Capítulo: 31
Os habitantes do acampamento observavam das portas e janelas de suas moradas enquanto todo um esquadrão de guardas corruptos fazia tantos quantos reféns no meio do nosso assentamento. Não eram bandidos comuns, porém, como aqueles que matei aos montes no caminho até ali: alguns seguravam espadas que brilhavam com aura, outros artefatos-armas, e pior ainda, tinham uma máquina bípede, similar a uma ave não-voadora com um canhão no lugar do rosto. Era claramente velha e sucateada, mas era ainda uma mortal máquina de guerra. Eram a elite de seu bando.
— Não é preciso gritar mais — deixei o campo no qual trabalhava, limpando as mãos na calça do meu macacão. — Eu estou aqui. O que foi?
— Ha! Ele ainda pergunta — os bandidos riram. — Parece que você continua sendo o idiota de sempre. Tem merda na cabeça, é?! Estou aqui para fazê-lo pagar por ter se metido com a gente!
— Tá bom — estiquei o corpo, tirando a areia das juntas. — Como quer fazer? Um duelo com sua honra em jogo? Todos contra um? Amarrar minhas mãos e pés antes do combate?
— Hahaha! Não, seu pesadelo ambulante, eu passei muitas noites em claro pensando na punição ideal para o metido a conquistador que você é.
— Eu não sou um-
— CALADO! Vamos fazer o seguinte, e eu não quero ouvir reclamações, ou vamos matar todos esses produtos que você tentou roubar de nós — pressionou sua faca contra a garganta de uma mulher; lembrei que a vi presa numa das gaiolas no covil dos bandidos antes. — Eu sei muito bem que seu corpo sem pau-
— Ah, ele tem pau sim — Salessandra interrompeu com um meio sorriso.
— É claro que o Mestre tem, e é o maior de todos! Hoo! Hoho! — Felicita abanou-se com seu leque. — Espera aí, como é que você sabe disso?
— Por que você não pergunta para seu mestre? Tenho certeza que-
— Salessandra, por favor! — Ed chamou a atenção da amiga. — Não precisa fazê-lo reviver isso também.
— Ué, por que não? Ele não passou tantas estações a carregando até aqui? É claro que ele a amava!
— E ele não a visitou desde então, foi apenas um humano sinal de respeito ressentido, obviamente!
— M-Mestre, do que eles estão falando? — Felicita puxou a manga da minha camisa, chorosa. — Você não está me traindo, não é?
O trio fez o que ninguém mais havia feito em tantos anos, me machucou: me deram dor de cabeça.
— NÃO ME IGNOREM, SEUS PALHAÇOS!!! — urrou Basko, cuspindo mais que falando. — ...Como eu disse, eu sei bem como te machucar, seu pesadelo de quitina. Vamos fazer o seguinte! — gritou apontando a lâmina para todos os habitantes. — Cada um dos seguidores do Machius vai ter que enfrentar um de MEUS seguidores, e vai ser uma luta até a morte!
À minha esquerda, Ed, Salessandra e Felicita. À minha direita, Versus, Fraderico, Manuelo.
— ...Tem certeza de que não quer só enfrentar a mim? — perguntei, quase com pena.
— Hahahaha! Agora eu te peguei, não é?! Todos aqueles manda-chuvas idiotas se mordendo, pensando em como te encurralar, mas eu te peguei de jeito! — o líder dos invasores gargalhou, acompanhado pelos subordinados. — Ah, eu falo super sério! Eu sei que você ficou um pouquinho forte, mas ninguém pode treinar o próprio coração, e quando o seu estiver em pedaços por ter visto seus preciosos seguidores mortos aos seus pés... Vou te levar direto para o Patrono Absoluto-Absoluto e receber seu perdão! — não parecia que eu podia convencê-lo do oposto. — Então, vejamos, quem vai ser o primeiro a morrer? Hmm... Por que não o velhinho ali?
— Hmph! — Versus bufou. — Que seja, vamos terminar logo com isso para que eu possa voltar aos m-m-meus estudos.
— Parece que arrogância é uma das matérias que Machius ensina... Você! Faça esse velho geriátrico sofrer — Bascko mandou um de seus subordinados.
— Pwahaha! É para já, chefe — o homem avançou, usando de um controle rudimentar de vontade, tal qual um provedor a julgar pelas roupas de couro apertadas, para ativar um enorme artefato, uma motoserra.
— Versus — chamei o mestre de minha antiga Mestra. — Não assuste as crianças.
— Hmph! Não me compare com sua geração de m-m-mal educados, por favor — respondeu. — Não, eu já disse que não devemos fazer isso! Sim, sim, mas- — continou, então respondendo às vozes de sua cabeça.
— Chega de papo! Lutem! — ordenou Basko.
— Pwaaaah!! — o primeiro bandido desafiante avançou contra Versus.
— Bah, fique quieto e se torne algo útil — o velho artífice bateu o cajado no chão, e uma estrela de sete pontas envolveu o atacante. No instante seguinte, inúmeras flores brotaram sobre toda a pele do invasor, suas raízes crescendo até seu núcleo, se alimentando de todos os nutrientes de seu corpo.
— Isso é bom o suficiente para você? — Versus retornou à sua casa, tentando esconder o meio sorriso.
No instante seguinte, e bem quando os leigos presentes admiravam o jardim vivo, uma brisa soprou todas as flores para longe, revelando um cadáver seco e perfurado por milhares de raízes.
— O-O que...? — o invasor-líder sussurrou por baixo dos gritos dos reféns assustados. — Tch! O coitado deu azar, escolheu logo o chefão de cara — comentou como se não tivesse sido ele mesmo quem escolheu o oponente de seu subordinado. — Você aí, horrorosa! Adiante, és a próxima!
— Esse cara! Pft! — Salessandra cuspiu, veias pulsando visíveis em sua testa.
— E... Você aí! Faça compensar pela vergonha da primeira luta — apontou um artífice clandestino, um careca sem camisa e de olheiras inchadas.
— Será um prazer... fazer uma artífice da Sindicato... pagar caro... por caçar o meu tipo — comentou, passando uma lâmina sobre o próprio peito coberto de cicatrizes com uma mão, e com a outra apontando um revólver a Salessandra.
— Ha! É isso que eu gosto de ouvir. COMECEM!
“Bang”, o artífice clandestino atirou uma bola de fogo do tamanho de um punho contra minha amiga, que se desviou facilmente.
“BANG!”, respondeu Salessandra com seu próprio feitiço, revelando sua arma ancestral.
— Gwah...?! — o oponente arregalou os olhos, engasgando no próprio sangue. Sua vida vazava rápido demais de uma fenda no peito.
— Hyaah! — Basko tremeu, encarando as espadas fincadas aos seus pés. — S-S-Se vocês tentarem algo engraçadinho, eu juro que vamos matar todos os reféns!!
— Ah, não precisa se preocupar com isso. Na verdade, estou começando a gostar do seu joguinho — Salessandra sorriu, apontando o enorme rifle ao invasor líder. — Vamos lá, escolha os próximos participantes!
— Pesadelo...! Ele! O pirralho ali! — apontou para Manuelo, a criança ex-pirata. Exibia um sorriso de quem se achava esperto quando escolheu seu combatente: — Contra meu amigo aqui.
— Kuhuhu — um homem duas vezes mais alto que o mais alto de nós, e muito mais forte, pisou à frente; provavelmente algum descendente bastardo perdido dos primeiros homens. — Eu vou te achatar, enrolar seu corpo num charuto, e te fumar todinho! — ameaçou (eu acho?), enqunato batendo o próprio porrete na própria mão.
— Eh?! E-Eu?! — Manuelo encarou o oponente, depois a mim, com os joelhos tremendo. — Gulp! — engoliu em seco.
— Aah, não é justo! Todo mundo está tendo uma oportunidade de se exibir, menos eu! — Felicita pisou forte no chão, se abanado rapidamente.
— Você fala como se eu quisesse encarar aquele brutamontes!
— Já deram as despedidas? Haha. Vamos começar a diversão logo — o invasor-líder apressou.
— Não se preocupe, Manuelo. Lembre-se do que eu te ensinei, e você ficará bem — Ed acalmou o garoto.
— COMEÇEM!
— RAAARGH! — o gigante baixou seu porrete contra o ex-pirata.
— A-Aaah! — Manuelo copiou, brandindo o próprio porrete, de olhos fechados.
Sua arma, porém, via-se envolta por uma fina camada de estrelas cintilantes, aura, e quando tocou o porrete de seu oponente, o explodiu num milhão de farpas que voaram direto contra a cara do gigante.
— Gyaaah!! — o gigante cambaleou para trás, seu rosto parecendo as costas de um porco-espinho, sangrando incessantemente.
— Eu... Eu venci? — Manuela mal podia acreditar no próprio feito. —Professor Ed, eu venci! Deu certo!
— Tch! — Basko estalou a língua antes de apunhalar o próprio subordinado pelas costas. — ...Sua vitória. De novo. A seguir, o cegueta ali — selecionou Fraderico. — Contra esses dois — chamou um espadachim e um artífice clandestino.
— Dois contra um? Isso não me parece muito justo — comentei.
— Não se deixe enganar, seu... brinquedo... quebrado.
— Uma ofensa sem criatividade ou impacto, 0/10.
— CALE-SE! Sou eu quem tem os reféns aqui, eu quem faço as regras! E estou dizendo: dois contra um!
— Está tudo bem, chefe — o ex-monasta seguiu adiante. — Já estava na hora de eu mostrar que aprendi mais do que apenas massagear o pé dos outros no Monastério.
— Matem-no!
A luta foi rápida. Ou melhor, mal começou: assim que Basko deu o sinal, seus homens soltaram suas armas, tropeçaram sobre os próprios pés e espatifaram-se no chão, vomitando e segurando as próprias cabeças, quando Fraderico vagarosamente aproximou-se de cada um e os finalizou com seu próprio punhal.
— A ideia de que clarividência é útil apenas para combater inimigos que não existem mais é... grandemente inapurada — sorriu.
— Pesadelo, pesadelo, pesadelo...! Eu não quero ouvir seu monólogo, seu excomungado arrogante! — Basko mastigava as próprias bochechas, e suas pálpebras tremiam de raiva. — Próximo! Você aí, coisa feia, para frente! — chamou Edgardo.
— Sério? Você não está esquecendo de alguém, não? — Felicita perguntou, suspirando profundamente.
— Haha, não tão rápido... Deixe esse trabuco aí no chão. Nada de armas para vocês dessa vez.
— ...Pois bem — Ed obedeceu, cuidadosamente depositando seu artefato-arma ancestral no chão e seguindo em frente. — E quem devo ter o desprazer de matar?
— Já assumindo vitória, mesmo desarmado. Hmph. Eu vou ter tanto prazer em vê-lo sangrar até a morte, posso até gozar!
— Basko, por favor, pare de tentar criar ofensas criativas... — pedi.
— Cala a boca, cala a boca!!! — apontou a adaga para um grupo de subordinados. — Todos vocês, cerquem o feioso.
— Cinco desafiantes armados contra um único desafiado desarmado? — me incomodei, aquilo já passava dos limites.
— Por favor, Machius. Eu também preciso aparecer um pouco em frente aos jovens — Ed disse, bem-humorado.
— ACABEM COM ELE!
“Bam! Pou! Crack! Splash!”, Ed divergiu, esquivou e retribuiu os ataques dos inimigos com apenas os próprios punhos e pés, fazendo com que os invasores atacassem uns aos outros, ou quebrando-lhes os pescoços.
— Q-Que? Esses golpes... um artífice não deveria ser capaz de mover-se assim!
— Haha, o que eu posso dizer? Obrigado — Ed coçou o próprio pescoço, embaraçado.
— Eu não estava te elogiando, seu pesadelo! — o líder invasor tirou uma goma cor-de-rosa do bolso e pôs-se a mastigá-la, encharcado de suor e com olhos vidrados. — Já chega. Já chega! Quem se importa com abominações deformadas, vagabundos, excomungados e velhos com o pé na cova de qualquer jeito? Está na hora de te machucar de verdade, Machius — vagarosamente, aponto sua lâmina para uma garota um pouco mais nova que eu e sorridente. — Mande sua aprendiz vir aqui.
— E por que não acabamos logo com essa farsa, e eu mesmo luto?
— Haha! Parece que acertei seu nervo em cheio, em? Nada disso, eu quero ela.
— Está tudo bem, Mestre. Eu posso me virar — Felicita se adiantou. — E quem vai ser o coitado da vez?
— Todos nós — respondeu Basko, subindo na máquina de guerra.
Me preparei. No primeiro sinal de que as coisas sairiam dos trilhos, eu faria com que aqueles bandidos se arrependessem de jamais ter conseguido me irritar.
— Eu não aceitaria um desafio menor! — Felicita sorriu, sacando o revólver que já foi meu com uma mão e segurando uma flor vampírica com outra, e conjurou uma linha quase invisível contra um brutamontes com armadura pesada, que imediatamente se colocou no caminho do fogo da máquina de guerra, protegendo minha aprendiz de um intenso jato de chamas enquanto o metal que vestia derretia sobre a própria pele.
Felicita não perdeu tempo em assumir controle de outro inimigo e forçá-lo a atacar seus companheiros. Minha aprendiz podia apenas assumir controle de uma pessoa por vez ainda, mas aquilo era tudo o que ela precisava.
— O quê?!
— Pare!
— E-Estão possuídos!
Ela forçava um bandido a atacar seus aliados apenas uma vez, e todos ao seu redor assumiam o pior. Precisou apenas controlar um inimigo por vez e por apenas alguns segundos para mergulhar quase toda a força inimiga em caos.
— Parem de se matar, seus idiotas! — Basku gritou de dentro da máquina de guerra.
Uma vez que o jato de fogo cessou e o corpo do escudo humano de minha aprendiz caiu ao chão, irreconhecível, a máquina de guerra tentou outra abordagem, aproximando-se rapidamente e erguendo uma pata sobre Felicita, prestes a esmagá-la.
— Huh! — Felicita saltou para longe. Mas não tão longe assim. — Pesadelo — rolou, esquivando do próximo pisão no último segundo, bem quando eu estava prestes a acabar com aquele jogo.
— Hahaha! Isso mesmo, dance para mim! — o invasor líder gargalhou. Até que seus homens passaram a atirarem-se sobre a máquina de guerra e tentar abrir a escotilha sobre essa um a um. — O que vocês estão fazendo agora, seus idiotas?! Se entrarem no meu caminho, considerem-se mortos! — distraiu-se por tempo o suficiente para que Felicita escapasse de vez.
Mas, naquele ponto, o caos que ela havia instigado entre as fileiras inimigas já havia consumido a si mesmo, e os sobreviventes a cercavam com sangue nos olhos.
— Felicita...! — ela não conseguiria. Havia muitos deles, incluindo artífices e marechais clandestinos, e ainda uma máquina de guerra intacta do lado invasor.
Ela não conseguiria. Não com seu nível de poder.
— Não matem-na ainda! Eu quero que Machius veja isso bem — Basko ordenou, cheio de arrogância e crueldade.
— Seus- Bwah! — Felicicita curvou-se, socada no estômago. — Gyah! Ugh! Haah! — grunhiu, levando pontapés de todos os lados.
— É isso- — me precipitei, mas Ed me parou.
— Espere.
— Hahahaha! Então você ainda consegue fazer essa expressão, é? Esse rosto é tão nostálgico, Machius!
— Me solte, Edgardo.
— Não. Ainda não.
— Edgardo, você pode ser meu amigo, mas-! — minhas mãos tremiam, sedentas por sangue.
— Ainda não! Olhe!
— Kugh...! — Felicita trincou os dentes, franzindo rosto bonito coberto de sangue e hematomas. — Como se atrevem...?! — tentando levantar-se, ficou de quatro mesmo sob tantas solas. — Eu sou a porra de um gênio, seus vira-latas patéticos!
— Sua vagabunda arrogante, vamos ver se consegue manter a pose quando eu quebrar seu braço! — um bandido baixou o pé sobre o antebraço de Felicita.
Seu pé parou no meio do caminho, porém.
— N-Não consigo me mover?! — na verdade, nenhum da meia-dúzia deles conseguia.
Felicita levantou-se machucada e exausta, mas sobre os próprios pés. Havia acabado de disparar um feitiço de quatro pontas e assumido controle de todos os seus atacantes simultaneamente.
— Não me subestime!
— Essa é minha frase — disse Basku. — Ou você se esqueceu de que eu ainda tenho uma máquina de guerra!? Se esse é o caso... permita-me lembrá-la!
O invasor-líder preparou-se para disparar contra minha aprendiz, mas seus homens tornados fantoches explodiram uma cratera sob uma das patas da máquina de guerra, desestabilizando-a, desviando seu disparo para os céus.
— Pesadelo! — o invasor-líder reclamou quando seus subordinados escalaram todos de uma vez a máquina de guerra e bateram, cortaram e forçaram a escotilha trancada. — Pesadelo, pesadelo, pesadelo! Que os pesadelos lhes peguem todos vocês! — escutando as trancas velhas do equipamento sucateado lentamente cedendo, finalmente desistiu, guiando sua máquina de guerra para longe do acampamento.
Como se eu fosse permitir aquilo.
Sutilmente manipulando os moluscos que cresciam por todo lado, fiz com que os vermes-tubo enrolassem seus órgãos de filtragem de ar ao redor da máquina de guerra, prendendo-a no lugar.
— N-N-Não, por favor! — Basko implorou conforme os fantoches de Felicita o arrancaram da própria máquina de guerra, lágrimas e catarro escorrendo bochechas abaixo. — E-Eu faço qualquer coisa! Vou ser seu seguidor mais fiel, destruir qualquer um que se atreva a discordar de você! Então, me poupeee!!
— Onde está seu orgulho? Você nem sabe no que eu acredito, e já me promete lealdade cega? — Felicita pisou na cabeça do invasor líder, forçando-o ao chão. — Pois permita-me lhe explicar então: eu acredito que aqueles que controlam os outros são os piores!
— Kagh! M-Me perdoe! — tornou a implorar enquanto sendo pisoteado pela minha aprendiz a cada palavra.
— Eu não terminei ainda, seu vira-latas! Eu acredito que covardes que continuam a lamber a mão que lhes bate são os piores!
— Me desculpe! Gah! Me desculpe!
— E eu acredito que aqueles que machucam o meu Mestre são os piores dos piores!! — Felicita concluiu, e seus fantoches espetaram Basko por todas as direções. — ...Pesadelo — titubeou, mas logo antes dela cair e quanto seus fantoches foram libertos do feitiço, eu a alcancei, tomando-lhe nos braços e finalizando os invasores num instante.
— Isso foi muito descolado, Felicita. Descanse agora.
— Oh.. Hoho. O-Obrigada... Mestre.
Eu levava minha aprendiz para nossa casa, quando ainda outra estranha bloqueou meu caminho.
— Uhm... eu... muito obrigada! — a mulher que havia sido feita de refém pelos invasores prostrou-se de joelhos.
— Muito obrigado! Nossos salvadores! — os vários outros reféns a copiaram.
— Vou garantir uma escolta para levá-los de volta à cidade — eu disse.
— A cidade... — a mulher trocou olhares com os outros libertos. — Não há mais espaço para nós lá. Nossas residências foram confiscadas pelos bandidos, e quando estes foram derrotados, o governo as confiscou. Além disso, há muitos de nós que preferem não reviver as memórias que fizemos lá.
Suspirei.
— Ed, você sabe o que fazer.
Eu não podia mais continuar chamando aquele lugar de “acampamento”, não é? Aceitamos os novos habitantes do vilarejo com nossa máxima hospitalidade.
✹
Duas estações depois, não muito longe do vilarejo...
As engrenagens da guerra, interrompidas pela interferência de um único serviçal, tornavam a mover-se.
Do Sul, um enorme exército de altos soldados mascarados trajando branco marchava em perfeita sincronia.
Do Norte distante, nuvens negras avançavam continente adentro, devorando tudo o que fosse orgânico, do Norte próximo, uma procissão de monastas vendados caminhava enquanto rezando.
Do Oeste, uma multidão de serviçais transportava, dentro de palaquins, tantos quantos garotos e garotas que nunca sofreram.
Do Leste distante, uma massa de penas movia tempestades a cada bater de asas, e do Leste próximo, pés palmados emergiam à praia, achatando assentamentos inteiros a cada passo.
Das nuvens, uma aeronave tão grande quanto uma cidade revelava-se transportando um harpão de material ósseo ainda maior que si mesma.
E do subsolo, uma única figura com asas de borboleta muitas vezes maior que o próprio corpo, avançava...
Todos seguiam na mesma direção.
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