Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 15

Capítulo: 15

A longa e esguia embarcação, construída quase como uma serpente, navegava por entre as altas árvores e raízes que floresciam no oceano azul esverdeado, seu corpo metálico flexível movendo-se em “S”.

Por entre os galhos sobre nossas cabeças, uma miríade de animais semi-aquáticos se alimentava de frutos e folhas ou de uns dos outros; primatas com escamas e barbatanas, cefalopodes com garras afiadas no final de cada tentáculo, peixes com pernas, e muito mais.

— É bonito, não? — apoiado no parapeito, tentei guiar a conversa.

— Por que você me salvou? — a garota ignorou minha tentativa de controlar o assunto.

— Curiosidade. Aquele feitiço que você usou não foi nenhuma ilusão, afinal.

— E você acha mesmo que eu simplesmente revelaria para um usurpador um segredo de Estado como esse?!

— Então você não vai falar? Que pena.

— ...Que pena? É isso?

— É.

A garota abriu a boca e a fechou repetidas vezes, antes de finalmente encontrar as palavras corretas:

— Q-Que absurdo! — Gritou, começando a se abanar com seu leque. — Você é a pessoa mais inconsequente a viver!

— Não acho. Minha antiga Mestra me aceitou como aprendiz por me achar bonitinho, não posso ser mais inconsequente que ela — dei de ombros, deixando a vista para além do parapeito e a garota para trás.

Antes que eu alcançasse o alçapão para os quartos, porém, Salessandra me parou com um meio sorriso:

— Então, foi por isso mesmo, huh? — quando levantei uma sobrancelha, continuou: — Ela te treinou por te achar bonito. O beijo. O jeito como você ficou com raiva quando aquele cara chamou ela de abominação... Vocês se amavam, não?

“Crack!”, apertei meu punho esquerdo com tanta força que as rachaduras que o fragilizavam se espalharam ainda mais.

— Salessandra. Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre aquela mulher.

— ...T-Tá bom?

Quando eu me aproximava da escotilha para os andares inferiores, porém, esta abriu de supetão e com força; uma mulher alta, de cabelo vermelho trançado e vestindo um macacão manchado de componentes alquímicos subia ao convés com uma expressão assustadora, a mestra da sala de máquinas.

— Aí está você! — a mulher de macacão apontou. — Pare de vagabundear, e dessa já para sua estação, mulher, você tem maquinário para limpar!

— Você quer que eu faça o quê?! — a garota gritou, torcendo o nariz.

— Que você seja útil pelo menos uma vez na vida — a mestra da sala de máquinas puxou a mão daquela em choque.

— C-Como se atreve?! — suas reclamações foram prontamente ignoradas, e ela foi levada porão abaixo.

— Não vai ajudá-la? Se aquele feitiço era para valer, ela pode fazer um baita dano — Edgardo enrolava uma corda perto de mim. — Digo, foi você quem trouxe ela conosco.

— ...Eu sei, eu sei — suspirei, indo atrás da mestra da sala de máquinas e sua mais nova assistente.

Os próximos dias limpando o chão, apertando parafusos e manejando a pressão de várias máquinas não fizeram nem um pouco bem para meu corpo fragilizado mas, ao menos, não fomos expostos como farsantes.

 

 

O sol nasceu e se pôs mais tantas vezes antes de deixarmos para trás a floresta densa e a proa do navio passar a cortar a igualmente densa vegetação rasteira flutuante, montes de grama e flores que alimentavam e abrigavam uma variedade de lesmas marinhas e peixes-boi.

— Sinceramente, como isso aconteceu com você? — a mestra da sala de máquinas examinava o dano em minha superfície de quitina.

— As estradas estão cheias de bandidos desertores e animais selvagens recentemente — dei de ombros.  — Enfim, você pode consertar isso?

— Sinto muito, mas isso está fora da minha especialidade — a mulher de macacão balançou a cabeça em negativa. — No meu curso, aprendi sobre manutenção, pilotagem e reparo de várias máquinas, mas nenhuma como você. Você precisaria de alguém especializado para isso, não só alguém com uma habilitação genérica como eu. Mas isso vai sair caro. Bastante caro.

— Entendo — praguejei internamente minha má sorte.

— ...Ei, se tudo der certo, seus mestres podem fazer um bom trocado com essa expedição. A depender da sua contribuição, o capitão pode até te fazer um empréstimo para te ajudar com isso. Mas até lá, é melhor você pegar leve, ou pode acabar caindo aos pedaços por inteiro.

— Vou me lembrar disso. Obrigado, Helanice.

Deixando a sala de máquinas, me deparei com a garota cujo vestido bonito se via permanentemente manchado de ingredientes alquímicos e graxa, esperando, exibindo um meio sorriso.

— Onde estão seus mestres agora? Roendo as unhas, ansiosos pela perda do precioso serv- autômata deles?

— Não tenho mestres — passei por ela, em direção à escada que levava ao convés. Antes de fechar a escotilha às minhas costas, perguntei: — onde estão os seus?

 

 

Alcançando a metade do caminho entre a Terra Sadia e a Terra Perdida, a vegetação flutuante se tornou cada vez mais rara, até que nada além de águas mortas e progressivamente mais tempestuosas se encontrava em nosso caminho.

— Blaargh...! — um dos marujos recém-alistados vomitou para fora do convés. — Por que não podemos ir de aeronaves, merda?

— Se aproximar da Terra Perdida de aeronave seria suicídio — Salessandra explicou, depositando uma série de ferramentas num armário e o trancando. — Uma terra azarada o suficiente que extinguiu quase toda forma de vida. O solo, a água, e até o próprio ar tornaram-se impróprios, e cataclismos de todo tipo são tão comuns quanto chuva de algas-bolha durante a estação verde por aqui. Então, navios podem parar a uma distância segura para enviarem seus agentes, mas não aeronaves.

— Mas algo vive lá — o marujo novato apontou. — Você disse que quase toda forma de vida foi extinta. O que são?

— Nossos ancestrais — o capitão respondeu, logo atrás do marujo, fazendo-o saltar na ponta dos pés, assustado. — E é melhor você torcer para nunca encontrá-los. Agora, chega de papo! Nos aproximamos de território de leviatãs, quero todos em-! — um chacoalhar e um baque metálico silenciou-o. — LEVIATÃ! Em seus postos, rápido, rápido! Posição defensiva! — instruiu a seguirmos protocolos ensinados durante a viagem.

Os novatos ainda corriam de um lado para o outro no convés, perdidos e aterrorizados, quando a enorme criatura marinha emergiu à lateral do navio: projetando duas presas de marfim, uma tromba, e um corpo que mesclava peixe e homen, o monstro crescia maior do que nossa própria embarcação e era tão fortificado quanto, vestindo cascos e escamas de outras criaturas marinhas.

— O que estão esperando, cambada?! Fogo! Sangramento é o ponto fraco deles! — o capitão ordenou, sentando-se ao comando de um canhão disposto na proa da embarcação e disparando contra a criatura, amassando sua proteção e tirando sangue das partes menos protegidas.

Desinteressado, o enorme monstro baixou uma mão enluvada sobre o convés, esmagando três marujos e danificando a madeira e metal, fazendo ceder um andar inteiro da estrutura.

— Não o deixem chegar à sala de máquinas! — o capitão gritou, continuando a liderar o contra-ataque.

Todos os marujos no convés juntaram-se ao ataque, parte atirando-se sobre as mãos do monstro, atacando-a com armas de corpo a corpo, parte disparando flechas ou feitiços contra o corpo principal do inimigo. E eu não era exceção, fazendo a armadura orgânica do inimigo restringir-lhe os movimentos e ferir-lhe, meus feitiços diretos grandemente enfraquecidos por algum motivo.

— Pesadelos, essa coisa não sente dor?! Pft! — Salessandra cuspiu, já tendo cravado múltiplas adagas nos vãos da armadura da criatura.

Antes que descobríssemos a resposta para tal pergunta, uma segunda erupção ao lado oposto do navio chamou a atenção.

— D-Dois deles?! — o capitão gaguejou, sem saber para qual apontar o canhão.

A segunda criatura, com ainda mais trombas e segurando um machado cuja lâmina era a hélice de uma embarcação previamente afundada, atacou nosso canhão, destroçando-o com um único golpe e quase finalizando também nosso capitão.

— Hyaaah! — um grito agudo alcançou meus ouvidos a partir da sala de máquinas, então exposta pelo primeiro leviatã.

E lá estava ela, segurando uma varinha que se recusava a disparar. Protegendo a mestra da sala de máquinas atrás do próprio corpo magro, ainda que seus joelhos tremessem, ainda que dois monstros tão grandes quanto o próprio barco que ela tripulava se acercassem.

— O que eu...

Meu corpo se moveu antes que eu murmurasse qualquer outra coisa: saltei à sala de máquinas com força o suficiente para trincar a quitina de minhas pernas e amassar o metal sob meus pés, surgindo frente às duas mulheres em menos que um instante.

— Se torne algo útil, tá bom? — apontei para a mão enluvada que se aproximava, girei o tambor do meu artefato-arma e disparei, uma estrela de sete pontas brilhando como um relâmpago à ponta de meu revólver.

O couro da luva do leviatã regenerou seus velhos nervos, que fundiram-se com a mão do monstro e o levaram a atacar seu companheiro.

O segundo leviatã encarou o primeiro com expressão que, para sua espécie, deveria ser de surpresa, mas a mão possuída do primeiro não esperou por reconciliações e fechou-se sobre o pescoço do segundo.

No segundo seguinte, choveu sangue.

O segundo levitã decepou a mão e antebraço do companheiro. Apenas para que a luva assumisse controle ainda mais profundo do membro decepado, então sem competir com outra consciência, mesclando-se ainda mais e mudando a forma da carne: enrolou-se no pescoço do segundo leviatã como uma serpente constritora.

Infelizmente, aquilo não passava de uma distração, efetiva apenas enquanto os leviatãs falhassem em se coordenar, perplexos. Mas uma oportunidade que eu não deixaria passar em branco.

Procurei por vantagens ao meu redor, algum mecanismo que eu pudesse usar a meu favor; uma forma de triturar os monstros com as hélices do navio ou explodi-los com os barris de bebida. Considerei cuidadosamente os feitiços no tambor de meu revólver mas, na melhor das hipóteses, eu poderia animar uma peça de armadura dos inimigos, e eles dificilmente cairiam no mesmo truque duas vezes. Procurei por falhas na proteção dos monstros, como logo acima do gorjal, no pescoço onde algas cresciam e estrelas-do-mar parasitavam, mas mesmo que essas existissem ou eu pudesse criá-las, sem o canhão, não possuíamos poder de fogo o suficiente para matá-los antes que afundassem o navio.

Durante esses preciosos segundos, porém, uma cena se repetia em minha mente. Não, não uma cena.

— Uma sensação...

Meus feitiços diretos contra os monstros haviam sido menos efetivos do que o desejado, apesar destes não parecerem exatamente com artífices ou marechais habilidosos o suficiente para resistir à magia.

— Cuidado! — a garota gritou atrás de mim uma vez que os leviatãs se recompuseram e me reconheceram como a principal ameaça ali.

Ignorando completamente o membro aleijado que jorrava tanto sangue que os andares inferiores do navio eram rapidamente inundados pelo ichor, o monstro atirou o punho restante contra mim enquanto seu companheiro removia do interior de sua armadura minha criatura que lhe dilacerava o peito.

— Machius! — Edgardo gritou, desesperadamente atirando feitiços explosivos contra os agressores.

— Moleque! — Salessandra me esticou uma mão carregando coletes salva-vidas.

Fraqueza popular, sangramento. Resistência a feitiços e dor anormal. Evolução à sapiência repentina.

— Entendo.

“SPLASH!” o segundo leviatã caiu de volta ao mar, imóvel, ainda que aparentemente sustentando apenas leves lacerações sob o peitoral.

“Bang!”, e com mais um feitiço de sete pontas, então caiu também o segundo monstro, flutuando, placidamente, ao oceano repentinamente silencioso... para os demais apenas. Em minha cabeça, gritava:

— N-Não pode ser?! Para uma criatura asquerosa dessas...?! Aproveite enquanto pode, logo esse astro vai se afogar em sangue! O Flagelo está prestes a se chocar! Nós... vamos... vingá-lo...! Oh... protetor, perdoe... me  — Finalmente, a criaturinha deu seu último suspiro.

— C-Como? — a garota de vestido de renda murmurou às minhas costas. — Não. Por quê?

Por que, de fato? Ou melhor, como eu poderia lhe responder sem criar ainda mais animosidade entre nós logo antes de uma missão de perigo extremo na Terra mais perigosa de Origem?

Pensando rápido (e talvez nem tão inteligentemente), primeiro, sorri.

— ...Porque você é fofa.

Falhei em diminuir a distância entre nós, e pelos próximos dias a garota passou a me evitar ao ponto que se recusava a sequer olhar no meu rosto.

Logo, porém, não havia mais tempo para novas amizades: o cheiro de sal e uma cintilância cegante anunciavam nossa chegada ao Terra Perdida, a terra azarada repleta de tesouros e perigos incomparáveis, tecnologia ancestral.

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