Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 19

Capítulo: 19

Piratas berravam, saltando de motos aquáticas em formato de peixe a bordo do nosso navio, onde marujos resistiam com sabres e bestas.

“BUUUM!”, um feitiço de Edgardo derrubou uma árvore inteira às águas, junto de uma única moto aquática.

— Tem muitos deles, e são ligeiros demais para acertar com todas essas árvores no caminho! — o artífice mascarado reclamou.

— Não temos escolha. Espere que embarquem, e usem apenas feitiços fracos ou ataques corpo a corpo — instruí, saltando à luta.

Minha lâmina serrilhada mordeu um, dois, três piratas antes que o quarto notasse minha aproximação e brandisse seu facão.

“Cling!”, faíscas voaram quando metal chocou-se contra metal. Mas não foram lâminas que tocaram-se.

— Guah...?! — os olhos do pirata arregalaram-se quando puxei minha lâmina para fora de seu peito; seu próprio facão tendo sido parado pelo dourado de meu braço.

— Hyaaah! — Felicita avançou contra um invasor, de olhos fechados.

Seria morta se eu não tivesse enfeitiçado o homem, paralisando-o, mas eu o fiz, e minha aprendiz derramou o primeiro sangue.

— Bom trabalho — elogiei Felicita, quem encarava, ofegante, o cadáver aos seus pés.

— Morram, morram, morram! — Salessandra empalava dois piratas ao mesmo tempo com um rosnado à boca.

— Para fora! — Edgardo chutava, socava, e empurrava invasores para fora do navio com apenas os próprios punhos e pés.

— Estamos quase lá, marujos! Os recuperadores vão comer bem nesta noite! Na conta do capitão! — o capitão levantou a moral de sua tripulação, atirando flechas do tombadilho.

Era evidente que, apesar das táticas ardilosas dos piratas, virávamos o jogo. Até que nosso navio serpentino moveu-se ao redor de uma última árvore e direto para frente do canhão de um navio pirata à espera, uma embarcação em forma de cisne.

— Ai, pesadelo... — Salessandra reclamou.

— Para trás de mim! — ordenei.

Então, escuridão.

 

 

— ...Ei... Ei! — abri os olhos com um homem de barba mal feita e topete oleoso estapeando minha face. — Ai, ai, ai! Que rosto duro... Ei, autômata. Eu sou seu novo mestre agora, ouviu?

Silêncio.

— É-É como ele diz — Salessandra comentou, esfregando o próprio pescoço apenas um pouco atrás do homem. — Machius, eu estou transferindo minha pose sobre você para o capitão Jacódrik.

— ...Tá bom?

— Que resposta mais brochante. Tem certeza de que você fez isso certo? — Jacódrik olhou para Salessandra com uma sobrancelha erguida.

— Não há dúvidas! Ele é todo seu agora! Então... todos vão ser libertos, não é?

— Hmm... Ei, autômata. Quebre seu dedo mindinho.

— Jacódrik!

— Esse é o único meio de ter certeza de que você não está me passando a perna, gata.

Quase revirei os olhos e suspirei, mas obedeci o líder pirata, deslocando meu dedo mindinho esquerdo. Não era como se eu sentisse dor, mas ainda era um saco que já sofria danos logo após reparar minha carcaça.

— Incrível! Agora essa máquina de matar está sob meu comando!

— É, é. E então?

— É claro, gata, os seus amigos vão ser despejados na próxima parada! — Jacódrik envolveu o pescoço da artífice com um braço. — Agora... por que não comemoramos esse acordo com o resto da tripulação? Parceira — guiou Salessandra para longe, a artífice sem me atirar um olhar sequer. — Ah, e você, autômata, pode ficar de guarda por aqui. Sua presença vai botar mais medo nos reféns do que qualquer um dos meus homens. Afinal, eles conhecem sua força.

Deixado sozinho numa sala úmida e cheia de garrafas de bebida vazias, decidi explorar o lugar e descobrir o que eu estava perdendo desde o ataque pirata. O lado bom era que a liga metálica dourada que preenchia minhas rachaduras rapidamente reparou meu dedo quebrado.

Quando saí da sala, esta se trancou sozinha. E já na primeira outra porta que abri, me deparei com uma série de celas metálicas, nas quais os recuperadores estavam encarcerados.

— Pesadelo. Eles conseguiram o autômata... — a mestra da sala de máquinas suspirou, desanimada.

— Meu navio... meus tesouros...! — o capitão segurava a própria cabeça, como se suas mãos fossem as únicas coisas mantendo ela ainda sobre seus ombros.

— Machius! — Edgardo tentou me alcançar por entre as grades.

— O que está acontecendo? — perguntei ao meu companheiro.

— Você conseguiu proteger a todos com uma parede de carne, mas o navio afundou e fomos capturados. Tentei te ajudar, mas você afundou rápido demais, era pesado demais.

— Deve ser por isso que desmaiei; água deve ter preenchido totalmente minha carcaça e atrapalhado os circuitos mágicos.

— Felizmente, você ficou preso numas raízes. Infelizmente, fomos todos capturados.

— E quanto a Salessandra?

— O líder dos piratas parece ter se interessado por ela, e ela... está usando isso para sua vantagem.

— Eu vou matá-lo — tentei partir, mas Edgardo me impediu, segurando meu pulso.

— Espera! Você é forte, Machius, mas também era sua Mestra. Eles são muitos e estão armados com as armas ancestrais que recuperamos. Sozinho, não podes fazer nada. Pesadelo, mesmo se Salessandra e eu ainda tivéssemos nossos artefatos e nos juntássemos à batalha, não conseguiríamos virar a mesa, não sem afundar esse navio, e com ele todos os reféns.

— ...Reféns. Onde está Felicita?

— O líder dos piratas prendeu ela numa sala separada. Talvez ele acredite que ela é de uma família rica e queira cobrar um resgate, não sei.

— Ei! — chamou uma terceira voz. — Tire já suas mãos sujas do animal de estimação do capitão, seu imundo! — um garoto com um dente da frente faltando e que não deveria ter mais que quinze anos aproximou-se da cela com um porrete em mãos.

— A situação está sob controle — respondi.

— E você, não me retruca, seu cachorro! — o garoto apontou o porrete para mim, rosnando como um vira-latas.

— ...Aviso, agressão verbal detectada. Toda agressão que não vindas do mestre Jacódrik deve ser esmagada impiedosamente — segurando o porrete de madeira do garoto, esfarelei a arma lentamente e com apenas a força de meus próprios dedos.

— Hiiih! D-D-Desculpa! Eu retiro o que disse! Eu retiro!

— ...Desculpas aceitas. Agora, quem é você, garoto?

— Manuelo, pirata! — respondeu com orgulho.

— Você não deveria estar lá em cima, festejando com todo mundo?

— ...O capitão me encarregou de servir o rum. De novo — respondeu, balançando um molho de chaves desanimadamente. — Eu pensei que não teria mais que passar por esse tipo de humilhação quando fugi do mestre carpinteiro...

— Ah, então você é um servo de Jacódrik? Nesse caso, eu posso assumir essa função enquanto você se diverte com todos lá em cima. Eu só preciso que você me explique como é o mapa desta embarcação para que eu não me perca.

— Sério?! — entusiasmado, Manuelo fez exatamente o que eu pedi, antes de subir de novo as escadas ao convés com ambos os braços cheios de rum. — Ei, autômatas são bem úteis! Quando a Guilda e eu finalmente ficarmos ricos, vou querer um também! — disse, desaparecendo do outro lado da escotilha acima.

— Boa, Machius! Eu sabia que podíamos contar com você! — o capitão dos recuperadores parabenizou.

Com o molho de chaves em mãos, deixei a prisão para o descontento dos prisioneiros, que clamavam por liberdade, ignorantes do massacre que sofreriam caso eu cumprisse com seus desejos.

Primeiro encontrei o canhão, o qual fiz questão de sabotar. Depois, a sala de máquinas, onde abri o painel que controlava os motores, revelando uma série de engrenagens, catracas e pistões conectados a centenas de ativadores mágicos, os quais fiz questão de destruir. Por fim-

— O que você pensa que está fazendo? — uma voz feminina às minhas costas me interrompeu.

— Nos salvando dos piratas. O que mais poderia ser, Salessandra?

— Eu sabia que você estava aprontando algo quando vi o moleque de volta à festa... — a artífice massageou a glabela. — Eu já nos salvei deles. A situação já foi resolvida, os reféns vão ser soltos numa praia logo, logo, e eu já preparei um plano para que você possa fugir também. Você não precisa fazer nada além de esperar antes de voltar à sua missão.

— “Os reféns”, “você”... Pelo jeito que você fala, parece até que você não vai vir conosco.

— Eu não vou.

— ...Uh? Por quê?

— Você ainda pergunta? — a artífice franziu o cenho, cruzando dois braços. — Não é você quem vive falando que não precisamos te seguir, que somos livres para partir a qualquer momento? Não foi você quem disse que, uma vez que atracássemos, o que eu ou Edgardo fizéssemos não lhe interessava? Pois eu já descobri como “cumprir a minha missão”, Machius! E é ficando aqui.

Minha mandíbula travou-se e as cordas vocais artificiais em minha garganta incompetentemente se mostravam incapazes de pronunciar uma única palavra.

— ...Não faça nenhuma besteira. Arrume isso e volte ao seu posto. Eu vou voltar para a festa. Os marujos desse navio estão doidos para ouvir mais sobre mim — Salessandra disse, me dando as costas e partindo.

 

 

Eu havia reparado o motor o melhor que pude, e a menos que tentassem usá-lo a toda velocidade, não deveria mostrar grandes problemas.

Dias depois, à minha frente, uma praia de seixos multicoloridos que se estendia até onde os olhos podiam ver. E às minhas costas, os marujos capturados pelos piratas.

— Como sua representante vem colaborando tão graciosamente com nossa causa, alegrem-se, pois hoje vocês serão libertos! — Jacódrik anunciou, exibindo uma arma ancestral à cintura.

Enquanto o líder dos piratas continuava seu discurso, eu preparava o bote a remo que levaria os reféns à segurança.

— Salessandra — chamei a artífice que supervisionava a operação. — ...Você é livre para seguir na direção que quiser, quando quiser — Salessandra franziu o cenho. Eu sorri. — Mas eu me diverti enquanto seguíamos juntos. Você foi uma boa amiga, e nunca vou me esquecer do tempo que passamos juntos. Eu fico feliz que você tenha descoberto como cumprir sua missão e... espero que um dia possamos nos ver de novo.

— Machius... — a artífice, minha amiga, vacilou por um instante. Mas já era tarde demais, e os piratas forçavam os reféns a bordo do bote a remo.

— Baixem o bote! — ordenou Jacódrik, e assim fomos descidos ao mar.

— Espere. Onde está Felicita? — não a via em lugar algum do bote. — Espere! Falta um refém! — gritei.

— Ja-Jacódrik! — ecoou Salessandra. — A garota do vestido cheio de firulas, onde ela está? Felicita?

— Aah, aquela? Vou ficar para mim. Um homem do meu padrão se cansa fácil dessas marujas banguelas, e geladas. Eu mereço algo mais refinado, especialmente agora que, com essas armas, vou me tornar um rei! Haha!

Risadas. Ondas quebrando no oceano. Gritos de gaivotas.

— Remem — eu disse.

Quando escalei a corda que conectava o bote ao navio, o capitão Jacódrik e meia dúzia mais de piratas já estavam mortos mesmo que não tivessem percebido isso ainda, estupidamente encarando os novos buracos que seus corpos receberam.

— M-Motim! — gritou outro pirata, apontando um artefato-arma ancestral à Salessandra, que havia acabado de se voltar contra os tripulantes daquele navio.

Não conseguiu disparar, minhas unhas metálicas perfurando seu coração, depois seu corpo sendo usado como escudo contra uma espada ancestral cujo potencial não podia ser alcançado por completo por alguém sem treinamento; seu empunhador foi prontamente empalado por Salessandra, e tomei-lhe a espada.

“Vush! Swush! Zash!”, uma mão, um escalpo e uma cabeça rolaram antes que eu precisasse atirar a espada contra outro artífice pirata.

O próximo disparo de Salessandra derrubou ainda mais outra dúzia de piratas, e com minhas armas roubadas e unhas, matei mais tantos outros. Mas havia simplesmente muitos deles, estavam muito bem equipados, e o elemento da surpresa se esvaía rapidamente.

— Não é preciso ter piedade desse tipo! — Edgardo, subindo a bordo, roubou um simples artefato-arma e se juntou à luta.

Sangue de foras da lei lavou o convés e tingiu o oceano, mas nosso próprio sangue, aos poucos, se juntava aos deles; a luta durou apenas alguns poucos segundos até que nos vimos cercados, com poderosas armas ancestrais sendo apontadas a nós de cada direção.

— Pesadelo, vamos te matar devagar! — gritou um pirata.

— Vamos arrancar sua pele e deixar as gaivotas te comerem vivos! — gritou outro.

— Vamos quebrar todos os seus ossos e transformá-los em banheiros vivos! — gritou um terceiro.

As promessas de execuções e torturas das mais exóticas e cruéis ecoaram pelo convés, mas sem sequer o revólver de minha Mestra, não havia nada que eu pudesse fazer contra aquilo. Talvez, ao menos, garantir uma morte rápida a meus amigos.

— Mestre! — uma garota chorou, me encarando por trás de barras de ferro na janela da cabine do capitão.

Suspirei. Quantas vezes eu podia pisar na bola em sequência? Meus amigos sabiam bem das burradas em que se metiam ao viajarmos juntos, mas havia alguém que pensava que eu era o artífice mais forte da Origem. E eu tinha o dever de ao menos tentar alcançar suas expectativas.

Intenção, força de vontade e imaginação convalesceram dentro de mim. Naquele momento, tão natural como respirar, eu sabia exatamente o que queria, e nem os vários anos copiando os feitiços de minha antiga Mestra, nem a impressão deixada em mim pelas armas ancestrais mudaram uma única coisa sequer sobre esse fato. Num instante, criei um feitiço original.

E direto das pontas de meus dedos, que brilharam com estrelas de sete pontas, saltaram uma dezena de cordas tão finas quanto fios de cabelo, cada uma se conectando a um pirata diferente e roubando-lhe a autonomia motora.

No mesmo instante, cada um dos inimigos conectados às linhas voltaram-se contra seus próprios companheiros, disparando, cortando, estocando e enfeitiçando uns aos outros.

— HAARGH! — para minha surpresa, a mestra da sala de máquinas dos recuperadores e outros dos reféns subiram também a bordo, rapidamente saquearam as armas ao chão e juntaram-se ao combate.

— Tomem o navio! Tomem os tesouros! — ordenou o capitão, parando ao meu lado enquanto eu desativava o feitiço, os piratas que controlei já todos mortos. Cansado demais por usar um feitiço pouco familiar, ainda muito mal otimizado, e sem o auxílio de artefatos, eu descansava num joelho. — Tomem a vida desses pesadelos ambulantes!

— P-Por que você voltou? — notando que o jogo rapidamente virava à nosso favor, perguntei ao capitão.

— Alguns de nós sentiam-se gratos demais a você para simplesmente deixá-lo de lado — franziu o cenho, olhando à Terra às suas costas. — Outros perceberam que enfrentar todos esses piratas era muito mais seguro do que pisar naquela praia.

— O que você quer dizer?

— Monstros, Machius. Estamos para lá do Limite, o único lugar em toda a Origem que pode competir com a Terra Perdida pela posição de pior e mais perigosa região. É bom que os motores estejam intactos, porque diferente da Perdição, as coisas daqui vão vir atrás de nós, e se nos alcançarem, não vai restar nem a madeira desse navio.

— ...Oh.

Eu não precisava nem checar para confirmar aquilo: os motores não estavam intactos.

 

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