Capítulo: 23
Não havia dúvidas, aquele era o corpo de Morrogna de Toquestrela exatamente como eu me lembrava dela.
— Mestra, você... você está bem?
Mesmo depois que o tubo de vidro se abriu e despejou minha Mestra sem cerimônias no chão da sala, porém, ela não reagia, apesar de seu peito subir e descer conforme respirava.
— Mestra — agachei-me ao seu lado. Minha boca abria e fechava e eu nem sabia o que queria dizer, e se eu tivesse mãos de carne, sem dúvidas, elas estariam encharcadas de suor. Eu deveria tomá-la nos braços?
— Ha... Hahaha! O vira-latas sentiu falta da vagabunda que o arrastou para lá e para cá por tantos anos? — a voz do último membro vivo do comitê triplo zombou. — É tão tocante, eu quase sinto muito por ter emprestado as tuneladoras para isolá-la no campo de batalha até que ela finalmente morresse. Aceite esse reencontro como um pedido de desculpas! Apesar de que agora ela atende por Receptáculo — adicionou, e quase que imedaitamente, Morrogna passou a contorcer-se e a vomitar o mesmo líquido verde que enchia o tubo de antes.
— Mestra? O que...?! — bem em frente a meus olhos, o corpo de Morrogna passou a esticar-se, expandir e contrair em pulsões. — O que vocês fizeram com ela?!
— AARGHH!! — minha Mestra urrou como uma besta, abrindo seus olhos e revelando múltiplas pupilas verdes em cada globo ocular. — Haaargh...?! KAARGH! — enquanto abraçando a si mesma, suas costas moviam-se grotescamente, algo a empurrando de dentro.
— O que as videntes veem no fim dos tempos? — a voz sem corpo do líder dos artífices procuradores me ignorou.
— Pesadelo, o que vocês fizeram com ela?!
— O momento em que cada uma das centenas de trilhões de âncoras do céu, as estrelas, falham. O momento em que quadrilhões de astros, bem como nossa Origem, choram em desespero, sabendo que seu maior medo se tornou realidade. O fim de nossa realidade.
Ignorante ao discurso desconexo vindo de muito acima de nós, a testa de Morrgna sangrava enquanto duas protuberâncias lentamente cresciam a partir das feridas, um par de antenas.
— O nascimento da verdadeira e única entidade onipotente, aquela que pode trazer ordem a uma realidade de caos, o ponto final de um universo cujas leis são determinadas por divindades covardes que pisam naqueles que se atrevem a criar como elas.
Gritando como nunca a ouvi gritar, Morrogna arranhou o piso metálico, suas unhas então longas e verdes facilmente o dilacerando.
— MUNDOS! Seu nascimento predestinado não pode ser impedido, não importa quantas novas leis ridículas os astros escrevam nos céus!
— HAAAARGH!!! — Minha mestra chorou, suas costas explodindo sanguinolentamente quando um par de asas de borboleta verde-translúcido lhe escaparam, muitas vezes maior que o próprio corpo da artífice.
— Mas como pode tal existência surgir quando todo o plano celeste conspira para suprimi-la? Ora, convenientemente, se tal existência de força de vontade absoluta não possui desejo absoluto, se ela é uma mera arma, seu azar é significativamente minimizado, haha.
— M-Mestra?
Morrogna, de expressão completamente neutra apesar de toda a agonia expressada antes, levantou-se. Não, flutuou bem à minha frente.
Ela apontou uma palma vazia para mim, a extremidade de seus membros enegrecidos. E senti calafrios pelo meu sistema nervoso remanescente.
Saltei para longe bem a tempo; sem necessidade de um artefato mágico, produziu uma estrela de tantas pontas que não consegui contá-las no breve instante pelo qual esta existiu. Em um segundo, um pilar de calor tão intenso atravessou a parede da sala e tantas outras paredes depois dessa, cavando um túnel tão longo que não era possível ver seu fim, imediatamente incinerando metade do laboratório e seus trabalhadores sem esforços.
— HAHAHA! Contemple! Ela ainda é um mero Receptáculo e já é poderosa assim! E em breve será Pseudo-Mundos, a arma secreta com a qual vou controlar não apenas este patético restolho de espécie humana que não se matou estupidamente, mas também toda a porra do sistema solar!
— Mestra — fechei os punhos e trinquei os dentes.
“BAM!”, as portas às minhas costas se abriram de repente, e meus amigos me ladearam, carregando nossas armas.
— Machius, a instalação está um ca- M-Mas que pesadelo aconteceu aqui?! — Edgardo gaguejou, encarando a destruição.
— A-Aquela é...? — Salessandra apontou.
— Seu nome é Receptáculo. Isso é tudo o que aquilo é — respondi, tomando o artefato que Felicita carregou até ali para mim.
— Extermine-os, Receptáculo! — ordenou a voz do último membro vivo do comitê.
— Cuidado! — gritei, e escapamos por pouco do próximo ataque inimigo; dessa vez a arma viva movendo-se mais rápido do que meus olhos podiam ver e socando a parede logo atrás de mim, seu punho abalando a estrutura da instalação inteira.
— F-Forte! — Salessandra empalideceu.
— Eu posso pará-la, mas preciso de tempo.
— Deixe conosco — Edgardo não perdeu tempo em disparar poderosos feitiços explosivos contra o Receptáculo.
Chamas, pressão e metal derretido estouraram sobre a inimiga, mas apenas fechando os dedos de uma mão, foi como se o próprio tempo ao redor do ataque regredisse, o dano sendo re-concentrado no único ponto antes de ser arremessado de volta para Edgardo.
— Ed! — gritei.
— Não se preocupe conosco, nós vamos ganhar tempo para você, faça o que tens de fazer! — prometeu o artífice, mal tendo evitado o contra-ataque, seu lado esquerdo chamuscado, a pele queimada exposta aqui e ali.
— Ele tem razão, essa é nossa única chance — Salessandra apontou seu rifle e enfeitiçou.
— ...Droga! — esperei até que o Recepátculo ficasse n mesmo lugar por mais que um segundo, e enfeiticei.
“Vush!”, uma dúzia de linhas quase invisíveis se conectaram aos membros de minha inimiga.
Fui imediatamente assolado por uma força de vontade tão imensamente superior a qualquer outra que eu já havia presenciado que minhas mãos largaram meu artefato-arma, e caí de joelhos com sangue vazando de meus olhos e nariz.
— Mestre! — Felicita agachou-se ao meu lado. — V-Você está bem?
— ...S-Sim.
— O-O que eu faço? O que eu faço?!
— Minha arma. Traga-me minha arma.
“VUUSH!”, com um bater de asas, o Receptáculo derrubou meus aliados.
— Aqui! — bem quando a inimiga iria disparar sabe-se lá qual feitiço incompreensível sobre Edgardo e Salessandra, Felicita me trouxe minha arma, e enfeiticei de novo, dessa vez atirando tantas linhas sobre minha inimiga quanto eu podia, conjurando um feitiço de nove pontas.
O chão e paredes tremiam e línguas de energia pura derretiam a tudo que tocavam conforme o Receptáculo perdia o controle sobre os próprios feitiços. Mas então, minha oponente se mantinha parada e ao chão.
— Hurgh...! — o pouco de material orgânico que ainda compunha meu ser sangrava, recebendo dezenas de novas cicatrizes a cada instante em que eu replicava o que eu fiz para assumir controle do meu próprio, sobrescrevendo os controles do comitê triplo sobre aquele ser espetacular.
— Mestre! Não! — Felicita chamou, chorosa. Mas segui em frente mesmo assim, me aproximando do Receptáculo.
Minha força de vontade era testada para além de seus próprios limites, eu sabia que se eu vacilasse, mesmo que por apenas um segundo, meu corpo e mente seriam reduzidos a nada.
— Felicita, essa também é uma lição para você — comentei por entre dentes trincados.
Caminhar adiante era como fazer cálculos e duelar ao mesmo tempo, e enquanto deitado sobre uma cama de brasas; meu sangue evaporava mesmo antes de tocar o chão, e eu suspeitava que, se eu me demorasse muito mais, logo meus próprios miolos seriam aqueles pingando de meu nariz.
— Mestra — sussurrei, cara a cara com Morrogna.
Pensei em um milhão de coisas que poderia falar. É claro que já havia pensado nisso; toda noite que passei sozinho de guarda, durante as horas de monotonia em minha viagem, me perguntei o que diria a ela se a visse uma última vez. Eu deveria repreendê-la? Elogiá-la? Dizer obrigado por tudo? Eu certamente não era grato por tudo.
— Adeus — foi a resposta à qual cheguei. E no instante seguinte, silêncio, seguido por um baque seco.
Em minhas mãos, a cabeça decapitada de minha antiga Mestra, sorrindo.
Pouco depois, a instalação fragilizada cedeu de vez quando o depósito de lava do vulcão próximo a invadiu. O íltimo membro do comitê triplo fugiu de aeronave, e nós também escapamos antes que reforços do Sindicato nos alcançassem; nos embrenhamos mata adentro, deixando o campo de batalha onde minha mestra morreu para trás uma segunda vez.
Mas daquela vez, era diferente.
Não apenas eu carregava uma cabeça decapitada numa bolsa, eu sabia exatamente para onde eu queria ir. Para onde ela gostaria de ir.
Em minha mente, eu tinha um objetivo claro: uma casa de dois andares construída dentro da casca de um tatu-montanha, ameaçadora por fora, mas aconchegante por dentro.
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