Capítulo: 24
Levamos quase duas estações para encontrar o primeiro sinal de civilização depois de deixar a instalação do Sindicato, quando demos de cara com uma cidadesinha flutuando sobre balsas num rio.
— Um gole de água amarga, garçom! — Salessandra pediu assim que pisamos dentro do estabelecimento.
— E três pratos de refeição quente, bem caprichados — Edgardo adicionou. — Ah, e algo doce também, por favor.
Cada um dos clientes da taverna nos atirava um olhar com um tipo diferente de suspeita, mas eu não podia culpá-los; nossas roupas estavam arruinadas, carregávamos pacotes estranhos (nossos artefatos disfarçados), éramos um grupo de pessoas pálidas demais para estarem vivas, uma delas mascarada e coberta de cicatrizes (visíveis por sob suas roupas arruinadas), bem como um homem-máquina e uma jovem de aparência refinada. Honestamente, tentar explicar nossa situação seria mais difícil que deixar que a imaginassem.
— Não temos doces, só frutas — o garçom depositou os pedidos um a um na mesa, suspeito. — Vai sair 147 favores.
— Valeu, chefia — Salessandra tirou um punhado de notas amassadas e sujas de um bolso.
— Aah, comida de verdade! — Felicita mordeu no cavalo-marinho assado com gosto; o animal era tão grande quanto o antebraço de minha aprendiz, mas eu duvidava que sobraria algo de sua carcaça muito em breve.
— Então? Como vamos retornar para sua vila? — Edgardo perguntou entre mordidas muito mais discretas. — Você ouviu os barqueiros, não temos dinheiro o suficiente para pagar por uma passagem sequer até a cidade mais próxima com um aeroporto.
— Andando? — dei de ombros.
— Poderia levar várias estações, anos talvez. Garçom! Mais birita!
— Anos?! M-Mestre...
Suspirei.
— Mas que pesadelo, por que uma viagem de canoa é tão cara? — aproveitei a fruta enquanto pensando no que fazer a seguir. — Acho que vamos ter que procurar algum trabalho local e economizar.
— A viagem de canoa está cara porque o caminho está muito perigoso. Mas se vocês estão procurando por trabalho, podem ajudar a limpar esse caminho, a força de supressão emergencial está contratando — o garçom sugeriu, retornando para encher o copo de Salessandra. — Até pensei que foi por isso que vocês vieram até aqui.
Trocamos olhares rapidamente antes que Ed respondesse:
— E foi, mas como pode ver, houve.... empecilhos. Nos perdemos na floresta. Perdemos até a noção do tempo, então pensávamos que a supressão emergencial já havia acabado.
— Ha! Quem dera. Não, enquanto a guerra mantiver todos os artífices e soldados ocupados, vamos precisar usar qualquer voluntário disponível para lidar com nosso problema com monstros — o garçom explicou.
— É claro. Nesse caso, estaremos mais do que felizes em ajudar — Ed sorriu por sob a balaclava que lhe escondia o rosto.
✹
Naquela tarde, seguimos até o local de encontro das forças de supressão emergencial indicado pelo garçom: uma canoa na qual sentavam-se uma meia dúzia de veteranos aleijados, garotos jovens demais para guerra, e ninguém menos que Natanriel Ptolion o marechal espadachim gênio, aquele que enfrentou minha Mestra e sobreviveu durante a guerra.
— ...Que foi? — perguntou o espadachim, mal encarado.
Então, Natanriel exibia uma enorme barba mal cuidada, cabelos oleosos na altura dos ombros, e vestia roupas simples fedendo a álcool, mas não havia dúvidas de que ele era o espadachim mais forte vivo. Havia ele se esquecido de nossos rostos?
— N-Nada — Ed respondeu, e nos sentamos longe do espadachim à canoa.
— Algum problema, Mestre?
— Não. Nenhum — não era uma surpresa que o homem não nos reconhecesse, uma vez que não éramos nem um pouco importantes quando nos vimos pela primeira vez, mas o que ele fazia ali? E por que parecia tão acabado?
— Uuh... Então, primeiramente, muito obrigado a todos por- — um velhinho de bengala começou a discursar da proa da canoa, quando foi interrompido por um alto suspiro.
— Vai direto ao ponto, velho — disse Natanriel.
— ...C-Certo. Uma colônia de espeleólogos se instalou próximo à cidade, infelizmente, logo após o começo da guerra, e sem a ajuda dos soldados ou artífices, viemos tendo problemas em controlá-la. O canoeiro vai deixá-los próximo desta, e pedimos para que vocês diminuam os números dos monstros.
— Só isso? Não é melhor exterminar a colônia inteira? — Natanriel questionou, para o entretenimento dos demais voluntários, que riram alto.
— A-A colônia inteira?! Mas não temos tal poder ou meios de contratá-lo...
— Não foi isso que perguntei.
— B-Bem, sim, isso seria incrível, mas-
— Ei, seu bêbado! Pode parar de desperdiçar o tempo de todo mundo?! Alguns de nós levam isso a sério. Eu tenho uma cozinha para manter e família para cuidar — um calvo portando um porrete atirou um olhar feio ao espadachim. Tornando para o velhinho, concluiu: — Já sabemos bem como isso funciona, chefe. Vamos acabar logo com isso.
— C-Certo...
✹
Levamos cerca de uma hora e meia de canoa para alcançar um certo banco de areia, quando o canoeiro apontou para nós que desembarcávamos:
— A colônia deles fica naquela direção, uma caverna a umas duas horas de viagem daqui — deu de ombros, começando a remar de volta para a cidade: — Mas não vão precisar procurar muito para achá-los.
— Tá bom, rapazeada, é assim que vai funcionar daqui para frente — o calvo de porrete tomou a dianteira. — Já fiz isso umas mil vezes antes, então vou liderar essa operaçã- Ei, o que você pensa que está fazendo!?
— Indo até o ninho dos monstros — respondeu um espadachim desinteressado.
— Seu suicida idiota! — o voluntário mais experiente agarrou a gola da camisa manchada de Natanriel, as veias em sua testa pulsando.
Natanriel franziu o nariz para o sermão que o outro lhe fazia ouvir, alisando a guarda de sua espada de lâmina dupla com o polegar; uma arma ancestral, percebi.
— Mestre, por que você não assume a liderança em vez desses dois bons para nada?
— ...Dessa vez não, Felicita. Na verdade, quero observar uma coisa, então nada de feitiços mais fortes que três pontas, entendido?
Meus amigos concordaram. E bem a tempo, pois logo no instante seguinte, uma criatura de pele cinzenta e flácida, mãos enormes e uma cabeça coberta de dentes afiados e nenhuma outra característica facial aparente saltou da linha das árvores sobre os dois que discutiam.
— Tch! — Natanriel estalou a língua, desembainhando a espada tão rápido que o movimento foi o suficiente para produzir um pequeno vendaval e agitar as roupas e cabelos de todos os presentes, bem como as folhas negras das árvores ao redor.
Mais rápido que um piscar de olhos, o espeleólogo havia sido fatiado em uma miríade de cubos não maiores do que um punho; choveu sangue e carne sobre aquele que queria liderar a expedição.
— Façam o que vocês quiserem, mas não fiquem no meu caminho — Natanriel disse, embrenhando-se na mata.
— Vamos — o segui, deixando os demais voluntários confusos e assustados para trás.
— Eu disse para-
— Não ficaremos no seu caminho — interrompi. — Apenas decidimos que ficar perto de você é o mais seguro nesse momento.
— ...Que seja — o espadachim não se preocupou, tornando-se aos monstros que rapidamente nos cercavam; dezenas deles. — Mas não esperem que eu vá bancar a babá.
Os espeleólogos avançaram sobre todos nós ao mesmo tempo, desconfortavelmente silenciosos.
— Nós podemos cuidar de nós mesmos — respondi, empalando um dos monstros com minha arma e atirando seu corpo ferido sobre um dos outros atacantes.
Eu e meus amigos nos limitamos a usar feitiços de poucas pontas, versões mais fracas de nossos ataques padrões, derrotando o mínimo de inimigos possível para mantê-los longe de nós. Por outro lado, Natanriel, com o corpo brilhando, envolto por uma aura de seis estrelas, facilmente desmembrava, eviscerava e dividia monstros a torto e a direito.
— Tem... tantos...! — Felicita reclamou, ofegante, a única ali que realmente precisava dar tudo de si, disparando até feitiços de duas pontas até a exaustão; segurava uma flor vampírica que colheu na floresta para balancear o azar, seu sangue sendo drenado.
— Seus feitiços... — Natanriel franziu o cenho, encarando o trabalho sangrento de minha aprendiz.
— Algum problema? — perguntei.
— Não. Não, nenhum. Só... me lembraram alguém — seguiu em frente, desinteressado.
✹
Para cada passo que dávamos em direção ao ninho dos monstros, maiores os seus números e mais fortes ficavam. Não que aquilo representasse qualquer perigo ao nosso grupo.
“Vush”, assoviou a lâmina de Natanriel, partindo não apenas todo um grupo de monstros, como também derrubando meia dúzia de árvores em seu caminho. O espadachim brilhava, então, sob uma aura de sete estrelas.
Ainda assim...
— Há algo de errado — comentei, analisando os cadáveres.
— O que, Mestre?
— Essas coisas. Estão apenas ficando maiores e nos atacando em maior número. Sim, ficam mais perigosas, mas não demonstram a principal característica de verdadeiros monstros.
— Isso é porque não são monstros de verdade — esclareceu o espadachim, limpando sua espada na manga de sua camisa velha. — Os espeleólogos de verdade foram extintos séculos atrás, pegos pela Perdição. Os que sobreviveram ficaram loucos. Apenas aconteceu, por pura coincidência, que gerações humanas nascidas muito depois desse evento encontraram esses animais aqui, que se pareciam muito com aqueles que lhes ensinaram tanto sobre esta Origem, e os nomearam também “espeleólogos” — notando alguma coisa, me atirou um olhar decepcionado. — Esquece. Você nem deve saber do que estou falando. O ponto é: nos aproximamos do ninho dessas coisas, e a rainha deles é perigosa demais para vocês. Coletem as cabeças da caça, voltem logo para a canoa e recebam sua recompensa.
— Se nós levássemos as cabeças de tantos espeleólogos, faríamos dinheiro mais do que o suficiente para nossa viagem — Salessandra comentou. — Poderíamos até estocar um pouco de pinga!
— Machius, a garota está cansada — Ed pegou no meu ombro.
— N-Não se preocupe comigo, Mestre! — Felicita emperigou-se.
— Deve haver ainda mais dinheiro a ser feito no ninho, e não estou treinando Felicita para cultivar goma, mas para matar coisas. Essa experiência lhe vai fazer bem. Nós vamos com ele — segui o espadachim.
— Quem disse que eu lhe dei essa permissão? — Natanriel apertou o cabo de sua espada, frio.
— Voltando atrás em sua palavra, espadachim? Pensei que estivesse tudo bem enquanto não te atrapalhássemos.
— Você não tem noção do que está se metendo.
Algo havia acontecido com o único que já rivalizou minha Mestra, alguém que compartilhava um passado com ela, e eu estava curioso para saber o que exatamente. Por mais que ele não estivesse tão entusiasmado em compartilhar tal história.
— Espadachim. Olhe para nós: artífices clandestinos, um serviçal selvagem, e uma patronazinha que fugiu de casa... Se não estivéssemos dispostos a encarar o perigo, não teríamos sobrevivido por tanto tempo como caçadores de recompensa.
— Se a Terra não estivesse em guerra, eu não pensaria duas vezes em matar cada um de vocês.
— Ah, mas a Terra está em guerra. E são pessoas como nós que protegem cidades como aquela do rio agora.
— ...É. Por agora — Natanriel, ainda que visivelmente insatisfeito, embainhou a espada e nos permitiu segui-lo.
Curiosamente, o espadachim parecia manter o senso de justiça, então não havia sido desiludido, como eu esperava.
De qualquer forma, eu descobriria como alguém tão ilustre acabou naquela posição na caverna adiante, no ninho da tal rainha dos espeleólogos
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