Capítulo: 20
— Quanto mais tempo até que o motor seja consertado? — perguntei.
— A senhorita Heleanice disse que pode demorar uma hora, ou um dia. Disse que o motor está tão acabado, que parece que um amador tentou repará-lo por si mesmo e fez besteira — minha aprendiz respondeu, trazendo um baú com rodas consigo. — Piratas idiotas, não deveriam se importar com coisas como manutenção.
— ...É — respondi sem encará-la.
— Enfim, aqui está, Mestre: a arma ancestral desespecificada que recuperamos. A chave...
— Está comigo — segurei o segundo dos dois presentes que Versus me deu; uma estranha chave ancestral.
— I-Isso é mesmo necessário? Uma belezinha dessas sozinha vale mais que esse navio inteiro! — o capitão dos recuperadores coçava as duas pontas de seu queixo barbado, ansioso.
— Estão vindo — Salessandra anunciou de repente. — Da Terra. Talvez uns dois mil, atraídos pelo cheiro de sangue.
— Considere seus lucros uma vez que garantirmos nossa sobrevivência, capitão — eu disse, inserindo a chave na maleta e destrancando-a.
— Vou esperar no timão. E alguém, por bons sonhos, vá lá embaixo apressar Heleanice!— o capitão afastou-se.
— Dois mil? Hmph! Nada com que o Mestre não consiga lidar!
— Talvez, mas eu preciso de tempo — comentei, me sentando ao chão do convés. — Preciso refinar o feitiço. A maior parte de seu potencial está sendo desperdiçada como está, e me custa muito mais força de vontade do que deveria.
— Deixa comigo — Salessandra prometeu, olhando através da lente de seu rifle ancestral.
— Eu posso ajudar também — Edgardo subiu as escadas até o convés, carregando sua bazuca.
— Seus feitiços são mais eficazes à média distância, Ed, eles vão se esquivar disso com facilidade, se é que pode alcançà-los daqui — Salessandra retrucou, e com um suspiro, o artífice decidiu ficar à espera.
Minha amiga produziu uma espada num instante com um brilho de seis pontas enquanto eu escrevia todas as instruções, detalhe por detalhe, no pequeno pergaminho que serviria de munição; eu usava uma tinta verde proveniente dos casulos moídos de borboletas lunares, um dos materiais mais comuns capazes de conter a vontade de um indivíduo.
— Machius. Sobre o que eu te falei-
— Está tudo bem. Foi culpa minha. Se concentre apenas em diminuir os números dos monstros.
— Certo! Pft!
Salessandra disparou espada atrás de espada, e estas voaram mais rápido que o vento na direção da nuvem negra que emergia da Terra. Momentos depois, vários pequenos pontos escuros caíram sobre as colinas de seixos multicoloridos; unidades inimigas.
— Quando eles chegarem mais perto-
— Então eu vou contar com você, Ed — interrompi Edgardo.
Salessandra continuou a disparar, de novo e de novo, cada novo feitiço derrubando uma dúzia de monstros, e ainda assim, preocupantemente, quase não afetando a nuvem negra que voava em nossa direção.
— Caelifanos. Vendo-os desse jeito, e no que eles tornaram um terço desta Terra, nem parece que já foram admirados como uma espécie de grandes filósofos e artistas — Edgardo suspirou.
— Huh? Do que o senhor Edgardo está falando? — Felicita quis saber.
— Você sabe sobre todo tipo de armas secretas e operações militares, mas não sobre essa história? — por um momento, o artífice surpreendeu-se. — Não, eu não posso te culpar por sua educação.
Edgardo limpou a garganta antes de continuar:
— Eles eram os habitantes originais dessa Terra. De norte a sul, leste a oeste, suas pequenas vilas, nunca com mais de algumas centenas de indivíduos, prosperavam exuberantemente. Sua arte e costumes influenciaram fortemente os primeiros assentamentos humanos da região; mesmo a palavra “patrono” vem da língua deles, uma vez que seus líderes eram escolhidos entre aqueles que doavam mais para suas comunidades... Bem, considerando que os patronos são, hoje, aqueles que arrecadam mais impostos, talvez “corruptela” seja uma descrição mais adequada.
— V-Vão nos alcançar em seis minutos, mais ou menos — Salessandra apontou por entre suspiros ofegantes.
— E quanto ao motor?! — o capitão quis saber.
— Ainda não está pronto! — um marujo respondeu.
E Edgardo continuou a ensinar, pacientemente:
— Eles nos acolheram bem. Mas nós não retribuímos da mesma forma. Conquistamos suas vilas, moemos seus mantos de madrepérola em cédulas, e derretemos seus ídolos de metal iridescente em moedas. E quando notamos que os Caelifanos não resistiam a nossos atos de violência, os escravizamos em massa.
— Isso é horrível... — os ombros de Felicita caíram.
— É. E nós pagamos caro por isso — continuou o artífice. — Tão ignorantes, desprezamos todos os seus avisos, menosprezamos suas tradições, e os forçamos em enormes exércitos de trabalhadores acorrentados a distância de um braço um do outro. Ativamos seu principal mecanismo de defesa natural.
— O quê?
— Ed! — Salessandra chamou, encharcada de suor e com os braços tremendo.
Os monstros estavam a menos de um quarto de um horizonte de distância, milhares deles.
— Eles mutaram — Edgardo concluiu, apontando sua arma contra os atacantes.
Protegidos por um grosso exoesqueleto marrom, os caelifanos tinham duas longas e poderosas pernas e quatro braços, seus membros cobertos de espinhos, e eles voavam com o auxílio de um par de asas transparentes às costas.
“BUUUM!”, o feitiço explosivo de Edgardo atingiu em cheio a massa de de monstros, esmigalhado por completo dezenas deles, e incendiando e ferindo tantos outros.
— Machius, ainda não? — Salessandra, exausta, se virou para mim.
— Quase. Preciso de mais um minuto — eu não poderia nos tirar daquela furada com um feitiço meia-boca, como fiz com os piratas.
— Você tem trinta segundos! — Edgardo gritou, atirando mais uma vez.
— Mestre!
— Os motores?!
— Machius!
— Ed!
Gritos ansiosos ofuscavam mesmo os estrondos explosivos do combate. E não para menos, daquela distância e enquanto os marujos atiravam flechas contra seus atacantes, todos já podiam muito bem ver as setas de metal falhando em perfurar a carapaça grossa dos caelifanos, e como os monstros mastigavam a madeira e as penas das flechas, suas mandíbulas verticais fazendo dos projéteis uma refeição.
— Felicita — chamei, finalmente me levantando com um pergaminho em mãos.
— Mestre! — minha aprendiz não precisou de mais instrução, abrindo o baú de rodas e me oferecendo seu conteúdo: uma pesada arma ancestral em forma de cruz, a parte inferior suportando um cano e duas lâminas, enquanto os braços na horizontal acomodavam espaços para pergaminhos.
— Vocês fizeram bem em resistirem sozinhos até aqui — comentei, carregando o cartucho no cilindro conectado de um dos braços horizontais. — Permitam-me retribuir o favor — puxei o gatilho, ativando meu primeiro feitiço original otimizado.
E na ponta da cruz, uma estrela de oito pontas brilhou ao mesmo tempo que no corpo sessenta dos monstros. Num piscar de olhos, cada um deles viu-se conectado à minha arma por um fio quase invisível, e eu havia assumido controle de cada um de seus movimentos.
Monstro atirou-se contra monstro, e minhas marionetes focaram-se nas asas dos demais caelifanos, em segundos, quase uma centena de inimigos tendo caído ao mar e afundado rapidamente ao abismo. Dos cerca de dois mil monstros que avançaram em nossa direção, sobravam quinhentos, na pior das hipóteses.
— Todos, para o porão! — gritei. — Ed, leve Salessandra com você.
Não precisei repetir, uma vez que a nuvem de inimigos alcançava nossa posição.
— Felicita, use esse como charme, direcione seu azar para ele — a instruí a fazer como os puristas, fazendo uma de minhas marionetes ajoelhar-se aos pés de minha aprendiz.
— S-Sim, Mestre!
Dezenas de caelifanos pousaram a todo nosso redor, cada um deles ao menos duas vezes mais altos que eu, suas garras e mandíbulas cortando até mesmo aço.
— Uma oportunidade perfeita — brandi minha arma-cruz, e minhas marionetes moveram-se como um tornado ao meu redor, triturando qualquer inimigo que se atrevesse a avançar sobre mim ou minha aprendiz. — Felicita, foque naqueles que estão nos ignorando — mandei que ela matasse os que devoravam a madeira do navio.
— E-Entendido!
A cada movimento que eu fazia com a cruz de metal, dezenas de caelifanos-tornados-marionetes moviam-se; mordiam, arranhavam, socavam e chutavam como o exército mais bem sincronizado da história. Ainda assim, porém, os inimigos eram centenas, e eu controlava dezenas.
Estalidos de carapaças sendo partidas e os grotescos sons de músculos e órgãos internos sendo devorados anunciavam a queda de cada uma de minhas unidades, devoradas pelos próprios companheiros. Por mais que minhas marionetes lutassem até o último suspiro, continuando a atacar mesmo que perdessem braços e pernas, o círculo protetivo ao nosso redor diminuía em diâmetro a cada segundo.
— Hurgh! — estoquei as pontas afiadas de minha arma contra um dos monstros que atravessou minhas defesas, empalando-o na barriga e o mantendo longe, suas mandíbulas batendo como tesouras mecânicas bem à minha frente. — Você acha que passei esse tempo todo refinando meu feitiço só para isso?
Puxei o gatilho uma segunda vez e reconjurei meu feitiço original, quase instantaneamente assumindo o controle de mais dezenas de monstros, que prontamente voltaram-se contra meus atacantes.
Foi preciso conjurar o feitiço ainda uma terceira vez para que eu limpasse o convés dos caelifanos, e quando a batalha finalmente chegou ao fim, meu cérebro pulsava com dor aterradora devido as conjurações em excesso; se eu já não fosse azarado o suficiente aos olhos do universo por ser, essencialmente, um cérebro num pote de porcelana, provavelmente já teria sofrido um AVC.
— E-Está acabado? — o capitão levantou vagarosamente a escotilha para o porão, espiando a carnificina.
Pedaços de centenas de monstros esparramavam-se por sobre todo o convés encharcado de sangue verde, e ripas inteiras de madeira haviam sido devoradas, nenhuma das caixas, barris ou material orgânico que não estivesse firmemente preso havia sido poupado daqueles eternamente famintos.
— Pode apostar! O Mestre é o mais forte de todos! Se querem mesmo pegar ele, têm de mandar um exército muito maior! Ooh! Hoho!
— T-Tipo aquele? — o capitão apontou para trás de mim. E seguindo seu dedo, vi não apenas uma nuvem negra, mas todo o prelúdio de uma tempestade. Não milhares. Milhões.
— M-Mestre...?
— Capitão, é melhor consertarem esse motor de uma vez — implorei.
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