Capítulo: 25
O ninho havia sido cavado direto no solo, e era coberto de cima a baixo por algum tipo de secreção escura que firmava as paredes, úmido e muito escuro. Natanriel liderava o caminho, fazendo luz com a própria aura.
— Ele consegue sustentar a aura por tanto tempo — Ed impressionou-se.
— Isso é difícil? — Felicita quis saber.
— Muito — respondi alto o suficiente para ser ouvido pelo espadachim. —Acho que só uma meia dúzia de marechais em toda a Origem consegue fazer o que esse cara vem fazendo. Me pergunto por que ele está nessa selva no meio do nada.
— Silêncio. Lá vêm eles — desembainhou a espada, ignorando meus comentários.
Como prometeu o espadachim, porém, lá vieram os inimigos, dezenas deles, e de todos os lados, de cada um dos túneis conectados ao nosso, de cima, de baixo, dos lados.
— Hum! — Natanriel estocou, atravessando vários monstros de uma vez só com sua lâmina ancestral e a energia propelida a partir desta. — A rainha deve estar próxima. Vocês não têm chances contra ela, então eu vou em frente, vocês lidem com os peixes pequenos.
Suspirei, vendo o espadachim antissocial seguir em frente sozinho. Aquilo já estava me dando nos nervos.
“VUSH!”, assumi controle de todos nossos atacantes de uma vez só com um feitiço de nove pontas.
✹
— Ah, aí está você — sorri, interceptando o espadachim em seu caminho.
— C-Como você chegou aqui na minha frente?
— Um dos túneis dos monstros era um corta-caminho — aquilo não era mentira, eu só não disse que usei minhas marionetes para descobrir o mapa do ninho.
— Que seja, só não-
— “Fique no meu caminho”, é eu sei. Por que você acha que vamos te atrapalhar? Não o fizemos até agora, não é?
— Porque eu sou o mais forte.
— Errado — Felicita e eu contestamos juntos, e minha aprendiz olhou para mim cheia de empolgação quando o fiz.
— O que, vocês querem me testar? — apertou o cabo de suas espada de novo, sua aura brilhando mais intensa, exibindo mais pontas.
— Eu sei quem você é — comentei antes que minha aprendiz pudesse confirmar um duelo entre eu e Natanriel. — Quando vi sua espada de lâmina dupla, pensei que poderia ser só um fã ou farsante, mas suas habilidades não deixam dúvidas, Natanriel Ptolion. E sei que você já perdeu para uma certa artífice também.
— Realmente, não há gente mais fofoqueira que soldados — sua aura diminuiu de intensidade, e seu semblante suavizou. — Morrogna de Toquestrela. Ela era um gênio. A única que podia competir comigo... e não demorou para que eu percebesse que era meu oposto. Trabalhamos juntos por alguns anos como “autônomos”, bem como vocês agora, mas nossos ideias divergiram e seguimos caminhos diferentes. E quando nos reencontramos naquele campo de batalha, ela estava do lado errado. Lutando por malditos gananciosos que sonham com domiação astral.
— Mas você não fazia o m-? — tampei a boca de Felicita antes que ela falasse demais. E ela pareceu estranhamente feliz com aquilo.
— Mas ela te derrotou.
— Sim. E ainda teve a audácia de morrer uma operação de exaustão para um monte de zé-ninguém — franziu o cenho, olhando para o nada. — Depois de perder para ela, viajei por todo o território humano em busca de desafios, artefatos ou outras criações alquímicas, e conhecimento que me fortalecesse. E os encontrei. Mas quando finalmente fiquei pronto para uma revanche, ela já havia morrido, e da forma mais degradante possível. E assim, alcancei meu objetivo, mas de forma vazia. Sou o marechal mais forte. Estou no topo do mundo... mas tal pico é friamente solitário. Meu corpo se move por si só, repetindo o que sempre vim fazendo ao longo de minha vida inteira, mas nem mais o sorriso daqueles que salvo aquece meu coração.
— Então você apenas não sabia o que fazer desde então? — perguntei.
— Haha. Acho que pode-se colocar as coisas assim.
Antes que eu pudesse abrir minha boca de novo, o chão sob nossos pés cedeu de repente e sem aviso; engolidos pela escuridão, caímos numa ampla câmara forrada do que pareciam estalagmites.
— Não, essas coisas são feitas de... carne?
— São os machos da espécie — explicou Natanriel, preparando-se para o combate. — Esse é o harém da rainha.
— Huuooohh... — a progenitora da colônia não demorou a revelar-se, segurando-se ao teto, tendo colapsado parte deste propositalmente.
A rainha era similar aos demais membros de sua espécie, porém muito maior, maior até do que a taverna na qual estávamos hospedados, possuidora de um tronco alongado e três pares extra de pernas, para suportar o peso das três barrigas inchadas.
Retraindo o “rosto” coberto de dentes, revelou um buraco no meio da cabeça, sua boca.
— P-tuh! — cuspiu, e eu sabia que aquilo não era apenas saliva.
— Cuidado! — todos evitamos o cuspe, que ao cair no chão rapidamente solidificou-se no mesmo material que cobria as paredes do ninho.
— Vocês já têm sua fofoca e seu dinheiro. Vão embora agora — Natanriel comentou, envolvendo-se numa aura de nove pontas, muito brilhante. — Porque eu sou o mais forte.
— Você...! — apertei o cabo de minha arma. — Não aprendeu nada em suas viagens, afinal! — gritei, despindo minha arma dos trapos que ocultavam sua origem ancestral.
Chamei minhas marionetes. Todas elas.
— O-O que?! — Natanriel gaguejou quando quando as paredes da câmara rapidamente foram forradas de centenas de espeleólogos que eu controlava. — Estão atacando a rainha!
— Hooo! Hoho! — Felicita riu, abanando a si mesma com seu leque. — Você está solitário no topo do mundo? Não me faça rir! Meu Mestre é o MAIS FORTE!
— Vem cá! — Ed jogou minha aprendiz sobre o próprio ombro e fugiu.
— Merda, Machius, deixa a cabeça da rainha inteira! Pela pinga!! — Salessandra o acompanhou, frustrada.
— Wrooh!! — a rainha atirou-se ao chão da câmara, esmagando os machos sem cérebro, coberta por feridas pelo corpo inteiro, e sua prole a perseguiu sob meu comando.
A rainha achatava, petrificava, e dilacerava seus atacantes, mas enfraquecia-se a cada segundo, novos sangramentos brotando a cada novo pedaço de carne que perdia pelos dentes cruéis das próprias filhas.
— N-Não! — Natanriel finalmente se recompôs. — Eu sou o mais forte! — envolto em aura tão brilhante que nem parecíamos estar embaixo da terra, avançou contra a rainha.
Como se eu fosse deixar o tolo confirmar suas próprias ilusões.
— Vai sonhando! — troquei a munição da minha arma por outro pergaminho, e puxei o gatilho.
— Haaargh! — Natanriel brandiu sua arma contra a rainha, mas o que seu ataque encontrou foi uma parede de centenas de espeleólogos.
“BUM!”, explodiu o escudo-vivo que coloquei em seu caminho e parte do teto, colapsando muitos túneis adiante.
— Por que vocês...?! — trincou os dentes, me atirando um olhar de esguelha enquanto notando que a rainha ainda vivia.
— Para colocar algum senso na sua cabeça oca!
“VUUSH!”, meu feitiço não estava concluído ainda, porém; ao mesmo tempo que movi os espeleólogos, bem como aconteceu com o receptáculo, centenas de linhas quase invisíveis conectaram o cano de minha arma com o corpo da rainha, e assumi o controle. Um feitiço de dez pontas.
“WRROOGH!”, sob meu comando, o monstro atirou os membros todos sobre Natanriel.
— Maldito! — o espadachim rápida e desajeitadamente concentrou mais uma porção de aura em sua arma, e mandou outra onda de choque contra o inimigo.
“BUUUM!!”, o impacto das duas forças massivas fez tremer todo o ninho, colapsou o teto e revelou o céu noturno, pontilhado por inúmeras estrelas, cada uma ditando uma lei universal diferente pelo que entendi depois de ouvir tanta baboseira de tantos manda-chuvas.
Quando a poeira assentou-se, eu prendia a mão dominante de Natanriel entre as lâminas de minha arma, seus dedos quase tocando o cabo de sua espada.
— Se ela te visse agora, teria vergonha — comentei, com um pé no peito do espadachim.
— Urgh! — engasgou no próprio sangue, metade de seu corpo ainda preso sob o cadáver destroçado da marionete que manipulei. — Q-Quem... é você?!
— Machius de Toquestrela, aprendiz de Morrogna, apenas mais um dos idiotas que não sabe o que fazer com o próprio tempo livre, e seu superior.
A cabeça da rainha nos rendeu dinheiro o suficiente para comprar uma passagem para o aeroporto mais próximo, bem como a passagem de aeronave para perto da minha vila, todos os suprimentos que precisávamos, e também a adoração de todos os cidadãos locais.
Natanriel preferiu ficar na floresta.
✹
— Forte — apertei o cabo de minha espada, sentindo o gosto do meu próprio sangue na minha boca. — Mais... forte...! — meu corpo tremia, e não apenas por conta de meus ossos fraturados e fibras musculares destroçadas. — Morrogna e agora seu maldito dildo de pernas...! Se a justiça não pode prevalecer, então eu rejeito a justiça!
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