Capítulo: 14
Meus companheiros responderam de imediato com adagas voadoras e explosões, mas os serviçais facilmente se esquivaram dos ataques, desembainhando cada um sua própria espada.
— Dois artífices de cinco estrelas e um “autômata” prestes a quebrar. Isso vai ser rápido — a garota murmurou.
— Quem disse?! — Salessandra disparou um feitiço contra a garota, e um dos serviçais imediatamente se pôs no caminho, rebatendo a adaga disparada. — Você pode ter bons guarda-costas, mas já vi melhores desse tipo — sorriu.
“Bang! Bang! Bang!”, Salessandra manteve um dos serviçais ocupado com proteger sua mestra, enquanto Edgardo girou o tambor de seu lança-granadas, selecionando outro feitiço.
O segundo serviçal já quase nos alcançava, e eu me preparava para combate corpo a corpo, por mais que minha estrutura estivesse comprometida e não me restasse força de vontade o suficiente para sequer apenas mais um feitiço, minha mente exausta.
De repente, um estouro logo acima do inimigo: o serviçal recuou e rebateu meia dúzia de pequenas esferas com sua espada, mas ainda viu-se cercado por mais duas dúzias delas. E no instante seguinte, tantas quantas pequenas explosões.
O feitiço atirado por Edgardo consistia-se em várias pequenas cargas explosivas, e enquanto individualmente estas não eram exatamente letais para o serviçal, juntas, racharam, lascaram e quebraram pedaços da superfície de quitina do inimigo, e até danificaram alguns de seus mecanismos interiores; os braços que usou para proteger sua cabeça e cérebro, o núcleo do constructo mágico que era seu ser, penderam, insensíveis, ao seu lado.
— Tch! O que vocês estão esperando! Acabem com eles! — a garota repetiu, tornando a abanar-se com seu leque, suando profusamente apesar da brisa fresca do mar.
Sem vontade própria, o serviçal de braços debilitados saltou em nossa direção.
— Troca! — Salessandra gritou, mudando seu alvo e destruindo o cérebro do atacante com um único feitiço, enquanto Edgardo enfraquecia o segundo serviçal, bem como antes.
Em segundos, a batalha havia acabado. Os serviçais inferiores haviam sido o suficiente para destruir os “protótipos” puristas distraídos mas, sem essa vantagem, não puderam alcançar a vitória uma segunda vez.
— Espere! — Edgardo baixou a ponta do rifle de Salessandra, que preparava-se para acabar também com a mestra dos serviçais derrotados. — Você está em menor número e em território inimigo. Seria inteligente recuar agora, mocinha.
— ...Por quê? Esse é mesmo o ponto — a garota mostrou um sorriso amargo.
— Olha, eu não sei do que você está falando, mas uma coisa que se aprende com o tempo é que você não deve jogar sua vida fora tão fácil assim, não importa a causa. Apenas recue de uma vez, tá bom? — Edgardo insistiu.
E como o esperado, passos pesados de soldados e guardas foram ouvidos se aproximando de todos os lados, reforços inimigos que logo chegariam à praça.
— E o que você sabe sobre boas causas, artífice? — a garota franziu o cenho, tirando um artefato-arma de sua manga cheia de babados.
— Uma... varinha? — questionei a escolha no mínimo anacrônica; era como se ela trouxesse um estilingue para duelar contra um besteiro, sua arma ancestral apenas um pouco melhor que ativar um feitiço sem artefato algum.
— Eu vou te mostrar o que é uma boa causa... e magia de verdade! — a garota ergueu a varinha sobre a própria cabeça, e uma enorme estrela de onze pontas iluminou a praça inteira.
— O-Onze pontas?! — a balaclava que escondia o rosto de Edgardo imediatamente viu-se encharcada de suor.
— Não, esse não é o maior problema aqui... — sussurrei, procurando qualquer sinal que pudesse me contradizer.
— Eu tenho que matá-la antes que ela exploda essa praça inteira! — Salessandra apontou o rifle para a garota mais uma vez, mas então fui eu quem a impedi; me coloquei entre ela e seu alvo, correndo em direção à garota. — Machius, o que você está fazendo?!
Ao redor da garota, bichinhos de pelúcia surgiam em estouros luminosos e brincavam com jogos de chá ou carrosséis ou ainda outros brinquedos que apareciam por todo lado da mesma maneira.
— Seu tolo! — A garota gritou, rangendo os dentes. — Como se atreve a se aproximar de uma artífice de onze pon- Gwah?! — antes que ela concluísse sua frase ou seu feitiço, soquei-a no estômago, nocauteando-a instantaneamente.
E bem a tempo: raios e trovões iluminavam o céu noturno repentinamente enfurecido.
— Eh? Era um blefe? Uma ilusão?
Antes que eu pudesse responder Salessandra, soldados puristas inundaram a praça à nossa esquerda.
— Por aqui! — guiei meus companheiros para longe de nossos perseguidores através dos becos e atalhos que havia descoberto naquela tarde, ainda carregando a garota inconsciente.
✹
— Aqui estão meus mestres, posso embarcar agora? — subi a ponte bamba do navio.
— Ei, ei, ei, calma lá. Se esses são seus mestres, quem é a garota? — o capitão de pele listrada quis saber, e eu quase revirei os olhos.
— Minha sobrinha — Edgardo respondeu de pronto. — O pai morreu na guerra, e agora cuido dela.
— Hmph, agora eu sei porque vocês tiveram dificuldades para entrar na cidade — o capitão resmungou, torcendo o nariz para os artífices. — Mesmo assim, eu não posso simplesmente deixar uma pirralha dessas a bordo, essa é uma aventura perigosa, sabe?
— Capitão, por que você acha que o pai dela morreu na guerra? Pois ele era um artífice produtor! Essa garota aí pode ajudar, prometo! E se ela não cumprir para com suas expectativas, bem... — Edgardo trocou olhares com Salessandra. E ambos revelaram estrelas de cinco pontas preparadas para conjurar um feitiço. — Podemos mais do que compensar por ela.
— ...Artífices do seu calibre raramente não são associados com o Sindicato ou a Eugenia — o capitão coçou o próprio queixo, citando o equivalente purista do Sindicato.
Inconvenientemente, gritos dos guardas da cidade soaram naquele mesmo instante, conforme suas forças se aproximavam perigosamente rápido do porto.
Talvez tivéssemos de capturar o navio por nós mesmos, no fim das contas...
— A bordo. Só há mais uma cabine disponível, vocês vão ter de compartilhá-la — por fim, o capitão abriu espaço e nos apressou para o interior da embarcação.
Em vez de o obedecermos cegamente, porém, esperamos logo abaixo da escotilha que levava para as cabines, e ouvimos a conversa que o capitão teve com os guardas poucos minutos depois:
— Você aí! Viu um par de artífices feios, um autômata, e uma garota desacordada? — um guarda perguntou.
— Primeiramente, você vai se referir a mim como capitão, soldado. Segundamente, não. Não vi pesadelo nenhum. Agora pare de desperdiçar meu tempo, pois é hora de zarpar.
— Cuidado com a boca, lixeiro. Ou talvez eu devesse investigar sua embarcação por contrabando? Você sabe qual a pena por isso?
— E você, guardinha, sabe qual a pena por traição?
— Que? Ah! I-Isso!
— Isso mesmo. Agora, vaza já daqui, seu cachorro feio e imundo!
— Sim... capitão.
Uma vez que ouvimos os passos do guarda se afastando e os motores do navio ligando, a embarcação rapidamente se afastou do porto e suspiramos em uníssono, aliviados.
Então, só teríamos de nos preocupar com monstros marinhos e, eventualmente, o berço azarado da humanidade tornado completamente inóspito, a Terra Perdida.
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