Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 30

Capítulo: 30

— Versus? — quase não acreditei no que via depois do brilho. Terminando de plantar um molusco, me levantei do meu campo, limpando as mãos na calça. — O que você está fazendo aqui? Quando você veio? Como você veio?

— Só precisei vestir uma daquelas roupas de proteção e esperar pelos próximos recuperadores. M-m-me passei por um dos mortos, e como eu trouxe um artefato e fiquei na minha, ninguém me questionou. E para te encontrar, só precisei seguir os boatos — olhou ao redor. — E você, o que está fazendo aqui?

— Plantando — dei de ombros. — Biscoito de musgo-doce vai muito bem com chá de esponja. Quer um pouco?

— ...É, acho que vou aceitar. Foi uma longa jornada.

Guiei o velho artífice até minha casa; uma simples casca oca de tatu-montanha, mas de interior bastante aconchegante para qualquer um que passou muito tempo na estrada.

— Felicita, traga o chá e os biscoitos! — gritei escada acima. — Pode se sentar, por favor. As cadeiras não são as mais confortáveis, mas não têm farpa, prometo.

— Ah, é o velho do Terra Perdida — Felicita entrou na sala de jantar com os pedidos.

— Pesadelos, falta de educação foi ensinada de aprendiz para aprendiz, é?

— Então, finalmente aprendeu o que queria na Terra Perdida, ou apenas se cansou do lugar? Obrigado — aceitei o biscoito e chá enquanto puxando assunto.

Versus bufou, mas provando dos aperitivos, melhorou de humor:

— Eu só decidi que eu poderia continuar m-m-meus estudos em qualquer lugar, e que se esse era o caso, ao menos eu poderia fazê-lo de volta em civilização e em conforto.

— E o que sequer você estudava lá? Não me diga que ficou esse tempo todo fazendo como o Sindicato queria.

— Você pensa que sou submisso assim, é? Não, eu tomei a liberdade de estudar o astro morto que nos orbita, a lua, e a possibilidade de que as estrelas cadentes não foram apenas ataques contra o astro no qual vivemos, Origem, m-m-mas também um meio de transporte... proposital ou não. Tenho bons motivos para acreditar que os leviatãs vieram junto deles, e uma suspeita de que pode ainda haver vida na superfície da lua, por mais que, o que quer que seja, tenha de ser absurdamente poderoso para sobreviver sobre um astro morto.

— Interessante.

— Hphm. Infelizmente, a situação aqui não parece tão m-m-melhor assim.

— A guerra, é? Realmente, uma tragédia.

— E o que você planeja fazer quanto a isso? Pelo que você está esperando?

— Que?

— Por favor, você deixou uma impressão e tanto onde quer que esteve, e eu posso dizer: você é forte.

— Ooh! Hoho! Você pode estar com um pé na cova, mas seus olhos estão muito bons ainda! É isso mesmo, o Mestre é o mais forte! Aqui, outro biscoito!

— Eu não estou com o pé na cova, sua m-m-mal-educada! — Versus gritou, mas aceitou o biscoito. — E não precisei de meus olhos. Assim que o avistei, conjurei um feitiço de efeito direto de sete pontas contra ele que deveria germinar cada esporo e semente em sua superfície e esmagar todo seu corpo de quitina sob toda uma floresta, mas ele o resistiu sem qualquer esforço.

— Q-Que?! Seu- — felicita sacou o revólver de Morrogna, conjurando um feitiço de três pontas.

— Felicita, está tudo bem — suspirei, interrompendo o ataque de minha aprendiz. — Isso não significa que eu planejo fazer qualquer coisa quanto ao que quer que esteja acontecendo, Versus.

— Então o que? Vais apenas ficar cultivando m-m-musgo-doce para biscoitos pelo resto da vida?! Força de vontade é algo vivo que exige propagação, preservação! É uma competição, jovem, e só um pode vencer. E você tem força. Por que não está lá fora, clamando o próprio direito, cravando a própria marca?!

— Eu estive lá fora, Versus. Eu vi o que você viu, falei com quem você falou — terminando o chá, me levantei. — Mas dizem que todas as marcas já foram cravadas lá fora. E talvez estejam certos — voltando ao trabalho no campo, conclui: — Você é bem-vindo aqui por quanto tempo quiser, mas saiba que não temos muita comida. Ou água. Ou camas... para ser bem honesto, não temos quase nada.

Versus suspirou, massageando a glabela.

Ele ficou e ajudou, seu conhecimento incomparável de vida vegetal e cultivos diversos vindo muito a calhar.

 

 

Apenas três semanas depois que Versus se acomodou em nosso retiro, havíamos incorporado uma série de outras plantas ao campo coletivo, sob recomendação do velho artífice exilado; de sementes compradas na cidade, cresciam arbustos roxos que ofereciam sombra aos cogumelos, cresciam flores que se enterravam durante o dia e emergiam do solo, reluzentes, à noite, cresciam também corais de cor laranja que abrigavam formigas que se alimentavam de pragas, e cresciam muito mais coisas.

Havíamos também obtido uma casca de tatu-montanha para que o velho artífice chamasse de lar (no fim das contas, ninguém gostou de dividir o teto com alguém que, frequentemente, engajava em discussões inteiras com as vozes da própria cabeça). Felizmente, uma vez que as forças armadas haviam sido realocadas devido à guerra, havia um excesso daqueles animais enormes... Infelizmente, havia um excesso daqueles animais enormes.

Tremendo o chão com cada passo, o enorme tatu-montanha se afastou como um fantoche.

— É-É você mesmo...! — o garoto com um dente da frente quebrado, caído sobre o próprio traseiro e salvo de ser esmagado pelo animal de antes, me encarou com olhos arregalados.

— Eu te conheço? — o garoto me era familiar, mas eu não conseguia me lembrar de já tê-lo encontrado.

— Sou eu! Manuelo, o seu único aliado daquela vez em que você foi capturado pelos piratas!

— O que, pesadelos, você faz aqui? Meio longe de casa, não?

— Como assim, o que eu faço aqui?! Eu vim por você, é claro!

— ...Huh?

— Desde que nos separamos, eu estive procurando por você, capitão!

— Capitão?

— Você tomou o barco, então, capitão — explicou, limpando a poeira das calças. — E os boatos que ouvi... Você é algo especial, tenho certeza de que o que quer que tenha em mente, é muito melhor do que aqueles piratas cabeças ocas!

— Eu não tenho nada em mente.

— Qual é, não precisa ser tão resguardado comigo, capitão! Haha! Então, qual vai ser? Dominação da Terra Sadia?

— Não.

— Dominação de toda a Origem?!

— Não.

— Ah! D-Dominação de todos os astros do céu?!

— Não! Eu já disse, não tenho nada disso em mente — o garoto banguela me encarou por um longo minuto, paralisado. Sentindo pena pelo jovenzinho que cruzou tamanha distância perseguindo apenas rumores por tanto tempo, adicionei: — Meu foco agora é garantir uma boa colheita, fazer uns trocados e comprar umas cadeiras mais confortáveis para nossas casas.

— ...Por que você não usa a quitina do bicho ali? — Manuelo perguntou, desanimado.

— Pois é, acontece que nenhum de nós aprendeu a construir cadeiras decentes enquanto lutando uma guerra — oferecendo um biscoito de musgo-doce ao garoto, conclui: — Se você pode ajudar com isso, pode ficar conosco enquanto decide o que fazer daqui para frente.

Ele aceitou a proposta. E poucas semanas depois não apenas tínhamos todos boas cadeiras, mas também mesas, escrivaninhas, bancadas de trabalho e mais uma série de móveis decentes, se um pouco tortos em design, a quitina talhada de ponta a ponta com decorações assimétricas.

 

 

“Toc, toc!”

— Sim? — abri a porta de casa numa noite qualquer para receber ninguém menos que... — Quem é?

— Fraderico — o monasta de olhos vendados sorriu, embaraçado. — Lembra? O discípulo do Portador da Segunda Chave de Conscitia, Sebastimão?

— Ah — lembrei. — Eu não vou ajudar vocês em porcaria de plano secreto algum — franzi o cenho.

— Por favor, senhor Toquestrela, não vim até aqui pedir favores — levantou as mãos, se rendendo. — Bem, não em nome do Monastério, ao menos.

— O que foi, então?

— Depois que o senhor nos deixou, o senhor Sebastimão... se precipitou — notei sua carranca mesmo sob a venda. — Não. Ele realmente só fez o de sempre: o que lhe era mais conveniente. Disse que não precisava mais de massagista ou cozinheiro e me dispensou de sua tutela — apertou os punhos. — Depois de dedicar décadas da minha vida a atender cada um dos desejos daquele velho desgraçado, agora eu sou só mais um ninguém?! De volta um mero pajem monástico depois dos trinta anos?! Senhor Machius! Por favor, considere todas as minhas habilidades como as suas! Farei qualquer coisa que o senhor quiser, mas por favor-

— Não — o interrompi. — Eu não posso dominar o mundo como seu antigo mestre quer fazer.

— Haha, por favor, senhor Toquestrela, não é preciso tamanha humildade aqui. Somos ambos inimigos do Monastério agora, não?

Por que ninguém nunca acreditava em mim quando eu dizia que não podia fazer aquilo?!

— Olha, não vou dominar nada só para você esfregar na cara do seu antigo mestre que o seu novo mestre é ainda mais descolado — o monasta de olhos vendados corou,  trincando os dentes. — Eu até te ofereceria um quarto aqui por quanto tempo você precisasse para descobrir o que você quer fazer depois, mas também não precisamos de ninguém para massagear nossos pés, preparar nosso banho, ou algo assim.

— Eu... entendo.

— Vamos, vou te mostrar o quarto de hóspedes — guiei o monasta vendado. — Aqui.

— E a cama?

— Do que está falando? Pensei que vocês pudessem enxergar a pura verdade ou algo assim. Ela está logo ali — apontei.

— Aquela pilha de... musgo seco?

— Ei, um amigo meu disse que esse musgo seco é usado nos melhores estofados, tá bom? — era verdade, Versus me prometeu aquilo.

— Sim, dentro deles, não só... jogado no canto assim.

— Olha, eu já estou te oferecendo isso de bom grado. Se não gostou, arrume por si mesmo. Bons sonhos! — deixei Fraderico sozinho.

Na manhã seguinte, quando fui acordá-lo, o vi dormindo sobre um belo colchão costurado das próprias roupas.

No fim das contas, alguém como ele era muito bem-vindo ao nosso humilde acampamento, afinal.

 

 

— Você pode até ficar... mas só vai ter que respeitar a hierarquia por aqui — um garoto banguela olhava por sobre o próprio nariz para a mais recém-chegada.

— Eu entendo que, como uma mestre de máquinas, você tem valor para nós...  Mas veja bem, não é só sobre valor que estamos falando, entende? É sobre respeito — o ex-monasta que então mantinha apenas um olho vendado analisava as próprias unhas, desinteressado na mulher.

— Mas que pesadelo está acontecendo aqui? — perguntei, assustando os dois.

— C-Capitão!

— N-Nada com que precise se incomodar, chefe! Estávamos apenas entrevistando a recém-chegada, para ter certeza de que ela é digna de-

— Ah, eu lembro de você. A mestre de máquinas do navio dos recuperadores, Heleanice não é?

— Ele lembra?! — o jovem e o trintão ambos ficaram boquiabertos, resmungando ressentidos, comparando o tratamento que eles mesmos receberam com o dela.

— O que faz por aqui?

— Depois que quase morri tantas vezes seguidas, você ainda pergunta?— Levantou uma sobrancelha. Quando não respondi, elaborou, cruzando os braços e franzindo o cenho: — Percebi que não coloco o dinheiro tão acima assim da minha vida ou da dos outros, e resolvi mudar de emprego. Acontece que a Origem inteira está um caos, menos aqui, já que todos parecem assustados demais de um certo serviçal selvagem, cuja descrição soou muito familiar para mim. Satisfeito?

— É — dei de ombros. — Não posso te pagar tão bem quanto os recuperadores... na verdade, não estou pagando ninguém por aqui, e nem há previsão de recompensa, mas sua expertise é bem-vinda, e todos vamos te ajudar com o que for preciso por quanto tempo você quiser ficar — ofereci minha mão.

— E quanto à hierarquia? O respeito?

— São antônimos, e eu prefiro o segundo.

— Hmph, é o que vamos ver — Heleanice apertou minha mão. — Até lá, vou ver o que posso fazer por esse lugar.

 

 

Uma estação depois de nos instalarmos ali, tubos de cobre corriam por sob o chão como raízes, e como raízes irrigavam os campos, além de prover água encanada a cada uma das sete residências, estas cheias de móveis firmes e muito bem estofados, do tipo que custaria caro na cidade, ainda mais em tempos de guerra.

E falando em guerra...

— O que você acha que é? — Salessandra perguntou, olhando para o alto.

— Podem ter vindo coletar impostos, comida, recrutas... — Ed deu de ombros, segurando uma cesta de comida.

— Hmph, boa sorte para eles — esperei que a aeronave triangular e de aparência simples pousasse, apoiando uma enxada no ombro. — Espera aí, essa nave...?

Quando finalmente notei a familiaridade, o piloto e seus três únicos passageiros já saltavam ao chão, no meio do assentamento, observados por todos.

— Ei, se não são os heróis de Contra Corrente! — o piloto sorriu, se aproximando com braços abertos. — Então é daqui que você vai lançar sua campanha? Legal, legal, eu gosto da simplicidade — comentou, tirando o chapéu de vaqueiro em cortesia por um instante.

— Campanha?

— O espadachim da nossa missão disse que vocês faziam parte de algum grupo poderoso — respondeu o calvo que havia se voluntariado para suprimir os “monstros” em Contra Corrente. Apertou a mão da mulher e da criança que o acompanhavam antes de continuar: — Bem, não sei muito sobre seu grupo, mas quando Jaqueliano aqui disse que você se safou até dos peixes grandes, eu entendi que é mais seguro ao seu lado do que do de qualquer outro — explicou, indicando o piloto da aeronave.

— Olha, o que quer que você tenha ouvido sobre mim, tenho certeza, foi grandemente exagerado.

— Que...? E-Eu farei qualquer coisa, mas permita que minha família fique aqui, por favor! — o calvo pareceu ter entendido que eu mentia a fim de expulsá-los.

— Contra Corrente não existe mais — o piloto interviu, balançando a cabeça. — O vulcão na Floresta Negra entrou em erupção, a mata queima há semanas, o ar queima o pulmão, e os rios borbulham.

Olhei para a família de três, visivelmente exausta e desesperada.

— ...Você é cozinheiro, né? Ed vai lhes mostrar as redondezas e explicar tudo — indiquei meu amigo, quem me entregou sua cesta e levou a família tão grata para longe. Enquanto isso, encarei o piloto que esforçava-se para parecer não querer nada. — Quer que façamos uma checagem da sua aeronave? Temos uma mestra de máquinas.

— Nah, só estou um pouco cansado depois de voar por tantas horas só para te trazer um cozinheiro — exageradamente massageando o próprio ombro, adicionou: — E agora que minha cidade está tão cheia de refugiados de Contra Corrente que virou um caos, acho que vou ter que pensar para onde ir depois daqui...

Suspirei.

— Salessandra, arrume uma casca de tatu-montanha para o cozinheiro e sua família, e outra para o piloto.

 

 

Meio ano depois de nos assentarmos, comíamos bem, e com a ajuda do piloto, vendíamos nossa colheita com agilidade e pelo melhor valor. Não nos faltava muito; na verdade, minha qualidade de vida já era superior àquela de quando eu era um mero aldeão sem poderes.

Era uma vida tranquila. Ed parecia satisfeito ensinando os mais jovens a ler, sobre o mundo, e até auto-defesa, Salessandra parecia satisfeita caçando animais por matéria-prima e carne, Felicita evoluiu bastante sob minhas aulas, e eu...

Havia estagnado no mesmo patamar que minha velha Mestra, podendo conjurar até feitiços de dez pontas, sem ter alcançado nenhuma revelação ou epifania, sem ao menos saber se o que eu havia alcançado até ali significava qualquer coisa.

A realidade não esperava por ninguém, porém. E da próxima vez que ela bateu à porta, revelando um rosto do passado, foi o de um fantasma coberto de suor, sujeira e sangue.

— Mostre a porra da cara, Machius! Mostre a cara, ou eu vou arrancar o bucho dessa vadia! — um homem com ar de lunático fazia uma estranha de refém. Bascko, meio-irmão do líder da Trupe do Galpão Velho, e quase cinquenta guardas corruptos envolvidos com a mesma gangue.

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