Capítulo: 21
As hélices do navio giravam a toda velocidade, os marujos atiravam todo e qualquer peso desnecessário ao oceano, e assim que recuperávamos força de vontade o suficiente, enfeitiçávamos uma porção dos milhões de perseguidores, mesmo que para atrasá-los apenas um pouco.
Eu genuinamente considerava preservar o cérebro de Felicita e meus amigos num recipiente metálico cheio de álcool comigo, e me atirar às águas com expectativas de, talvez, eventualmente, ser carregado a uma costa segura onde, eu pudesse reconstrui-los como eu, quando uma pesada névoa engoliu a embarcação.
— Coff! Coff, coff! — todos começavam a tossir ao meu redor.
— Para o porão! E vistam os macacões protetores! — o capitão ordenou, fazendo o mesmo. — Machius, assuma o timão!
Obedecendo, assumi o controle do navio em forma de cisne, o guiando para longe de rochas e bancos de areia pela próxima meia hora, mais ou menos.
— Os caelifanos desistiram de nos perseguir — notei.
Pouco depois, saímos do outro lado da densa névoa tóxica, às sombras de um monte escarpado coroado por uma massiva fortaleza em forma de turíbulo, que expelia continuamente a névoa que revelou-se fumaça; uma espécie de cálice dourado e vermelho emitia luz e vapores enquanto uma “tampa” flutuava acima deste, suportada por um enorme balão de ar quente, ambas as partes conectadas por um par de grossas correntes.
— Ei, tem alguém no timão! — gritou uma pessoa de um bote que não percebi se aproximando. Subindo a bordo, o homem vestindo uma armadura feita de carapaça de caelifano apontou: — Serviçal? Huh, faz sentido, eu acho. Você acha que podemos vendê-lo?
— Por que vender? Ele até que é bonitinho, deveríamos mantê-lo no forte — outro soldado de armadura similar seguiu o primeiro. — Enfim, vou dar uma olhada no que esses contrabandistas idiotas tentaram saquear, boa sorte tentando reconfigurar a bonequinha aí — seguiu porão abaixo.
— Me escuta aqui, serviçal, seu mestre está morto. EU sou seu mestre agora, tá me ouvindo?
O segundo guarda abriu a escotilha e logo gritou:
— M-Mas o quê?! Você não vai acreditar, tá todo mundo vivo ainda!
✹
Nos aproximando da fortaleza como prisioneiro suspeito de pirataria, vi o balão de ar quente lentamente descer sobre o “cálice”, tampando-o e cessando o fluxo de fumos tóxicos. Percebi também que tal “tampa” era, na verdade, todo um edifício circular, com centenas de janelas, sacadas e escadas em seu exterior.
— Você acha mesmo que eu vou acreditar nessa baboseira toda?! — um soldado com um capacete composto por várias cabeças de caelifanos urrou. — Para a forca, todos vocês, piratas!
— Oficial Marlobo, talvez estejamos nos precipitando, não? — interrompeu um idoso vestindo manto felpudo ricamente decorado e uma venda que lhe cobria ambos os olhos. Um outro homem de olhos vendados, mas vestindo um traje mais simples, o acompanhava em silêncio. — Ou o oficial já viu piratas com armas ancestrais, serviçais e artífices? Oras, se esse tipo de tripulação terrífica assombrasse nossas águas, tenho certeza que já teria alcançado qualquer que seja seu objetivo terrífico.
— Eu já ouvi rumores, monasta. Sobre uma máquina que vem seduzindo figuras influentes de várias organizações e sabotando-as de dentro para fora — me encarando, Marlobo franziu tanto as sobrancelhas que estas quase se tocaram.
— ...Huh? — foi tudo o que consegui responder.
— Haha! Haha! Um rumor tão absurdo que consegue fazer mesmo um serviçal confuso! — o monasta riu, e o acompanharam os guardas na sala do oficial, mas estes logo calaram-se e empertigaram-se quando seu superior os encarou.
— O monasta sugere algo, então? Ou veio até aqui só para desperdiçar meu tempo e recurso em tempos de guerra? Alguns de nós temos trabalho de verdade para fazer, e já faço mais do que o necessário abrigando pedintes em minha fortaleza.
— Blasfêmia! — o monasta mais jovem gritou, mas seu superior o silenciou com uma mão.
— Permita-me interrogá-los. Se houve algum desfeito de fato, eles são seus, se não, eu mesmo me encarrego de mandar os coitados de volta para casa — uma vez que a carranca do oficial não mudou, o monasta adicionou: — ...E é claro, o monastério se responderia à boa vontade do oficial com gratidão.
— ... Hmph. Me pergunto por quanto mais tempo sua empresa falida pode salvar a própria face. — Reclinando-se na cadeira, gesticulou desinteressado. — Tire o lixo para fora por mim, então.
Deixamos a sala, seguindo o monasta mais velho e seu subordinado.
— Eu sinto muito pelo tratamento severo do encarregado desta fortaleza. Desde que nós finalmente demos bons sonhos às pessoas, elas vêm nos dando as costas cada vez em maior número. Ateus, mais do que nunca, haha! Apenas alguns séculos atrás, ninguém imaginaria tal futuro como algo que não uma piada. — Massageando a própria lombar, apontou para o monasta mais jovem e concluiu: — Fraderico, meu discípulo, vai lhes mostrar seu quarto. Esse idoso aqui precisa descansar um pouco antes de nossa conversa, espero que entendam.
O monasta mais velho partiu, e seu discípulo nos guiou pelo resto do caminho.
— Esses são seus quartos. Estão um pouco cheios de tralhas, já que não recebemos muitos hóspedes por aqui, mas é só bater o pó dos colchões, que devem ser muito mais confortáveis do que as esteiras nas quais vocês vinham dormindo. Ah, só não toquem em nada, eu guardo as ferramentas de massagem do meu mestre. Ah, e também tenho alguns kits de costura por aqui, não mexam nesses também. Ah! E... olha, eu guardo muita coisa importante nesses quartos, então não mexam em nada — disse Fraderico, bem-humorado, parando num corredor ladeado de portas. — E também, o senhor Sebastimão, meu mestre, simplesmente não comete erros quando se tratando de interrogatórios, então podem descansar tranquilos, a menos que sejam piratas de verdade!
Todos olharam de esguelha para uma figura muito menor e mais mal-nutrida que os demais; Manuelo, um jovem pirata com um dente da frente quebrado que havia sobrevivido a toda a confusão de antes porque não havia sido permitido no convés pelo seu capitão, que planejava começar outra festa pouco depois de se livrar dos reféns.
— Nenhum de nós é um pirata — prometi. — Se você precisa de confirmação, eu posso testemunhar sob ordens de minha mestra para que eu não minta — indiquei Felicita com a cabeça.
— Ah, isso seria conveniente. Se estão preparados, por favor, sigam-me, vocês dois.
Sorrindo despreocupado, o discípulo nos guiou até uma sala pequenina, mas ricamente decorada; localizada na borda do prédio em forma de tampa, no lugar da parede havia uma enorme janela curva oferecia visão privilegiada do deserto de seixos multicoloridos adiante.
— Por favor, sentem-se — fizemos como o monasta mais velho, Sebastimão, sugeriu.
— Senhor, gostaria que eu interrogasse os hóspedes? Faz tempos que não tenho a oportunidade de treinar minha clarividência-
— Fraderico, massageie meus pés.
— ...É-É claro, senhor — o discípulo obedeceu a seu mestre.
Felicita limpou a garganta, séria.
— M-Machius, meu... meu... meu serviçal, é preciso oferecer uma prova a este monasta de que sou sua mestra — Felicida disse, entrelaçando os dedos de uma mão com os da outra. — Acaricie minha cabeça e diga que fui boa!
— ...Mestra, esse não me parece um teste apropriado-
— Ah, isso não será necessário — o monasta interrompeu. — Nós, monastas, não somos tão inúteis quanto a maioria das pessoas parece pensar. Tudo o que preciso é ouvir suas respostas a algumas perguntas, certo?
— Oh. Tá bom... — Felicita concordou,seus ombros caindo.
— Perfeito. Poderiam, então, começar me dizendo o que vocês faziam para além do Limite a bordo de um navio já associado à Guilda dos Piratas?
✹
Levamos quase uma hora para recontar tudo o que aconteceu para que acabássemos na situação em que estávamos, deixando de lado, é claro, qualquer evento desnecessário.
— Leviatãs, Perdição, piratas e caelifanos não foram o suficiente para pará-los... Incrível. Realmente incrível — o monasta reclinava-se em sua cadeira, provando uma sobremesa gelada preparada pelo seu discípulo. Apesar disso, suor brotava de sua testa. — Eu não esperava nada menos do Sindicato.
— Perdão? — questionei, confuso quanto à repentina menção.
— Ora, eu consegui surpreender o mais novo Receptáculo? Estou lisonjeado.
— Do que você está falando?
— A arma secreta do Sindicato — Felicita explicou, repentinamente séria. —Você não é um qualquer, é?
— Bah, onde estão meus modos? Portador da Segunda Chave de Conscitia, Sebastimão, ao seu dispor — apresentou-se, assentindo a cabeça com um sorriso.
— U-Um Portador de Chave?! — se Felicia reconhecia o homem e seu título, aquilo só podia significar uma coisa.
— Ele também é um dos idiotas tentando dominar o mundo?
— Idiota?! — Fraderico parou de abanar seu mestre, enraivecido. — Como se atre-
— Haha! Haha! — Sebastimão gargalhou, interrompendo seu discípulo. — Fraderico, cala a boca e prepare um chá gelado. Aquele com fatias de fruta-vingança bem fininhas.
— M-Mas, mestre-!
— Pesadelo, quero que você se açoite trinta vezes hoje à noite para ver se aprende a me obedecer calado!!
— Será que você pode parar de atormentar esse cara e me explicar uma coisa? — Fiquei com pena do discípulo.
— ...Haha. Haha. Claro — Sebastimão concordou, e Fraderico assentiu levemente por trás de seu péssimo mestre. — Esqueça a puinção e só faça logo o que estou mandando.
— Sim, mestre.
Tornando seu rosto vendado para nós mais uma vez, Sebastimão continuou:
— É claro, para uma existência como a sua, talvez eu pareça um idiota ou uma farsa.
— É sobre isso que eu queria saber. Você continua falando como se soubesse tanto sobre mim. Isso já está me dando nos nervos.
— Isso é porque eu sei tanto sobre você, Receptáculo.
— Esse não é meu nome.
— Mas é sua função. Uma existência artificialmente oca, criada a fim de suportar a alma de um astro igualmente artificial.
— Então é verdade...! — Felicita franziu o cenho.
— Oh, sim, é bem verdade, haha! Haha! Nós sabemos de tudo. Das tentativas patéticas do Primor Gênito de criar um exército perfeito, dos planos daquela da irmã do falecido Patrono Absoluto de criar artífices suicidas de destruição em massa por azar, das intenções da Guilda de Piratas de destruir as fortalezas que mantêm os caelifanos longe do território humano, e sim, também sabemos de seus planos de criar um astro artificial.
Então aquela era a forma que os piratas planejavam se tornar reis? Por isso que vinham saqueando recuperadores, apesar dos riscos?
Mesmo assim, aquilo não explicava uma coisa.
— Hmhp! Grandes coisa — Felicita passou a abanar-se com o próprio leque. — Você quer um biscoito por ter descoberto isso? Pois nós também sabemos que você e os outros fracassados portadores de chaves passaram os últimos séculos procurando pela tumba do Santo Frassis e coletando fragmentos de sonhos para sua própria arma secreta.
Sabíamos?
— Bah, nossos agentes de inteligência precisam ouvir uma bronca, pelo jeito — o monasta sorriu. — Irônico, não? Que o Santo mais importante e adorado do Monastério, aquele que extinguiu os pesadelos, também é o responsável pela nossa decadência. Uma vez que uma das maiores ameaças à humanidade foi destruída, os pesadelos, os monstros que assassinavam as mentes das pessoas enquanto elas dormiam, as pessoas pararam de precisar de nós, e por isso perdemos tanto — soava entristecido. — Um erro que não vamos cometer duas vezes. Não, quando os pesadelos retornarem, serão como nossos escravos — sorriu.
— Então, você planeja nos matar antes que eu vire a superarma secreta do Sindicato, é isso? — perguntei, perdendo a paciência e interesse.
— E eu pareço algum tipo de bárbaro para você? Não, não precisam se preocupar com isso. Eu chamei seus colegas do Sindicato para cá horas atrás. Apenas lembrem-se da graça do Monastério da próxima vez que nos encontrarmos, certo?
— ...Que?
Pouco depois, enquanto os marujos eram liberados, eu e meus amigos estávamos todos dentro de uma aeronave a caminho de uma base do Sindicato. A organização da qual desertamos. A organização que tinha como dever a caça e extermínio de artífices clandestinos e traidores.
✹
— Mas que criatura aterradora — comentei, encarando a aeronave do Sindicato deixar a fortaleza. — Tentei invadir sua mente, mexer com sua lealdade ou até causar-lhe morte cerebral súbita, mas minha clarividência equivalente a um feitiço de sete pontas não teve qualquer efeito nele. Se ele consegue conjurar feitiços de oito pontas, só uma outra pessoa que pode se comparar com ele, e o tolo desapareceu... Machius, o Receptáculo, ainda nem está completo e já é tão poderoso! — tremendo, retornei aos meus aposentos.
Não havia escolhas naquela situação; por mais que eu preferisse ter destruído aquele serviçal e esmagado os planos do Sindicato, a menos que os outros três portadores de chaves estivessem comigo ali, o Receptáculo poderia muito bem ter me arruinado junto com o forte inteiro. Meus aliados, posicionados a centenas de horizontes de distância, concordavam comigo, tendo observado a cena toda através de sua própria clarividência.
— Precisamos apressar o desenvolvimento de nossos próprios projetos!
Tomando os equipamentos e notas coletadas ao longo de séculos, deixei a fortaleza e segui para além do Limite ao mesmo tempo que os demais portadores de chaves.
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