Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 12

Capítulo: 12

— Aberrações como vocês não podem entrar aqui — o guarda da cidade falou, a ponta de sua espada levantando a balaclava de Edgardo.

Após dias de viagem através de biomoas infestados de fauna e flora perigosa, e ter coletado roupas tradicionais e um álibi de desertores tornados bandidos tornados picadinho, finalmente eu havia me sentido confiante o suficiente para me aproximar de uma cidade. Apenas para ter minha entrada negada pelo motivo mais estúpido.

— Voltem para o buraco escuro de onde vocês saíram, aberrações — outro guarda acrescentou, franzindo um nariz que literalmente não existia.

Bem quando eu me perguntava se não poderia me infiltrar por um esgoto ou pelo mar, mais dois homens uniformizados apareceram. O primeiro era semelhante aos guardas do portão: duas cabeças mais alto que eu e sem nariz, mas divergindo na cor azul de sua pele. O segundo, porém, não chamava menos atenção, sendo sendo ainda mais alto que os demais puristas, e coberto da cabeça aos pés por um uniforme branco, vestindo até uma máscara de gás da mesma cor.

— O que está acontecendo aqui? — o homem de pele azul quis saber.

— Esses bizonhos querem entrar na cidade. Hmph!

— ...Pois deixe-os entrar.

— O quê?! Senhor refinado, com todo o respeito-

— Huff! — o soldado de máscara de gás aproximou-se do guarda da cidade, cobrindo-o com a própria sombra.

— Por favor. Nesses tempos difíceis, temos de nos unir! Esquecer nossas diferenças, e etc., e tudo aquilo — explicou o tal “senhor refinado”.

E os portões da cidade costeira de Amore se abriram para nós.

Bem como para com os equipamentos do exército purista, branco era a cor padrão para os prédios e decorações da cidade, que mesclavam-se e confundiam-se. Estátuas de rostos sem nariz revelavam portas e janelas escondidas aos atentos, e monumentos de pessoas sem rosto produziam água potável de seus genitais; mesmo as construções mais simples, arquiteturas de retângulos e quadrados, tinham portas e janelas de madeira entalhadas com imagens de todo tipo de rosto sem nariz.

— Por favor, perdoem os homens do portão. São tempos de guerra, e é o trabalho deles manter todos seguros.

— Incluindo a nós, eu suponho? — perguntei.

E o “senhor refinado” parou por um segundo para me encarar com uma sobrancelha levantada.

— Vocês deixam seu autômata falar sem permissão?

— Minha antiga Mestra morreu, essas pessoas não podem me dar ordens, sua presença é apenas uma conveniência. No momento procuro um navio para me levar para meus criadores a fim de ser reprogramado para aceitar uma nova mestra ou mestre — dei uma justificativa que não exigisse que eu ficasse bancando o submisso novamente.

— Hm. Mas que autômata mais... independente — aquele de pele azul me encarou de perto, e Edgardo e Salessandra trocaram olhares agitados. — Eu estou realmente ficando velho, na minha época essas coisas mal conseguiam manter uma conversa com mais do que três palavras — deu de ombros, e tornou a nos guiar pela cidade. — É claro, não se preocupe, autômata, tenho certeza de que conseguirás um navio que o levará de volta para sua fábrica em segurança. O porto fina naquela direção — apontou para uma linha de copas de folhas verdes atrás de uma série de prédios. — E quanto a vocês dois, meus novos amigos... O Primor Gênito preparou exatamente a coisa perfeita para o seu tipo — o senhor refinado levou um par de artífices nervosos para um prédio inteiramente dourado e na forma de um homem nu muito alto sentado de cócoras.

— ...Eles que decidiram vir comigo — dei de ombros e tornei em direção ao porto.

 

 

Infelizmente, o meu paladar havia sido destruído junto com o resto do meu corpo, mas a sensação de satisfação (placebo ou não) por consumir doces era real o suficiente: os 13 gênes que gastei no palito de frutas caramelizadas valeram completamente a pena.

— Muito melhor que as raízes que vinha comendo no mato. Isso é nutrição o suficiente para manter meu cérebro ativo por mais alguns dias — comentei, atirando o palito na lixeira.

— Ah! — uma garota esbarrou em mim e tombou ao chão.

Por um momento pensei que poderia ser uma ladra, mas com longos e ondulados cabelos alvos, pele escura como obsidiana, e feições de alguém que nunca teve de pegar no pesado por um dia sequer, eu duvidava que esse poderia ser o caso.

— Você está bem?

— Olhe por onde anda! — ajudei-a a se levantar, e ela logo abriu um leque e começou a abanar-se. — Que ousadia, me derrubando assim — resmungou, limpando a saia do próprio vestido prendado branco e preto.

— Com todo respeito, eu estava parado, garota, foi você quem esbarrou em mim. Talvez você que devesse baixar esse nariz e olhar por onde anda.

— A pachorra! — irada, a estonteante garota que deveria ser um ou dois anos mais jovem, me encarou. — Ah! Você é um serviçal, que perda de tempo é discutir... — seu ultraje imediatamente evaporou. — Pesadelo — notou movimento às minhas costas e partiu sem dizer adeus.

Poucos segundos depois, mais dois serviçais muito mais altos e de aparência menos sutil que a minha, com grandes pistões e ventoinhas à mostra em seu corpo, seguiram os passos da garota.

Uma vez que o trio peculiar desapareceu na multidão de homens e mulheres sarados e de feições extravagantes, tornei em direção ao porto.

— Ajudar espiãs mal-educadas não vai me deixar mais perto de cumprir meu objetivo.

 

 

— Fama e riquezas incomparáveis! Experiência carregada de autoridade! Embarque como um aventureiro e se aposente como um aristocrata! — um homem com a pele listrada como um tigre anunciava de cima de uma pilha de caixas para uma multidão de jovens. — E é claro... Ooh, meus garotos e garotas, a sensação da brisa do mar em seu rosto, o harmonioso canto das aves, e o doce do rum. A mais pura liberdade! Algo que somente a vida de um recuperador pode oferecer! O que pode ser melhor?

Interessante.

— Eu quero me inscrever — me voluntariei.

— Excelente, meu garo- Mas que pesadelo que é você?

— Um voluntário, não me ouviu direito?

— Eu digo... você você, eu te ouvi direito!

— ...Um autômata?

— E cadê seu mestre? Preciso saber se ele é capaz antes de aceitá-lo na tripulação.

— Eu não tenho nenhum mestre.

— Nem a pau que eu vou aceitar um autônomo arisco no meu barco! Como é que você sequer entrou nessa cidade?! Onde estão os guardas dessa joça?!

Suspirei.

— Eu quis dizer que meu mestre não está comigo aqui agora. Mas se eu trazê-lo, vamos poder embracar, correto?

— Se vocês querem subir a bordo, é melhor se apressarem. Partimos hoje ao cair da noite, na melhor corrente.

Tornei ao centro da cidade.

Se Edgardo e Salessandra queriam tanto entrar em uma fação, podiam muito bem se tornarem recuperadores.

Enquanto eu tomava um atalho por um beco, porém, uma voz me fez parar:

— Machius de Toquestrela- não! De Macus, Guehehe — uma mulher idosa riu por trás de uma mesa sobre a qual descansava um prato cheio de ossos de peixe.

— Como você sabe meu nome?

— Sério? Eu esperava uma pergunta mais única, que decepcionante.

— Como você entrou nessa cidade sendo tão feia?

— Que rude! — a velha franziu o nariz verruguento e apertou os olhos esbugalhados.

— Você quem pediu por uma pergunta menos genérica.

— ...Guehe. Guehehe. Primeiro, o mestre de sua mestra vislumbrou uma verdade refletida no sangue que derramou, no seu próprio e no dos outros. Depois, sua mestra experimentou o mesmo quando o Patrono Absoluto rebelou-se. E ambos apenas afogaram-se no sangue que refletia essa verdade. Hoje, um novo discípulo desafia as incontáveis estrelas nos céus... — mexeu nos ossos de peixe. — E de fato, a luz no fim dos tempos brilha mais forte. Mas isso é o que ela sempre faz, guehe. Guehehe.

— Eu não vou te pagar por uma clarevidência pela qual não pedi.

— Não preciso do seu dinheiro, serviçal Machius de Toquestrela — sorriu, pegando uma espinha de peixe do prato. — Mas você não é o único perseguindo miragens, nem tem tanto tempo quanto imagina.

A idosa claramente sabia de algo que não me era claro, mas nem complexos sistemas mágicos ou igualmente complexas conexões neurais conseguiam fazer sentido daquilo.

— Por hoje apenas, o sol é seu aliado. Vá. Alcance seus amigos... antes que as sombras da noite o façam.

Encarei o sol poente instintivamente, e se eu ainda tivesse pele estaria suando.

Me apressei em direção ao prédio em forma de homem dourado ao centro da cidade.

 

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