Capítulo: 13
A praça estava deserta devido a um toque de recolher instalado sob justificativa de tempos de guerra. Apenas uma meia dúzia de guardas-artífices, equipados com os pesadas artefatos-armas giratórias e máscaras de gás circulavam ao redor do prédio dourado. Mais do que eu podia lidar.
— Só há uma entrada, não vejo sequer uma janela ou entradas de ar — notei de cima de um telhado próximo. — A última vez que vi um prédio assim foi a sede do Sindicato na capital. Esse não é um mero centro de acolhimento...
E a julgar pela profecia da adivinha, eu tinha menos de uma hora para resgatar Edgardo e Salessandra.
Levei minha mão ao coldre à cintura, mas hesitei. Em vez disso, tome o esguio revólver de cabo de marfim entalhado com imagens de amantes, e de baioneta serrilhada. A arma que um dia pertenceu a Morrogna.
— Não há tempo ou alternativa sutil — saltei à praça.
Quatro guardas se posicionavam, cada um em um canto do prédio, e dois deles patrulhavam em círculos ao redor do mesmo com apenas um vácuo de três minutos entre os encontros dos soldados em patrulha com os estacionados. Essa era a única carta a meu favor.
“Crack!”, assim que meu pé direito tocou o pavimento de lajotas em formato de rostos humanos, pistões no interior de minhas pernas me impulsionaram com energia o suficiente para partir a rocha abaixo de mim.
Quando o guarda trajado de branco vagarosamente tornou sua cabeça em minha direção, a lâmina de minha arma já estava a centímetros de penetrar seu pescoço.
“Pwaf! Bwah?!”, o guarda muito alto provou do próprio sangue.
“Bang!”, antes que seu parceiro sequer pudesse apontar sua arma em minha direção, eu o havia transformado numa parede viva de carne e ossos.
— Faltam qua-? — um poderoso chute me interrompeu, eu quase não tendo sido capaz de bloquear o ataque com meus antebraços de quitina dura.
O guarda cujo pescoço eu havia perfurado ainda resistia, de alguma forma, por mais que já houvesse perdido tanto sangue que seus braços não mais lhe respondiam.
“Bang!”, transformei sua cabeça num buquê vermelho.
Curioso, mas não o suficiente para perder tempo investigando a diligência do guarda, invadi o prédio e fiz com que a parede de carne que enfeiticei segundos antes bloqueasse a entrada. Aquilo deveria me comprar algum tempo.
“Bam!”, arrombei com um chute a primeira porta que vi, e um grupo de homens e mulheres vestindo sobretudos e capas brancas recuar, assustado.
— Para onde vocês levaram os feios? — perguntei.
— G-Guardas!
“Bang, bang, bang!”, com um trio a menos na sala, seus estômagos desprotegidos e produzindo uma variação muito mais agressiva de seu ácido natural que corroeu-lhes de dentro para fora, os sobreviventes se mostraram mais dispostos a conversar:
— P-Para o subsolo! A-As celas, para os experimentos! É só apertar os botões um e quatro ao mesmo tempo no painel do elevador!
Corri até o fim do corredor, para o elevador, e fiz como o instruído. Aquela parede não seguraria aqueles guardas enormes por muito mais tempo, e eles sem dúvida seriam meu maior problema.
“Ding!”, as portas do elevador se abriram para o subterrâneo e sala de experimentos secreta. E bem à minha frente, uma dupla dos artífices de máscara de gás apertava o gatilho de seus artefatos-armas giratórias.
“Vrururururur!”
Pouco antes de ser irreparavelmente destroçado pelos projéteis, saltei ao teto do elevador e escapei pelo painel de manutenção.
Com a lâmina serrilhada do revólver, cortei o cabo do contrapeso, que caiu a toda velocidade no subterrâneo secreto, levantando uma grossa nuvem de poeira com seu estouro.
Não esperei que os inimigos se recompusessem e avancei através da cortina de fumaça.
“Bang!”, provoquei o crescimento descontrolado das raízes dos dentes superiores de um dos guardas, que cresceram através do próprio crânio e cérebro.
Não deixei que o segundo disparasse, avancei sobre ele com minha lâmina cerrada, mas este facilmente bloqueou meu ataque com uma das três lâminas de machado que coroavam sua arma.
— Kugh! — um punho pesado me arremessou para longe, colocando pressão perigosa mesmo na minha superfície de quitina dura.
“Vrururur!”, o guarda disparou no corredor apertado, e não tive escolha se não chutar as paredes e cravar minhas unhas no teto, saltando de um lado para o outro e de cima para baixo, passando por cima de meu atacante e caindo às suas costas.
Antes que eu pudesse atirar bem contra sua nuca, porém, um soco como uma marreta arrancou o revólver de minha mão, e uma lâmina de machado quase me partiu ao meio, se eu não tivesse esquivado no último instante.
— Não me subestime, seu brutamontes — invadi a guarda do artífice quando este brandiu sua lâmina contra mim novamente, e finquei quatro garras em sua barriga, rasgando-a de ponta a ponta, esparramando suas tripas ao chão. — Que!? — e logo em seguida, senti um joelho me atirando para longe, levando minha quitina ao limite. — Como... você ainda anda?
Sem se preocupar com as próprias entranhas pendentes, o purista de máscara de gás apontou sua arma de novo para mim.
— Bosta — me escondi atrás do corpo do segundo guarda bem a tempo de evitar uma enxurrada de projéteis em forma de dedos metálicos. — Anda logo, e faça algo que presta — atirei nas costas do corpo musculoso que rapidamente se desintegrava sob ataque inimigo, e o braço do brutamontes converteu-se numa besta que disparou um osso pontudo contra o próprio parceiro.
Finalmente, ambos estavam mortos.
— Foi tarde — reclamei, pegando meu revólver. Não pude deixar de notar, porém, que das pesadas caixas quadradas às costas dos inimigos, então parcialmente destruídas, escorria sangue, e delas pendiam braços humanos fragilizados. — ...Tenho que me apressar.
✹
Aparentemente a Supremacia Purista não esperava ataques naquela base secreta, ou então seus pesquisadores apenas não gostavam de serem constantemente observados pelos sinistros artífices de máscara de gás. Independentemente da resposta, cheguei ao que parecia ser uma sala de controle sem mais problemas, e até um enorme painel cheio de alavancas, botões e mais.
No mesmo painel, uma espécie de rádio com um espelho ativou-se sozinho, exibindo um homem nu tão alto que ficava de pé apenas com o auxílio de muletas, um homem sem nariz, pelos ou orelhas. O próprio Primor Gênito, líder supremo da nação, corpo o qual as máquinas de guerra e prédios copiavam.
— Bem-vindo! Arma secreta do bastardo... Ou melhor, guardião da arma secreta do bastardo — sorriu. — Você veio resgatar seus mestres espiões? Ou recolher informações sobre mim? Ou sobre seus outros inimigos?
— Onde eles estão?
— Muhaha... que rude de minha parte — zombou logo antes de escotilhas de ferro levantarem-se frente ao painel de controle.
Do outro lado da janela, dois indivíduos, nus e amarrados às camas de cirurgia; ambos muito pálidos e de lábios e unhas negras, uma mulher de cabelo raspado e um homem baixinho que parecia ter sobrevivido a um terrível incêndio, como se seu corpo tivesse sido parcialmente derretido um dia. Ambos olhavam para mim, apavorados, gritando algo que eu não podia ouvir devido ao vidro.
— Você já cruzou caminho com nossos velhos protótipos, não? — a voz no rádio continuou.
— Mas o que eles estão...? — tentei entender por que Edgardo e Salessandra remexiam-se tanto quando a ajuda estava tão perto.
— Bem, como vocês estão me fazendo essa cortesia de apresentar sua carta na manga, permita-me fazer o mesmo, muhuhu... — riu. E finalmente entendi a origem do desespero no olhar e nas palavras mudas de meus companheiros, quando uma enorme sombra caiu sobre o painel.
— RAAAAGHH!! — um urro preencheu a sala de controles, e no instante seguinte o painel e o lugar onde eu estava a apenas um segundo se viram achatados por uma pesada clava espinhosa, brilhando, carregada de magia.
Eu havia escapado por pouco do ataque graças aos avisos de meus companheiros, mas diretamente conectado a clava, uma enorme criatura humanoide coberta de tufos de penas negras e pequenas asas que cresciam aleatoriamente em seu corpo.
— Inquestionavelmente obediente e incomparavelmente poderoso... — a voz no rádio explicou enquanto eu tentava fazer sentido da aberração à minha frente, vinda de uma porta que abriu-se às minhas costas ao mesmo tempo que as persianas, aparentes distrações.
— Lhe apresento nosso mais novo protótipo: Rapinus 2.0!
Um dos braços da criatura terminava na clava, claramente envolta em aura, como um marechal faria. E o outro, num dos artefatos-armas giratórias de antes.
— Um marechal e um artífice ao mesmo tempo?!
— Ajude... me...! — ouvi uma voz humana vinda do interior da criatura, mas não tive tempo de me espantar ainda mais, uma vez que o monstro disparou centenas de feitiços em minha direção com a arma embutida em seu braço esquerdo.
Me esquivei para trás de uma série de altos gabinetes cheios de agulhas e luzes que mediam uma série de informações diferentes, mas não ileso.
— Pesadelo...! — uma falha terrível expunha os mecanismos no interior do meu braço e ombro esquerdo; uma complexa série de engrenagens, pistões, encantos e ativadores mágicos.
— WRAAGH! — o monstro facilmente arrancou os pesados gabinetes com um único movimento de sua clava.
Tomando a ofensiva, atirei contra a enorme criatura em rápida sucessão.
— Sem efeito?!
— Muhahaha! O que foi, nunca ouviu falar que vontades maiores não podem ser afetadas por vontades menores? É uma regra básica da magia! — explicou o Primor Gênito enquanto a criatura me perseguia, esmagando o chão com sua clava e triturando as paredes e teto com seus feitiços. — Esse carinha é imune a qualquer feitiço direto! E é mais resistente a danos indiretos do que uma máquina de guerra!
— Seu corpo é especial, é? — perguntei enquanto ainda mais fragmentos de meu corpo artificial eram lascados de mim. — Pois saiba que você não é o único assim aqui! — chutei uma das placas metálicas arrancadas do chão pelo inimigo, e o piso quadrado o atingiu com poder o suficiente para arrancar-lhe um pedaço do peitoral.
— M-Me ajude! Aargh! — a voz do interior da criatura soou mais alta, vindo bem do centro de suas costelas.
— Oh? Você decidiu uma estratégia, então? Por favor, eu faço questão de que você exponha as fraquezas de minha criação para que eu possa melhorá-la ainda mais!
— RAAAAGH! — o monstro, irado, protegeu a si mesmo com os braços e correu a toda velocidade à minha direção.
— Se você sobreviver, é claro!
Me esquivei da criatura no último instante e, quando ela se enterrou parcialmente na parede reforçada da sala de controle, aproveitei do momento para cortar ainda outra fração de seu peito.
Recuei antes de ser achatado por outro golpe de clava, e o processo se repetiu mais meia dúzia de vezes até que finalmente expus a caixa torácica do inimigo com um último painel metálico arremessado contra seu peito.
E em seu interior, imobilizado por uma série de dentes afiados e conectado à abominação por uma série de nervos que cresciam sobre e sob sua pele azul ferida.
— So... corro...!
— Parabéns, você encontrou o segredo do meu protótipo! E? O que você vai fazer quanto a isso?
Atirei contra o homem torturado no interior da abominação, mas meus feitiços tinham um espaço muito pequeno para acertá-lo por entre os vãos das costelas do inimigo, e este último protegia seu núcleo com um membro imune à minha magia.
— Vamos lá! Me mostre o que você pode fazer, autômata! Chame sua mestra logo, me mostre a abominação de vocês!
— Você não cala a boca nunca? — corri contra o inimigo, sem parar de disparar feitiços por um segundo sequer, forçando-o a usar sua arma mágica para proteger seu núcleo.
— RAAAGH! — a criatura brandiu a clava contra mim num arco amplo, e deslizei sobre meus joelhos por debaixo do ataque. — HARGH! — o oponente atacou com o segundo braço, e por sobre este eu pulei, minhas pernas artificiais me atirando mais alto do que qualquer artífice poderia normalmente.
Caí bem sobre o peito do monstro, segurando suas costelas com uma mão, enquanto perfurava o homem no interior do meu oponente com a lâmina serrilhada de meu revólver, matando-o na hora.
Então, senti os braços da abominação se fechando ao meu redor com força aterradora, espalhando rachaduras por sobre toda minha superfície.
— Muhaha! Que pena, isso não era o coração dele nem nada! Se aquele charme vive ou morre, é insignificante! Ele servia apenas para absorver o azar imposto pelos astros sobre minha criação! — a voz no rádio gargalhou sobre os estalidos do meu corpo sucumbindo. — Isso foi divertido, autômata, eu não sabia que o Absoluto-Absoluto podia produzir seu tipo, tão avançado. Mas é o fim. E logo, seus amigos espiões se tornarão protótipos ainda mais avançados, novas unidades para meu exército que cada dia se aproxima mais da perfeição.
— Não, eles não vão — respondi. E puxei o gatilho.
“SPLASH!”, o cadáver humano no interior da abominação explodiu sob uma estrela branca de cinco pontas, produzindo enormes espinhos ósseos e perfurando a criatura de dentro para fora, dos pés à cabeça.
De volta livre, caminhei até o painel de controles.
— E se você chamar minha Mestra de abominação de novo, eu vou te esfolar vivo.
— Você... não é um dos do bastardo, é?
Não desperdicei mais tempo respondendo, mas finquei a lâmina de minha arma no painel de controle, e convenientemente isso desativou o transmissor de voz e imagem e libertou Edgardo e Salessandra de suas macas.
✹
— Obrigado, Machius — Edgardo agradeceu, vestindo sua balaclava. Felizmente, o baú que continha seus objetos confiscados estava logo na sala ao lado.
— Se vocês se sentem realmente gratos, quero que finjam serem meus mestres para que eu possa me juntar à equipe de recuperadores que vai deixar o porto muito em breve.
— Recuperadores? Por que você quer se juntar a esse bando? — Salessandra quis saber.
— Eles prometem me ajudar a cumprir meu objetivo — dei de ombros. — Agora, vamos sair logo daqui. Reforços puristas devem estar a caminho agora mesmo.
Liderei a dupla de artífices através dos corredores do laboratório subterrâneo e até o elevador destruído.
— Cuidado. Os guardas que evitei antes devem estar, agora mesmo, à espera no térreo.
Escalamos o fosso do elevador e confirmamos que o corredor logo acima via-se estranhamente livre de inimigos.
— Talvez eles tenham cercado o prédio? — Salessandra sugeriu, segurando firme seu artefato-arma.
Com cuidado, abrimos a porta para o exterior.
— Mas o quê?! — Edgardo falou por todos nós, surpreso com a carnificina ao lado de fora.
Além dos dois guardas com os quais eu havia lidado, os corpos de quatro outros daqueles que vestiam máscaras de gás estiravam-se pela praça, quebrados e achatados.
— Você... — uma garota avançou, abanando a si mesma com um leque. — É o serviçal de mais cedo. Entendo. Foi por isso que eles me acharam tão rápido — a garota de pele escura como a noite falou, me olhando por cima do próprio nariz. Dois outros serviçais a cercavam; altos, visivelmente construídos exclusivamente para o combate.
— Você conhece ela? — Salessandra resmungou.
— É uma espiã do exército rebelde, acredito — respondi.
— Exército rebelde? — a garota surpreendeu-se. — Ah, então vocês trabalham para a usurpadora — vestiu um sorriso, fechando o leque. — Por sua parte, eu esperava algum tipo de ataque aéreo, um bombardeio talvez. É uma pena que não teremos uma pequena demonstração da arma secreta dos usurpadores dessa vez, mas, bem, fazer o quê?
— Arma secreta? — Salessandra questionou.
— Surpresa? Hooo! Ho! Ho! Oh, sim, nós sabemos tudo sobre seus projetinhos bobos. E não só dos seus, mas dos puristas, e até do Sindicato também. Mas, uma vez que vocês estão aqui, vocês também devem ter ouvido sobre os experimentos do Primor Gênito. Bem, não que isso seja grande coisa. Essa nação obscena, bem como os territórios usurpadores, inevitavelmente cairá nas mãos do herdeiro legítimo não apenas do Patronato, mas de toda a humanidade. Agora, antes que eu acabe com vocês... diga-me, serviçal, como você soube que eu era uma “espiã”?
— ...Neste país se usa “automata”.
— ...Hphm. Compreendo — fechando os olhos, despreocupada, ordenou a seus serviçais: — Matem-nos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário