Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 2

Capítulo: 2

Na manhã seguinte, partimos de carroça até Cordial, uma metrópole regional diretamente conectada com a capital por uma série de metrôs, túneis cavados também pelo Sindicato. E assim, trinta e seis horas de viagem depois, eu subia os últimos degraus do subsolo e pisava numa cidade diferente de tudo que já havia visto.

Milhares de torres tão altas que partiam as nuvens despontavam por todos os lados, multidões de carros, animais e pedestres disputavam espaço nas ruas, e prédios de estética delicada e repletos de simbolismo de aves, remetentes do período colonial, desafiavam as superfícies de um metálico multicolorido e remetentes às carapaças de insetos das construções mais novas da mesma rua.

— U-Uau...

— Vamos lá, você vai ter tempo o suficiente para explorar a capital uma vez que se formar — minha mestra afagou minha cabeça e mostrou o caminho.

A filial do Sindicato na qual eu seria testado não ficava muito longe dali, era uma enorme esfera cinza, sem janelas, erguida para longe do chão por uma série de pilares pontiagudos que formavam uma espécie de caixa torácica abstrata. “Intimidador” não era uma palavra forte o suficiente para descrever o lugar, e minha Mestra me prometeu que a aeronave ancestral da família Absoluta era muitas vezes mais impressionante.

— É difícil de acreditar — comentei, subindo a escadaria esculpida nas vértebras que sustentavam o edifício.

— Se você se sair bem hoje, logo poderás ver por si mesmo, meu fofíssimo aprendiz.

— P-Por favor, não me chame assim em público! — olhei ao redor, mas nenhum dos muitos pálidos artífices de bocas e unhas negras parecia sequer prestar atenção em mim, imersos em seus próprios problemas. — Eles falam de guerra. É por isso também que, se eu for aprovado, vou ver a aeronave ancestral, né? Porque vou lutar na guerra... — parei de caminhar, apertando os punhos. — Mestra, eu- eu não sei se conseguiria machucar outra pessoa.

— ...Está tudo bem. Temos de contribuir em algum nível, mas há outras alternativas além de lutar, como pesquisa ou produção de artefatos — Morrogna estendeu-me uma mão, seus lábios negros curvando-se num sorriso gentil. — E mesmo no pior dos casos, posso mexer uns pauzinhos para que você fique sempre perto de mim. Isso é, se você ainda quiser se tornar um artífice?

— Eu quero! Esse é meu maior sonho! — devolvendo o sorriso, tomei-lhe a mão e a segui até o prédio esférico e seus corredores estéreis de concreto e bronze.

Passamos por uma dúzia de secretários, corredores e escadas até que finalmente pisei numa sala surpreendentemente pequena: atrás de mim minha Mestra guardava a única porta da sala, no meio do cômodo havia uma pequena mesa sobre a qual descansavam três bandejas de cobre, e à minha frente sentavam-se três artífices, cada um sobre o próprio trono alto de ferro. Eram os líderes do Sindicato, o comitê triplo.

— Machius de Macus, aprendiz da artífice procuradora de dez pontas Morrogna de Toquestrela — chamou o artífice ao centro, aquele que vestia uma máscara com oito olhos.

— S-Sim! — eu mentalmente revisava os juramentos e práticas orais típicas da formatura.

— Nós estamos com um pouco de pressa devido às preparações para a guerra, então vamos pular as formalidades dessa vez e aceitar suas ações como demonstração suficiente de fidelidade ao Sindicato e seu comitê Triplo, nós — adicionou o segundo, aquele que vestia uma máscara com uma tromba.

— Oh...

— Agora, aproxime-se da mesa central — obedeci. — À sua frente, há três opções. Revele-as — continuou o terceiro artífice, aquele que vestia um enorme capacete esférico que triplicava o tamanho de sua cabeça.

Debaixo da primeira bandeja, um prato com insetos, debaixo da segunda, um prato com vermes, debaixo da terceira, um prato com um coração de...

— Uh?

— Praticar magia é, em si, um ato arriscado. Cada feitiço gera uma reação adversa ao artífice. Isso se chama azar, e escala com o potencial do feitiço em questão — o primeiro do comitê falou, afrouxando as fivelas de sua máscara.

— Logo, um aprendiz de artífice não pode conjurar feitiços complexos sem autodestruir-se, ou destruir aqueles ao seu redor — o segundo membro do comitê copiou o primeiro.

— São inúteis. Facilmente substituídos por uma besta ou arco e flecha, ou mesmo o mais baixo dos provedores — o terceiro dos líderes do Sindicato fez o mesmo.

E um a um, me revelaram suas faces deformadas: um rosto asquerosamente peludo com quatro vezes mais olhos do que o normal, outro com uma série de tentáculos rosados de carne crescendo no lugar dos olhos e nariz, e o último com uma cabeça muitas vezes inchada e coberta por veias dilatadas.

— Aah... Aah...! — recuei um passo, sentindo minhas pernas tremerem.

— Para se tornar um verdadeiro mestre, é preciso balanço cármico, combater o azar, o ódio das estrelas contra o artífice. É preciso fazer um sacrifício, uma punição auto-infligida a fim de evitar punição astral pelo pecado da criação. É preciso fazer uma escolha — os membros do Comitê completaram as frases uns dos outros. — Torne-se um inseto para juntar-se à Ordem dos Pesquisadores.

— Não... — recuei outro passo, de repente nauseado.

— Então, torne-se um verme para juntar-se à Ordem dos Produtores.

— Não...! — recuei ainda mais, já sentindo o gosto da bile.

— Então, apodreça para juntar-se à Ordem dos Procuradores.

— Não, não, não!

— Então, morra — concluiu o comitê, e ocuparam-se em vestirem suas máscaras de volta.

Assustado, desesperado, enjoado, dei as costas ao trio enquanto distraíam-se e...

— M-Mestra! — vi minha tutora, heroína e primeiro amor, Morrogna, ainda de pé em frente à única porta da sala. E seu sorriso era tão, tão doce. — Mestra, desculpa, eu- — suas mãos, sempre tão delicadas, envolveram meu rosto, e eu soube que tudo ficaria bem.

— Que pena, eu gostava desse — disse ela.

— Que?

E no instante seguinte senti minha pele, carne e vértebras do pescoço serem esticadas ao máximo, vi o mundo girar somente para mim, e vi meu próprio corpo, sem cabeça, caindo longe de mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário