Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 5

Capítulo: 5

Quando abri os olhos, eu estava numa tenda militar escura. Eu lembrava perfeitamente de minhas últimas duas mortes, e tinha vagas memórias da vida que tive antes disso. Uma floresta vermelha de vermes, um vilarejo, a Mestra e algumas outras figuras; de uma, eu gostava, de outras não.

— Nós fizemos como a Décima pediu e o mantivemos o mais fiel à sua versão original possível mas, justamente por isso, esse serviçal não é exatamente apropriado ao combate — explicou um artífice cujos braços eram segmentados em anéis, como o corpo de um verme. Um Produtor. — Da próxima vez, por favor, tente mantê-lo longe de maiores riscos. Os recursos necessários para a manutenção desse carinha são difíceis de conseguir aqui, na linha de frente.

— ...Eu percebi — comentou a Mestra, apoiando o rosto num punho e encarando meu braço esquerdo, então substituído por um membro frio de placas de quitina brancas, similar à porcelana.

— ...Eu ouvi que a Décima pretendia usar este serviçal como sistema de comunicação. Gostaria que eu instalasse um-

— Dispensado.

— ...Décima — o Produtor assentiu e deixou a tenda.

— Eu sinto muito por tudo isso, meu fofíssimo aprendiz. Mas não se preocupe, eu não vou deixar que eles o transformem num monstro como os outros — Morrogna sorriu carinhosamente.

— Entendido, Mestra.

— Eu também apliquei uma punição apropriada àquele idiota que te machucou, e no futuro, vou ser... mais clara sobre sua posição aos meus demais subordinados.

— Obrigado, Mestra.

— Ooh, meu fofíssimo aprendiz — Morronga, pesarosa, abraçou-me. — Eu realmente sinto muito por ser tão fria com você lá fora — minha Mestra tomou minha mão e a colocou sobre o próprio peito. — Você pode sentir? Como meu coração bate, alegre por finalmente te ver de novo? Essas últimas estações foram tão solitárias sem você, Machius — acariciando meus cabelos, concluiu: — Mas você entende, não é? Lá fora, não posso mostrar favoritismo, especialmente não para com um serviçal.

— Eu entendo, Mestra.

— Sempre tão gentil — Morrogna sorriu e beijou minha testa. — Venha. Vamos à cama. Amanhã você terá um dia cheio, vou continuar seu treinamento para que o desastre da missão anterior não se repita no lugar para onde estamos indo — ordenou, lentamente desabotoando minha capa curta decorada com penas azuis de arara e removendo minha cota de malha. — Me ajude com isso — ordenou de novo, me dando as costas.

Tirei a capa negra de seus ombros e desafixei as presilhas de seu peitoral, mas não houve nova instrução, então apenas continuei a despi-la. Removi seus coturnos, meias e luvas, revelando mãos e pés de unhas negras e pele tão pálida quanto a de sua face, mas repleta de cicatrizes. E talvez porque eu analisava se tais cicatrizes eram uma ameaça à minha Mestra, talvez porque eu havia sido despertado apenas alguns poucos minutos antes, me demorei em silêncio, paralisado.

— ...Minha calça.

— ...Sim, Mestra — não tive escolha além de obedecer.

Primeiro, desprendi a fivela de seu cinto. Eu provavelmente não teria tempo de me acostumar com minha nova mão artificial no campo de batalha, e por isso procedi vagarosamente, cuidadosamente. Sim, essa era a razão, algum sistema oculto à minha parte consciente.

Depois, desabotoei-lhe a calça. Minha Mestra me encarava do alto, seus olhos, dois poços de escuridão sem fim.

Abri o zíper com cuidado a fim de não danificar-lhe o uniforme, e... parei. Eu não sabia o porquê ou como, mas minhas mãos tremiam.

— P-Puxe-a, vamos — a ordem seguinte sobrepujou quaisquer erros internos que pudessem ter acontecido provavelmente devido aos danos que sofri em minha última batalha, e despi minha Mestra de suas calças.

À minha frente, Morrogna esperava de pé, com um sorriso trêmulo, trajando apenas uma regata e calcinha pretas e confortáveis, padrão dos artífices, expondo centenas de cicatrizes. Percebi que, apesar de pálida da cabeça aos pés, alguns pedaços isolados de sua pele eram coloridos em diferentes tons de cinza ou branco, como um vestido de noiva de plebeia passado adiante por muitas gerações, cheio de retalhos.

Minha Mestra abriu e fechou a boca repetidamente, como se prestes a dar uma ordem a qualquer momento, e meus músculos e pistões retesaram-se automaticamente.

— ...Fu-Fufufu. É como quando tomávamos banho juntos, não é?

— Não. A Mestra não se despia naquelas situaçõ- — uma mão surpreendentemente forte segurou minhas bochechas, me interrompendo.

— Foi você quem me despiu — Morrogna retrucou, quaisquer vestígios do sorriso desajeitado de antes desaparecendo de seu rosto.

— ...S-Sim, Mestra — respondi o melhor que pude.

— ...Fufu. Você fica tenso demais nessas situações, não é? — sua expressão retornou a algo gentil, inofensivo e nostálgico. — Você é realmente fofíssimo, Machius. Mas sua Mestra também tem sentimentos, sabia? Eu vou seriamente ficar machucada se você for frio assim comigo — confessou, acariciando minha cabeça.

— Sinto muito, Mestra. Não acontecerá de novo.

— Bom. Agora vamos dormir. Você precisará estar bem descansados para seu treino de combate corpo a corpo com o Ed, retomar seus estudos comigo, e ainda aguentar a viagem até o próximo campo de batalha.

Nos deitamos, abraçados, e minha Mestra passou ao menos uma hora acariciando meus cabelos antes de finalmente cair no sono. Só depois que tive certeza de que ela sonhava, consegui fazer o mesmo.

 

 

Não havia alvo específico para matar, base para capturar, ou reféns para resgatar, mas apenas um extenso e desolado campo de vidro do tamanho de muitos horizontes. Por entre o espelho quebrado que havia se tornado o chão daquele campo de batalha bombardeado por feitiços elétricos vezes demais, corpos mortos e máquinas de guerra arruinadas de aliados e inimigos pareciam flutuar no céu, fazendo companhia à lua morta tão lá em cima. Uma missão estupidamente simples e igualmente arriscada de tomada de território.

— Fufu, parece que o oficial não foi com nossa cara, afinal — Morrogna sorriu enquanto observando por sobre a trincheira com um espelho embutido na parte interior da tampa de seu relógio de bolso.

— Qual o plano da vez, Décima? — perguntou a artífice que carregava o rifle, Salessandra.

— Esperamos o sinal, levantamos e corremos até o buraco mais próximo enquanto dando nosso melhor para não sermos atingidos — minha Mestra explicou, dando de ombros.

— Cada um por si, huh? — disse o artífice pistoleiro magro e alto, Mililiano, e atirou uma goma rosa na boca.

Ninguém o contestou.

— Mestra — quando chamei, Morrogna apenas me atirou um olhar desinteressado, mas não me impediu de continuar: — isso se aplica a mim também? Devo deixar seu lado?

— Não gastei uma fortuna com você para precisar ficar te carregando para todos os lados, serviçal. Aposto que você consegue correr até a próxima trincheira, ao menos.

Assenti. E, para minha surpresa, senti uma mão pousar em meu ombro.

— Não se preocupe, garoto — enquanto erguendo um polegar, o mascarado Edgardo soava animado por sobre as ordens sendo gritadas por oficiais à nossa esquerda e direita. — Eu tenho vontade o suficiente para proteger o time inteiro!

— Ed, você sabe que ele já está morto, né? Não passa de uma máquina em forma de gente. Pft! — Salessandra apontou e depois cuspiu, me atirando um olhar de esguelha.

— Só para deixar claro, eu não concordo com essa mulher de forma alguma, e reconheço a importância vital do serviçal à equipe. Por favor, não me mate — Mililiano ergueu as mãos em rendição.

— Ah! N-Não foi o que eu quis dizer, eu só- — Salessandra gesticulou desesperadamente.

— Hmph, idiotas — a Mestra resmungou, sem prestar atenção aos subordinados.

— Ha! Ha! Ha! — Edgardo riu com os demais companheiros.

Então um apito soou alto e todos imediatamente assumiram suas posições. A Mestra, indiferente, Salessandra cuspindo e praguejando, Mililiano mascando mais uma goma, e Edgardo de expressão impossível de se ler por sob sua balaclava negra.

Ao soar do segundo apito, todos saltamos à terra de ninguém e, acompanhados de milhares de outros soldados, avançamos contra uma tempestade de flechas e feitiços.

— VÃO, VÃO, VÃO! — berravam os patronos menores da trincheira às nossas costas. — DESERTORES SERÃO IMPIEDOSAMENTE ABATIDOS!

Choviam facas e bolas de fogo, feitiços de três ou quatro pontas disparados por artífices inimigos, e flechas voavam, assoviando; soldados eram assados dentro de suas próprias armaduras ou perfurados por todo tipo de projéteis. Sorte, ambiente, equipamentos, cada um usava o que podia para sobreviver até, pelo menos, à cratera mais próxima ou uma máquina de guerra arruinada qualquer, até a próxima proteção e cobertura dos ataques incessantes. E eu também.

“Vush!”, peguei uma flecha em pleno ar com meu frio braço esquerdo de quitina branca. Girando o projétil com os dedos, o devolvi ao arqueiro na trincheira inimiga, perfurando-lhe a traqueia.

Esmagando vidro sob botas com espinhos de ferro, chuguei ao meio do caminho, me escondendo atrás da carcaça metálica de uma máquina de guerra.

— Precisamos obedecer, precisamos obedecer, precisamos obedecer... — percebi que um garoto da minha idade fazia do mesmo lugar seu abrigo. Sobrevivente de uma das inúmeras tentativas anteriores de avançar, vestia roupas de couro negro e restritivo que causavam lacerações e desconforto o suficiente para combater o azar de pilotar um veículo mágico, o uniforme de um provedor.

A situação não era boa, os inimigos pareciam possuir poder de fogo quase infindável, e o terreno instável e cheio de obstáculos cortantes dificultava nossa locomoção; nossa fronte parecia incapaz de avançar mais um passo sequer, mas recuar também não era uma opção.

— Precisamos obedecer, precisamos obedecer... — o sobrevivente não pareceu se importar quando tomei-lhe a chave que descansava ao seu lado.

— ...Obrigado — acreditando que minha Mestra gostaria que eu o fizesse, agradeci.

Escalei os destroços da máquina de guerra em forma de uma ave não-voadora cujo canhão ficava onde a cabeça do animal no qual era inspirado ficaria, inseri a chave no painel da arma e este mostrou ainda funcionar, ao menos o suficiente: luzes amarelas piscaram, ponteiros giraram, e metade do painel parecia inoperável, mas o botão que lia “disparar” não parecia emperrado.

Apertei o botão de disparo e uma estrela branca de quatro pontas brilhou frente à ponta do canhão, e no instante seguinte um raio flamejante iluminou o campo de batalha.

Quando o canhão perdeu sua força, já havia feito seu trabalho: o vidro que dificultava o avanço havia sido atirado para longe, e os inimigos distraíam-se com um incêndio inesperado em sua trincheira.

Voltei a correr.

— Guerreiros! — comandou um oficial inimigo que também vestia penas de arara, mas de cor vermelha, e vi uma dúzia de rebeldes sacando espadas e levantando lanças contra mim.

Disparei contra um espadachim, e a cabeça brilhou sob um ponto branco de duas pontas antes de explodir num milhão de fragmentos ósseos que feriram seus companheiros e numa chuva de sangue que cegou-os. Ainda antes que meus pés tocassem o fundo da trincheira inimiga, finquei a lâmina do meu revólver no olho de outro oponente, derrubando-o.

— Hm — senti pontadas da esquerda e direita quando caí em solo inimigo, perfurado por duas lanças.

Dois feitiços depois, porém, me livrei dos atacantes, cujos próprios ossos lhes traíram.

— Artífice? — o oficial inimigo perguntou. — Um feitiço direto? A arrogância! — me desprezou quando meu feitiço não fez qualquer efeito nele, e ergueu sua espada envolta em uma aura de minúsculas estrelas de três pontas. — GYAH! — perdeu o braço da espada para uma bola de ácido verde, que consumi-o num instante.

No instante seguinte, o oficial ferido foi finalizado por uma pequena adaga voadora e uma explosão reduziu os demais inimigos naquela trincheira a fragmentos humanos. Três novos pares de botas caíram ao meu lado.

— Eu disse que poderias contar comigo, garoto! — Edgardo ergueu um polegar.

— Olha para ele, já está acabado — Salessandra apontou meus lados encharcados de vermelho.

— Eu estou bem. Danos dessa magnitude podem ser facilmente reparados —  me levantei.

— Por que a Décima o ensinou magia direta? — Mililiano levantou uma sobrancelha. — Ele não vai conseguir derrotar ninguém além dos peixes pequenos assim.

— Vai ver ela está no topo há tanto tempo que se esqueceu como é qualquer outra posição. — Salessandra deu de ombros.

— Eu e Morrogna ainda estamos o treinando, ele vai se sair melhor — Edgardo prometeu.

— Amigo, ele é um serviçal. Você pode ensinar quantas técnicas quiser, sua alma não vai crescer mais que isso.

— Sinto interromper, mas onde está minha Mestra?

— Gyaaaahh! — gritos misturados ao caos do combate ecoaram à nossa esquerda.

— Algo me diz que a encontraremos se seguirmos os gritos aterrorizados — Edgardo liderou o caminho.

— Choro e berros, é sempre assim. Por que nunca podem ser risadas de relaxamento e diversão? Pft! — Salessandra cuspiu e seguiu-o.

Não demorou para que encontrássemos resistência inimiga: do labirinto de corredores úmidos que curvava-se, dividia-se e conectava-se com túneis e salas subterrâneas, soldados apareciam de repente e num piscar de olhos.

“Bang, bang, bag!”, enfeiticei o peito de um soldado, o braço de outro, e errei o terceiro feitiço e alvo.

O primeiro rebelde morreu quase instantaneamente, conforme o crescimento descontrolado de sua caixa torácica esmagou-lhe o coração e pulmões, enquanto o segundo soltou sua arma uma vez que seu braço cresceu e cresceu, até que seus tecidos moles não conseguiram acompanhar o crescimento, esticados até além da falha.

— Huh! — o terceiro rebelde estocou contra minha barriga. — Guah! — mas foi ele quem viu-se empalado pela baioneta de Salessandra.

— Bwah! — gritou o segundo rebelde, perfurado por uma adaga conjurada pela mesma artífice logo antes de atirar uma faca de arremesso com a mão boa.

— Sempre tenha certeza de matá-los, serviçal.

— Entendido, senhora Salessandra. Muito obrigado, senhora Salessandra.

— Salessandra está bom! Não precisa repetir tudo isso o tempo inteiro.

— Entendido, Salessandra.

“BUM!”, o túnel do qual os soldados rebeldes surgiam desabou sob a pressão dos feitiços explosivos de Edgardo.

E um segundo depois, ouvimos mais rebeldes se aproximando de nossas costas.

— Pesadelo, não há fim para eles!? Pft! — Salessandra cuspiu.

— Quantos de nós alcançamos essa trincheira, afinal?! — Mililiano quis saber, derretendo guerreiros inimigos enquanto atirando ainda mais goma rosa estimulante na boca.

— Não, não, não! — ecoaram mais gritos horrorizados, então mais próximos.

— Ao menos mais uma. Vamos! — Edgardo correu adiante depois de incapacitar um par de inimigos com nada além de golpes corpo a corpo.

O seguimos.

Atravessando o labirinto de trincheiras, chegamos a um largo espaço quadrado semisubterrâneo abrigando um massivo canhão mágico arruinado. O que deveria ser uma centena de cadáveres de inimigos e aliados cobria a maior parte do chão de lama ensanguentada e cacos de vidro. E no centro da carnificina, de um lado, uma beldade pálida de lábios, olhos e cabelos negros, e do outro, um espadachim de barba e cabelos rentes, de armadura ricamente decorada por imagens de pássaros, com um sabre na forma de ave, cujas asas formavam um par de lâminas paralelas, e a cauda o cabo.

Ignorando nossa presença, o espadachim avançou contra Morrogna tão rápido quanto uma flecha. Minha Mestra tentou enfeitiçar-lo, mas não conseguia manter seu alvo sob a mira; mesmo quando uma dúzia de serpentes de carne saltaram das entranhas dos cadáveres por todos os lados contra o espadachim, foram prontamente picotadas num piscar de olhos, e o oponente de minha Mestra diminuiu o espaço entre ele e minha Mestra perigosamente.

“Bang!”, Morrogna disparou um feitiço de seis pontas quase à queima-roupa contra o espadachim.

E para minha surpresa e aflição, o espadachim ignorou ataque, que dissipou-se na aura branca que o envolvia... aura composta por inúmeras estrelinhas de sete pontas.

— Ah — Morrogna grunhiu quando bisseccionada.

— MESTRA — corri em direção à minha única dona, e logo a seguir ouvi meus aliados tomando ação.

“BUM”, explodiu um feitiço explosivo disparado por Edgardo; infelizmente, longe demais do alvo, que chutou-o de para o artífice com o pé envolto em aura, o estouro atirando o mascarado muito para longe.

“Vush!” uma adaga assoviou ao meu lado, voando rápido demais na direção do espadachim. “Bing!”, faiscou, atingida pela arma do inimigo, desviada na direção de um monte de corpos...

Do qual emergia uma sangrenta Morrogna.

— Bwah — minha Mestra tossiu sangue, atravessada pelo feitiço de Salessandra.

— Que...? — parei de correr no meio do caminho, notando que não havia apenas dois cadáveres idênticos aos da Mestra.

— Artífice de dez pontas, Morrogna de Toquestrela — suspirou o espadachim, limpando o sangue de sua lâmina nas roupas dos mortos. — Quantas vezes mais vou ter que te matar?

— Já está cansado? Fufu — riu uma voz familiar, soando de uma pilha de vísceras à esquerda. — Francamente, vocês, brutos, são todos iguais: feios e decepcionantes — adicionou, sua voz vindo de ainda outra pilha de corpos, à direita.

A pele de um soldado, os músculos de outro, e o esqueleto de ainda outro aglomeravam-se e mesclavam-se como barro, formando múltiplas Mestras por todos os lados.

— Ufa, eu não matei minha chefa acidentalmente! — suspirou Salessandra, aliviada.

— Eu não quero ouvir criticismo tal como “feio” de uma aberrações como vocês — retrucou o espadachim.

— ...Natanriel Ptolion — Morrogna emergiu das costas do que uma vez foi uma enorme criatura composta de múltiplos cadáveres, franzindo o cenho, cheia de desprezo. — Apesar da barba, você continua o mesmo pirralho ignorante de sempre.

— N-Natanriel Ptolion?! — Edgardo gaguejou, surpreso. — Garoto! Volte aqui, agora!

— Eu tenho que proteger minha Mestra, apontei meu revólver contra o inimigo solitário, mas Salessandra me forçou a obedecer a seu companheiro, puxando-me pelo braço.

— Você só vai acabar se destruindo por nada, idiota!

— Finalmente ficou séria — o espadachim apontou sua lâmina para minha Mestra, e seu corpo por inteiro passou a brilhar ainda mais intensamente, as minúsculas estrelas que o envolviam brotando mais pontas, até totalizarem oito. — Já estava na hora! Te derrotando, vou provar decidir de uma vez por todas que sou o espadachim mais forte de todos!

— Hmph. Foi justamente por conta desse tipo de discurso ridículo que preferi arriscar a morte no expurgo do que passar mais um dia sequer como uma clandestina ao seu lado.

— Rejeitando a justiça e heroísmo que espalhei em minha juventude... Até suas palavras cheiram a decomposição. É meu dever erradicar sua existência corrompida e corrompedora aqui e agora mesmo! — conforme o corpo do espadachim cintilava ainda mais, o ar ao seu redor distorcia-se, o sangue ao chão evaporava, e a  temperatura dos arredores subia. — Chegando mesmo ao ponto de tornar meras crianças em serviçais! Vocês, artífices, e seus planos nojentos não têm espaço na era por vir!

— Seu idiota que nem sabe pelo que está lutando, não vou desperdiçar minhas palavras com você. Morra de uma vez — Morrogna reclamou, apontando o revólver na direção do oponente junto de todos os seus clones, sua voz mais cheia de rancor do que jamais a ouvi antes.

— Recuar! Vamos! — Edgardo, chamuscado, nos chamou para trás, para dentro de uma cratera próxima.

E no instante seguinte, a zona frente ao canhão ofuscou mesmo o sol acima, as estrelas de dez e oito pontas piscando por um segundo apenas. O chão cedeu, o ar incendiou-se e uma densa cortina de fumaça cobriu a tudo, apenas para ser rapidamente dissolvida por uma chuva de sangue.

Então, silêncio.

— Mestra — meu corpo moveu-se por si mesmo, deixei a proteção da cratera e corri de novo até o local do duelo.

Dois talhos profundos dividiam chão e parede de um lado ao outro, porém, enquanto ignorando rocha e metal igualmente, a criatura vermelha no fim da trajetória do ataque via-se essencialmente ilesa, tendo perdido apenas meia dúzia de suas dezenas e dezenas de membros.

— Maldita...! — Natanriel praguejou do topo do canhão arruinado por entre gorgolejos de sangue.

— Reclamando depois de pedir tanto para que eu te enfrentasse seriamente... — comentou Morrogna, sem um arranhão sequer, de dentro da caixa torácica vazia de uma criatura composta de centenas de cadáveres, uma coisa humanoide com ombros e pescoço terminados em cotocos, e com um par de asas compostas por inúmeros braços. — Fufu. Típico de brutos como você.

— Kurgh! Isso não vai acabar assim! Marque minhas palavras, isso não vai acabar assim! — dando as costas para nós, Natanriel saltou para surpreendentemente longe num pulo só, de volta para as linhas inimigas.

— Décima! Não podemos deixar Natanriel escapar agora, ele está enfraquecido! Nos ordene persegui-lo! — Mililiano pediu.

— Não. Ele ainda... é demais para vocês — Morrogna respondeu. E no instante seguinte, caiu sobre um joelho, segurando a própria barriga.

“Splash!”, a criatura que a protegeu desfez-se repentinamente numa enchente de vísceras.

— Mestra — corri até ela. — A mestra está bem? Precisa de ajuda?

— Ela sofreu mais azar do que o carma que seu corpo lhe traz pode balancear — explicou Salessandra, séria.

— Mas graças à Décima, completamos a missão; tomamos a trincheira inimiga! — comemorou Mililiano, cuspindo uma massa de gomas descoloridas ao chão. — Mostramos para eles do que os procuradores são realmente capazes! Precisamos comemorar, comemorar! Tragam a birita, haha!

— Garoto, me ajude aqui — Edgardo emprestou um ombro a Morrogna, e eu logo fiz o mesmo. — Venha, Décima, vamos retornar à base. Vão poder tomar conta de você lá.

Seguimos na direção da qual viemos, escalando parte da trincheira colapsada. Ainda mais corpos e destruição do que antes pontilhavam a paisagem vitrificada; poucos haviam sido capazes de alcançar a trincheira inimiga, e ainda menos retornavam. Alguns médicos e artífices já se aproximavam de nós às pressas, incluindo aquele que, reconheci, havia me montado da última vez.

Mas a paisagem a paisagem ainda tinha muito mais o que mudar.

“BUUUM!”, explosões cortaram o horizonte de ponta a ponta, atirando estilhaços de vidro em todas as direções, e em instantes uma nova trincheira havia sido detonada entre o ponto em que estávamos e a nossa base. De alguma forma, soldados inimigos haviam colocado-se entre nós e nossos reforços, suprimentos e ajuda médica.

— Q-Que?! Por quê?! — Salessandra caiu de joelhos, seus ombros cedendo.

— Como eles podem ter cavado bem sob nossos pés? Pensei que não podiam nos superar nisso enquanto tivéssemos o Sindicato do nosso lado! — Mililiano se pôs a mascar a substância rosa de novo.

— E a Mestra? — perguntei, paralisado enquanto encarando a nova e repentina linha defensiva inimiga.

— Não temos escolha — Morrogna afastou a mim e Edgardo, sustentando-se sozinha. — Vamos ter que resistir aqui até que os reforços cheguem. As forças lealistas não devem levar mais que uma ou duas estações para nos alcançar.

A obedecemos.

E por um ano e meio, resistimos, à espera.

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