu tipo.

— É claro, é claro! E é por isso mesmo que eu me preocupo tanto com ele! Veja bem, amigo, a Terra Perdida é um lugar perigoso. Perigoso demais! E esse pobre garoto já está todo machucado. Você não vai permitir que ele se atire lá e corra o risco de ser destroçado do outro lado da Origem e longe de qualquer ajuda, não é?

— Onde o capitão quer chegar? — Salessandra cruzou os braços.

— Venda Machius para mim. Posso lhes poupar da recuperação e ainda lhes pagar duas vezes mais o salário da maior coleta de hoje.

— Eu cubro — a voz de uma garota fez a todos olharem para o lado e para uma figura usando um vestido cheio de babados por cima do macacão de proteção.

— A-Adiciono também um rifle ancestral na minha oferta! — o capitão sorriu enquanto uma única gota de suor escorreu testa abaixo.

— Eu cubro — repetiu a garota.

— E mais um pergaminho explosivo ancestral!

— Eu cubro. Qualquer oferta que o capitão faça, meus cuidadores podem cobrir por mim sem sequer checar o preço.

— Cuidadores? — o capitão olhou de esguelha para Edgardo e Salessandra, que evitaram encará-lo.

Suspirei.

— Eu não estou à venda, tá bom? — seguindo em direção à escotilha para os andares inferiores, adicionei: — Se isso era tudo, temos uma missão a cumprir, capitão.

— Espera. Faz parte abrir mão de recuperações muito perigosas, por mais que você os queira, mas... pode ao menos contar para esse capitão como você matou os leviatãs? Sem o canhão, pode ser complicado se cruzarmos caminho de novo e você não estiver mais a bordo.

— As estrelas-do-mar no pescoço deles são parasitas. É o que realmente controla o corpo daqueles animais marinhos, destrua elas e os gigantes não devem ser mais um problema.

— Estrelas... Então é por isso que pensávamos que sangramentos eram a resposta. Tentando alcançar esse objetivo, às vezes acidentalmente destruíamos elas — o capitão sorriu. — É mesmo uma pena que você não está à venda. Vão logo, os anfíbios partem em um minuto.

Fizemos como instruído, e como os últimos a embarcarem nos veículos com formato de sapos, acabamos sentados lado a lado, Edgardo, Salessandra, eu e a garo-

— Felicita. Meu nome.

— Ah. Machius, prazer.

— ...O prazer é meu.

Sentado ao lado de Felicita, senti a mudança no ar conforme nos aproximávamos a solavancos da costa. Apesar da maior parte do meu corpo ser artificial, meu cérebro (ou ao menos a maior parte dele) ainda era orgânico e necessitava oxigênio, mas como uma unidade adaptada ao combate, eu possuía purificadores de ar embutidos; e naquele momento, estes trabalhavam em dobro, retendo ou expelindo alta concentração de...

— Pólem — sussurrei.

— Desçam, vamos! — o piloto do veículo gritou quando o sapo metálico pisou em terra firme e as hélices embutidas em suas patas pararam de girar e tornaram-se pneus. — Vocês têm seis horas para voltar aqui com alguma coisa que preste, nem um segundo a mais. Caso o alarme no cinto de vocês passe a emitir luz, terão cinco minutos. Não vamos esperar nem um minuto a mais.

Sob berros e pontapés, os recuperadores novatos saltaram à terra firme, reclamando que sabiam que a oferta no porto era “boa demais para ser verdade” e deveriam ter confiado em seus instintos.

— A viagem de vocês já está paga — o piloto acenou com a cabeça, cordial, enquanto eu e meus companheiros deixávamos o anfíbio.

— M-Mas o quê...? — Felicita perguntou, encarando a paisagem da cidade costeira arruinada.

Prédios de metal e vidro desapareciam para além das nuvens brancas como algodão lá acima, as ruas repletas de bondes vazios haviam sido completamente tomadas por plantas de caule verde e flores amarelas, nenhuma fração do chão visível sob a flora, e arco-íris cruzavam os céus aqui e ali.

As plantas não eram a única forma de vida presente, porém.

Empoleirados em painéis azul-escuro conectados a braços mecânicos que brotavam dos prédios aos milhares sem motivo aparente, montes disformes de asas de penas brancas, como se alguém houvesse prendido bandos de pombos em bolas.

— Pensei que esse lugar era assustador e mortal? — a garota questionou.

— E é, então nem pense em tirar seu macacão — notando a confusão no silêncio da garota, expliquei enquanto avançando cidade a dentro: — O pólen que essas plantas produzem é um veneno mortal, e o ar aqui é repleto dele. Até a água aqui é mortal, sendo salgada. Mesmo se bebê-la, vais morrer de desidratação. E aquelas bolas de penas lá em cima... São o que restou dos nossos ancestrais. Agora, vamos, eu tenho uma missão a cumprir.

 

 

Avançamos cidade adentro por duas horas a fim de evitar os prédios que já haviam sido explorados tantas vezes que dificilmente possuiriam algo valioso, até que nos deparamos com uma construção sem janelas, e eu soube que encontraria algo bom lá.

— Parece ter sido algum tipo de base militar — Salessandra apontou. — Armas ancestrais são incrivelmente valiosas, se encontrarmos mesmo que uma única delas aqui, podemos fazer uma fortuna!

— Como esperado de Machius — Felicita apontou, ofegante. — Seu julgamento é sem falha... por mais que a viagem tenha sido um tanto cansativa — parando frente ao escudo desenhado numa parede, adicionou: — Huh. Parece com o escudo da Supremacia Purista.

— Você não conhece a história? — a ignorância da artífice de onze pontas me fez parar enquanto revirando os armários de um escritório qualquer.

— Meus cuidadores eram... seletivos com os conteúdos a mim ensinados.

— O polvo representa a adaptação e habilidade, e a arara, a liberdade, visão e exuberância... ou algo assim — dei de ombros. — É para simbolizar a glória da vitória e a sujeira do trabalho duro. É o escudo da seita que causou a Perdição. Seu nome se perdeu há muito tempo, bem como o deste país.

— Seita responsável pela perdição?! — Felicita me encarou, sua expressão escondida pelo visor da roupa protetora, mas a voz expressando choque o suficiente.

— Foi o que eu disse.

— Eles se infiltraram nas mais altas posições de poder em cada um dos oitocentos e oitenta e oito países desta Terra — Edgardo assumiu a explicação, sombrio. — E usaram sua influência para construir o Suplicador, uma máquina colossal para canalizar a vontade do Sol para dentro de cada ser humano. Um feitiço de trinta pontas.

— Mas eles não resistiram ao azar do feitiço... — Felicita entendeu. — Espera. Então, por que ainda vivemos?

— Todos os humanos que vivem hoje na Terra Sadia são descendentes de uma única colônia, uma medida de segurança da seita — Edgardo continuou, pesaroso. — Todos os outros bilhões de humanos da Terra que já foi o berço da humanidade pereceram, punidos pelo pecado de usurpar a posição de uma divindade.

— Não — rebati, e a atenção dos três se tornou para mim. — Eles não foram punidos por usurpar a posição de uma divindade, mas por sacrificarem tudo a fim de obter o favor dela.

Meus companheiros não fizeram qualquer barulho, minhas palavras perdurando, esperançosamente, não mais tão apócrifas para os ex-soldados lealistas, ex-soldados rebeldes, ex-artífices do Sindicato. Mas outra coisa fez barulho, lentamente empurrando a porta rangente da sala onde nos encontrávamos.

Uma enorme boca circular cheia de dentes projetava uma língua bifurcada em nossa direção.

— Kyaaah-! — Felicida berrou e quase caiu sobre o próprio traseiro, até que a peguei no colo.

Não precisei gritar para que meus companheiros corressem; quando a criatura que assemelhava-se a uma enorme toupeira sem pelos avançou, quebrando paredes com os dentes que funcionavam como uma máquina tuneladora do Sindicato, todos nós já havíamos escapado por outra porta e de volta para o corredor.

— O-O que é aquilo!? — Felicita perguntou, sua voz trêmula.

— ...Eu não sei — respondi, e a garota agarrou firme minhas roupas, sua respiração irregular audível mesmo através do macacão. — Mas vamos fazer algo sobre — adicionei, escondendo-a atrás da estátua de alguém vestindo um macacão desconfortavelmente similar ao nosso.

— Machius! — Salessandra chamou às minhas costas, disparando feitiço atrás de feitiço.

— Para uma sala — chamei, arrombando uma porta com um pontapé. — Muito ampla — franzi o cenho.

— Deixa comigo — Edgardo enfeitiçou o teto e estrategicamente demoliu parte deste, diminuindo a sala pela metade.

— Braawaahh! — o inimigo nos perseguiu, empurrando destroços com o corpo massivo, língua bifurcada e dentes.

— Morre, pesadelo ambulante! — Salessandra, então com uma visão clara do inimigo cujos movimentos foram limitados, enfeitiçou sua boca, cravando uma adaga bem no céu da boca redonda da criatura. — Que?! — surpreendeu-se tanto quanto todos nós quando o inimigo não pareceu sofrer mais do que um sangramento leve. — É mais durão do que parece, pft!

— Se está com fome, consuma a si mesmo — girei o tambor de meu revólver e enfeiticei.

Mas a criatura, bem como os leviatãs de antes, exibiu estranha resistência ao que deveria ser um feitiço instantaneamente mortal, e continuou a avançar apesar de que seu ácido estomacal deveria estar a destruindo de dentro para fora.

Já se encontrava a meio caminho até nós, quando apontei:

— Deve estar frágil o suficiente agora.

— Boa! — Salessandra não hesitou em disparar de novo, a adaga que fez cruzar os ares, então, penetrando fundo no céu da boca do inimigo e fazendo jorrar sangue e ácido estomacal.

— Brwawawah! — o inimigo bizarro remexeu-se como um sangue-suga numa frigideira, o chão sob nossos pés tremendo, e poeira caindo sem parar do teto semidestruído.

— Por que não morre de uma vez?! — Salessandra disparou de novo e de novo, mas nenhuma das outras adagas pareceu apressar o fim da vida de seu alvo. Pelo contrário, apenas incentivou-o a apressar-se em nossa direção.

— Descanse de uma vez! — Edgardo atirou um segunda feitiço explosivo bem colocado, que dessa vez explodiu logo atrás do cabo das várias adagas enterradas no céu da boca do monstro, impulsionando-a com potência o suficiente para que as armas saíssem por inteiro do outro lado da cabeça do nosso estranho perseguidor.

— Pft! Foi tarde — Salessandra cuspiu.

— A-Acabou...? — Felicita deu as caras pouco depois.

— Sim — repondi, contornando o cadáver.

Não dei mais que dois passos antes que o chão sob meus pés, fragilizado pela batalha e pelo peso do enorme cadáver, cedeu e fomos todos engolidos por escuridão.

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