Capítulo: 9
— Rebeldes de dois lados, invasores de um — Salessandra comentou, limpando-se da gosma negra que ainda impregnava sua capa.
— Significa que temos uma rota de fuga! — Edgardo comemorou, fazendo o mesmo que a companheira. Ambos haviam emergido de criaturas voadoras mortas, assim como eu há poucos momentos. — E eles festejam sua vitória, é o momento perfeito para escaparmos.
— E depois o que? — perguntei depois de guardar os pergaminhos em branco, munições vazias, que encontrei no corpo da criatura que me trouxe até ali, e vestir o coldre e revólver de minh aantiga Mestra, que também foram enviados comigo.
Os dois olharam para mim.
— ...Para você, voltar para o Sindicato e ser reconfigurado para aceitar um novo mestre, né? — Salessandra ergueu uma sobrancelha.
— Não.
— Como assim- ah, merda! Ela te ordenou para não aceitar mais mestres, né? — a artífice de cinco pontas estapeou a própria testa. — O que vamos fazer com o pirralho? Serviçais selvagens sempre se tornam um problema — me atirou um olhar de esguelha, cheia de suspeitas.
Comandado a não aceitar novos mestres, tudo o que me restava eram as instruções permanentes de Morrogna e sistemas básicos de autopreservação. Uma miríade de pistões em meu interior acumulou pressão, preparando-se para ação explosiva, se necessário.
— Temos problemas maiores por agora — Edgardo pisou entre eu e Salessandra. — Os rebeldes! Vamos primeiro deixar esse campo de batalha e decidir os detalhes depois. Certo?
— ...Certo — a artífice concordou, suspirando, e eu assenti com a cabeça.
Logo, nós nos pusemos em marcha para longe das forças inimigas o mais rápido possível.
✹
— Então... quem vai ficar de guarda primeiro? — Salessandra perguntou.
E por um minuto, se fez ouvir apenas cacos de vidro sendo esmagados sob nossas botas enquanto caminhávamos sob e sobre a luz das estrelas, refletida centenas de milhões de vezes pelos espelhos quebrados espalhados pelo campo de batalha estéril.
— Eu! — Edgardo levantou uma mão, bem-humorado. — Me sinto cheio de energia desde que deixamos aquele buraco de morte, posso muito bem ficar com o primeiro turno. Vocês dois precisam descansar-
— Eu não vou dormir — eu disse.
— Pensei que serviçais precisassem de tanto sono quanto qualquer um, tendo cérebros de carne e tudo. — Salessandra apertou os olhos. — Por que a desconfiança, pirralho?
— Porque não vou deixar que vocês me-
— Ah, eu entendo, eu entendo! — Edgardo me interrompeu de novo, falando alto. — Todo mundo descansa diferente. E às vezes precisamos processar os acontecimentos do dia estando acordados. De qualquer forma, não há motivos para brigar porque outra pessoa não está a fim de dormir.
— ...Pft! Certo. — Salessandra concordou, cuspindo.
Continuamos a esmagar cacos de vidro noite adentro, caminhando sem parar por muitas mais horas.
✹
Eventualmente, o enorme feitiço de bilhões de pontas, o sol, nasceu e, depois de cerca de dezesseis horas de caminhada, havia mais terra úmida sob nossas botas do que cacos de vidro. Alcançávamos terras vivas mais uma vez.
— Um musgal — Salessandra apontou o bioma não muito distante dali.
— Significa água, comida, e nada de tempestades de vidro! — Edgardo bateu palmas.
— Significa também a presença de monstros, animais selvagens, e todo tipo de veneno e parasita, Ed — Salessandra grunhiu.
Não demorou para que alcançássemos o bioma seguinte e afundássemos nossas botas numa profunda camada de musgo amarelo, fofo e encharcado. Uma espessa camada das plantas cobria todo o chão daquele lugar, interrompidas ocasionalmente apenas por altos cogumelos brancos, amarelos, e vermelhos que ancoravam-se em pedras aqui e ali.
— Cuidado onde pisam. O musgo pode engolir uma bota tanto quanto pode engolir uma pessoa inteira — Salessandra avisou, perfurando o chão à sua frente com a coronha de seu rifle antes de prosseguir.
— Tem experiência com musgais? — Edgardo questionou.
— Já persegui uns piratas que roubaram alguns artigos recuperados por um desses. Pode ser um lugarzinho bem complicado, mas eu posso lidar com quase todos os nossos problemas se ficarmos próximos uns dos outros.
— Quase todos? — repeti, suspeito do que a mulher que não ia com a minha cara queria dizer enquanto me guiava através de um terreno traiçoeiro com o qual somente ela era familiar.
— ...Pois é, os problemas que eu não posso lidar são pequenos — respondeu sem olhar na minha cara.
— Isso é uma coisa boa! — Edgardo comentou. — Nós três somos bem grandes, afinal... Bem, vocês um pouquinho maior do que eu, mas mesmo assim.
— Tamanho não é tudo numa luta de vida ou morte. Coisas como o elemento surpresa são talvez ainda mais importantes... Edgardo, você é esperto em esconder tanto sobre si mesmo, até o próprio rosto, não é?
— Pirralho! — Salessandra finalmente me encarou, me atirando um olhar mal encarado.
— Está tudo bem, está tudo bem — Edgardo balançou uma mão como se espantando as preocupações da companheira. — Essa máscara não é um artigo estratégico, garoto, eu apenas a visto para não deixar os outros desconfortáveis. Eu tive uma má reação durante minha formatura, entende?
— Má reação?
— Pois é. Eu era um marechal antes de me tornar um artífice, mas nunca me senti confortável enquanto caçando os monstros do Limite, ou as esporádicas escaramuças da Supremacia Purista. Infelizmente, o comitê triplo só me fez a cortesia de explicar que os astros não são grandes fãs de quem usa aura e feitiços ao mesmo tempo depois que meu rosto já havia se tornado uma poça ao chão.
De repente, o fato de que Morrogna preferia que Edgardo me ensinasse luta corpo a corpo do que ela mesma fazê-lo fez mais sentido.
— Cuidado! — um berro de Salessandra me trouxe de volta à realidade, porém; a artífice disparava contra uma massa amarela translúcida de tentáculos que caía sobre nós de um dos cogumelos. — Vush, vush, vush! — fez adagas voarem como flechas.
“Splash!”, as armas atravessaram e partiram a criatura gosmenta com facilidade, mas o confronto não havia acabado, uma vez que cada fração pegajosa do monstro que choveu sobre nós passou a se mover independentemente.
— O que é isso?! — Edgardo recuou, tentando estapear a gosma amarela para longe. — Aaai! Queima!
— É um predador limoso-kugh! — roupas e pele eram rápida e igualmente dissolvidas em contato com a criatura. — Mas eles não deveriam ficar tão grandes assim! — explicou Salessandra.
Os fragmentos da criatura espalhados ao chão rapidamente aglomeravam-se e reconstituiam-se ao mesmo tempo que espalhava, suas raízes por sobre todo o chão molhado num campo minado corrosivo, independentemente de quantas vezes Salessandra disparasse contra o fungo.
— Fogo! Precisamos de fogo, ou vamos ser comidos vivos! — Salessandra explicou.
— É para já! — Edgardo empunhou seu lança-granadas e girou o tambor, selecionando o feitiço correto. — Pesadelo! — mas antes que pudesse enfeitiçar o predador limoso, este atirou seus tentáculos bem contra os braços do artífice, impedindo-o de se mover e dissolvendo suas mangas e pulsos.
— Ah, pesadelo! Eu não quero morrer para uma coisa sem cérebro logo depois de deixar aquela trincheira perdida! — Salessandra gritou, lágrimas vindo-lhe aos olhos.
— G-Garoto! — Edgardo chamou, finalmente notando que criatura viscosa não corroía minha superfície de quitina envernizada, e me ignorava. — Nos salve! — pediu, mas eu não deveria seguir ordens de mais ninguém. — P-Por favor! — implorou, mas minha maior prioridade era apenas minha própria autopreservação, e eu bem sabia que a dupla me considerava uma potencial ameaça, uma que talvez devessem lidar posteriormente.
“Bang!”, com um feitiço, removi os componentes que protegiam os tentáculos que prendiam Edgardo dos próprios químicos corrosivos, e este logo consumiu a si mesmo, libertando o artífice.
— Obrigado, Ha! Ha! Ha! — Edgardo atirou um feitiço explosivo na maior concentração de massa da criatura, e um segundo depois fez chover bolor amarelo sobre todos nós. Mas daquela vez, o predador não se regenerou, a maior parte de seu líquido tendo sido evaporada pela explosão.
Confirmando que a criatura havia morrido, os dois artífices presentes me encararam.
— ...Eu fui ordenado a demonstrar empatia — expliquei.
— Ha! Ha! Ha! Empatia! — Edgardo apontou para mim enquanto olhando para a colega que cuspia no chão. — De qualquer, obrigado, garoto. E você, Salessandra... Pensei que os únicos problemas nesse musgal seriam pequenos.
— Eles deveriam ser — a artífice examinou os restos do animal. — A menos que tivessem uma ampla e constante fonte de alimento.
“Grrr!”, roncou meu estômago artificial quando me lembrei dos doces que se tornaram cada vez mais difíceis de obter durante a guerra.
— Ah, falando em alimento, eu estou faminto — Edgardo bateu na própria barriga.
— ...Vamos acampar por aqui por hoje. O cheiro do predador limoso deve afastar qualquer possível ameaça, já que o que essa gosma não pode comer, também não pode comê-la — Salessandra disse, subindo sobre um aglomerado de pedras do qual cresciam grandes e pequenos cogumelos, e retirando pacotes de tempero de seus bolsos.
Pelas próximas horas e sob as instruções de Salessandra, caçamos no musgal por tardígrados-uva como alimento (que ofereciam um pouco de açúcar). A artífice de cabelo raspado também coletou secreções inflamáveis de cogumelos, e ainda outros fungos comestíveis. Jantamos, e naquela noite dormi enquanto os meus companheiros guardavam o acampamento.
✹
No dia seguinte, encontramos exatamente a razão pela qual o predador limoso havia crescido tanto.
— São tantos...! — Edgardo horrorizou-se.
— ...É. Pft! — foi tudo o que Salessandra respondeu, encarando as dezenas de corpos inchados e semidigeridos carregados por um riacho até o musgal. — Já vimos cadáveres o suficiente por anos. Vamos logo.
— Esperem — chamei meus companheiros que partiam. — Olhem: quase todos os mortos vestem uniformes lealistas. Talvez seja melhor avançarmos sob disfarces.
Salessandra e Edgardo trocaram olhares em silêncio antes de me encarar de novo.
— Boa ideia — concordaram em uníssono.
Vestindo simples sobretudos remendados e roupas velhas saqueadas dos mortos, poucas horas depois, alcançamos um assentamento ocupado por rebeldes. E enquanto o observávamos por trás das rochas:
— Vocês, mãos para o alto!
Fomos rendidos por uma dúzia de rebeldes.
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