Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 17

Capítulo: 17

— Prestem atenção se vocês querem voltar vivos para casa — o capitão gritou da tolda. Enquanto os recuperadores mais experientes distribuíam pacotes para cada um de nós, continuou: — Vocês estão recebendo equipamentos de proteção individual. Sim, seu uso é obrigatório. Não, vocês não podem tirar eles nem por um segundinho, se você está com a bexiga cheia, é melhor mijar agora ou deixar o mijo encher as botas dos seus macacões.

Um dos marujos me encarou por um segundo, seus olhos me analisando dos pés à cabeça antes de passar direto para o próximo novato enfileirado ao meu lado e dar-lhe o pacote que deveria ser meu.

— Reiterando as regras, e espero que o ermo diante de vocês agora os faça levá-las a sério: não engajem em combate, seus macacões não foram feitos para isso; não importa o que vocês virem ou ouvirem lá, não são humanos; e, por fim, vocês vão ser pagos de acordo com o saque que vocês trouxerem... E a viagem de volta não pode ser paga apenas limpando o convés — enquanto os novatos empalideciam, encarando a terra desolada adiante, concluiu: — Os anfíbios partem em quinze minutos! Vamos, vamos, vistam logo essas porcarias!

Todos se apressaram a vestir os macacões prateados que lhes protegiam o corpo inteiro, e as pesadas mochilas cilíndricas de metal sólido que conteriam os artefatos recuperados.

Todos, com exceção de mim, é claro.

— Edgardo, não é? — o capitão envolveu o pescoço de meu companheiro com um braço, indicando para que nos afastássemos do resto dos recuperadores. — Você tem um excelente autômata em mãos, sabia disso? É uma máquina de ponta mesmo, eu sabia que tinha tomado a decisão certa ao permiti-los a bordo.

— É um pouco insensível chamá-lo de “máquina”, capitão. Machius já foi um garoto humano uma vez... bem como todos os outros de seu tipo.

— É claro, é claro! E é por isso mesmo que eu me preocupo tanto com ele! Veja bem, amigo, a Terra Perdida é um lugar perigoso. Perigoso demais! E esse pobre garoto já está todo machucado. Você não vai permitir que ele se atire lá e corra o risco de ser destroçado do outro lado da Origem e longe de qualquer ajuda, não é?

— Onde o capitão quer chegar? — Salessandra cruzou os braços.

— Venda Machius para mim. Posso lhes poupar da recuperação e ainda lhes pagar duas vezes mais o salário da maior coleta de hoje.

— Eu cubro — a voz de uma garota fez a todos olharem para o lado e para uma figura usando um vestido cheio de babados por cima do macacão de proteção.

— A-Adiciono também um rifle ancestral na minha oferta! — o capitão sorriu enquanto uma única gota de suor escorreu testa abaixo.

— Eu cubro — repetiu a garota.

— E mais um pergaminho explosivo ancestral!

— Eu cubro. Qualquer oferta que o capitão faça, meus cuidadores podem cobrir por mim sem sequer checar o preço.

— Cuidadores? — o capitão olhou de esguelha para Edgardo e Salessandra, que evitaram encará-lo.

Suspirei.

— Eu não estou à venda, tá bom? — seguindo em direção à escotilha para os andares inferiores, adicionei: — Se isso era tudo, temos uma missão a cumprir, capitão.

— Espera. Faz parte abrir mão de recuperações muito perigosas, por mais que você os queira, mas... pode ao menos contar para esse capitão como você matou os leviatãs? Sem o canhão, pode ser complicado se cruzarmos caminho de novo e você não estiver mais a bordo.

— As estrelas-do-mar no pescoço deles são parasitas. É o que realmente controla o corpo daqueles animais marinhos, destrua elas e os gigantes não devem ser mais um problema.

— Estrelas... Então é por isso que pensávamos que sangramentos eram a resposta. Tentando alcançar esse objetivo, às vezes acidentalmente destruíamos elas — o capitão sorriu. — É mesmo uma pena que você não está à venda. Vão logo, os anfíbios partem em um minuto.

Fizemos como instruído, e como os últimos a embarcarem nos veículos com formato de sapos, acabamos sentados lado a lado, Edgardo, Salessandra, eu e a garo-

— Felicita. Meu nome.

— Ah. Machius, prazer.

— ...O prazer é meu.

Sentado ao lado de Felicita, senti a mudança no ar conforme nos aproximávamos a solavancos da costa. Apesar da maior parte do meu corpo ser artificial, meu cérebro (ou ao menos a maior parte dele) ainda era orgânico e necessitava oxigênio, mas como uma unidade adaptada ao combate, eu possuía purificadores de ar embutidos; e naquele momento, estes trabalhavam em dobro, retendo ou expelindo alta concentração de...

— Pólem — sussurrei.

— Desçam, vamos! — o piloto do veículo gritou quando o sapo metálico pisou em terra firme e as hélices embutidas em suas patas pararam de girar e tornaram-se pneus. — Vocês têm seis horas para voltar aqui com alguma coisa que preste, nem um segundo a mais. Caso o alarme no cinto de vocês passe a emitir luz, terão cinco minutos. Não vamos esperar nem um minuto a mais.

Sob berros e pontapés, os recuperadores novatos saltaram à terra firme, reclamando que sabiam que a oferta no porto era “boa demais para ser verdade” e deveriam ter confiado em seus instintos.

— A viagem de vocês já está paga — o piloto acenou com a cabeça, cordial, enquanto eu e meus companheiros deixávamos o anfíbio.

— M-Mas o quê...? — Felicita perguntou, encarando a paisagem da cidade costeira arruinada.

Prédios de metal e vidro desapareciam para além das nuvens brancas como algodão lá acima, as ruas repletas de bondes vazios haviam sido completamente tomadas por plantas de caule verde e flores amarelas, nenhuma fração do chão visível sob a flora, e arco-íris cruzavam os céus aqui e ali.

As plantas não eram a única forma de vida presente, porém.

Empoleirados em painéis azul-escuro conectados a braços mecânicos que brotavam dos prédios aos milhares sem motivo aparente, montes disformes de asas de penas brancas, como se alguém houvesse prendido bandos de pombos em bolas.

— Pensei que esse lugar era assustador e mortal? — a garota questionou.

— E é, então nem pense em tirar seu macacão — notando a confusão no silêncio da garota, expliquei enquanto avançando cidade a dentro: — O pólen que essas plantas produzem é um veneno mortal, e o ar aqui é repleto dele. Até a água aqui é mortal, sendo salgada. Mesmo se bebê-la, vais morrer de desidratação. E aquelas bolas de penas lá em cima... São o que restou dos nossos ancestrais. Agora, vamos, eu tenho uma missão a cumprir.

 

 

Avançamos cidade adentro por duas horas a fim de evitar os prédios que já haviam sido explorados tantas vezes que dificilmente possuiriam algo valioso, até que nos deparamos com uma construção sem janelas, e eu soube que encontraria algo bom lá.

— Parece ter sido algum tipo de base militar — Salessandra apontou. — Armas ancestrais são incrivelmente valiosas, se encontrarmos mesmo que uma única delas aqui, podemos fazer uma fortuna!

— Como esperado de Machius — Felicita apontou, ofegante. — Seu julgamento é sem falha... por mais que a viagem tenha sido um tanto cansativa — parando frente ao escudo desenhado numa parede, adicionou: — Huh. Parece com o escudo da Supremacia Purista.

— Você não conhece a história? — a ignorância da artífice de onze pontas me fez parar enquanto revirando os armários de um escritório qualquer.

— Meus cuidadores eram... seletivos com os conteúdos a mim ensinados.

— O polvo representa a adaptação e habilidade, e a arara, a liberdade, visão e exuberância... ou algo assim — dei de ombros. — É para simbolizar a glória da vitória e a sujeira do trabalho duro. É o escudo da seita que causou a Perdição. Seu nome se perdeu há muito tempo, bem como o deste país.

— Seita responsável pela perdição?! — Felicita me encarou, sua expressão escondida pelo visor da roupa protetora, mas a voz expressando choque o suficiente.

— Foi o que eu disse.

— Eles se infiltraram nas mais altas posições de poder em cada um dos oitocentos e oitenta e oito países desta Terra — Edgardo assumiu a explicação, sombrio. — E usaram sua influência para construir o Suplicador, uma máquina colossal para canalizar a vontade do Sol para dentro de cada ser humano. Um feitiço de trinta pontas.

— Mas eles não resistiram ao azar do feitiço... — Felicita entendeu. — Espera. Então, por que ainda vivemos?

— Todos os humanos que vivem hoje na Terra Sadia são descendentes de uma única colônia, uma medida de segurança da seita — Edgardo continuou, pesaroso. — Todos os outros bilhões de humanos da Terra que já foi o berço da humanidade pereceram, punidos pelo pecado de usurpar a posição de uma divindade.

— Não — rebati, e a atenção dos três se tornou para mim. — Eles não foram punidos por usurpar a posição de uma divindade, mas por sacrificarem tudo a fim de obter o favor dela.

Meus companheiros não fizeram qualquer barulho, minhas palavras perdurando, esperançosamente, não mais tão apócrifas para os ex-soldados lealistas, ex-soldados rebeldes, ex-artífices do Sindicato. Mas outra coisa fez barulho, lentamente empurrando a porta rangente da sala onde nos encontrávamos.

Uma enorme boca circular cheia de dentes projetava uma língua bifurcada em nossa direção.

— Kyaaah-! — Felicida berrou e quase caiu sobre o próprio traseiro, até que a peguei no colo.

Não precisei gritar para que meus companheiros corressem; quando a criatura que assemelhava-se a uma enorme toupeira sem pelos avançou, quebrando paredes com os dentes que funcionavam como uma máquina tuneladora do Sindicato, todos nós já havíamos escapado por outra porta e de volta para o corredor.

— O-O que é aquilo!? — Felicita perguntou, sua voz trêmula.

— ...Eu não sei — respondi, e a garota agarrou firme minhas roupas, sua respiração irregular audível mesmo através do macacão. — Mas vamos fazer algo sobre — adicionei, escondendo-a atrás da estátua de alguém vestindo um macacão desconfortavelmente similar ao nosso.

— Machius! — Salessandra chamou às minhas costas, disparando feitiço atrás de feitiço.

— Para uma sala — chamei, arrombando uma porta com um pontapé. — Muito ampla — franzi o cenho.

— Deixa comigo — Edgardo enfeitiçou o teto e estrategicamente demoliu parte deste, diminuindo a sala pela metade.

— Braawaahh! — o inimigo nos perseguiu, empurrando destroços com o corpo massivo, língua bifurcada e dentes.

— Morre, pesadelo ambulante! — Salessandra, então com uma visão clara do inimigo cujos movimentos foram limitados, enfeitiçou sua boca, cravando uma adaga bem no céu da boca redonda da criatura. — Que?! — surpreendeu-se tanto quanto todos nós quando o inimigo não pareceu sofrer mais do que um sangramento leve. — É mais durão do que parece, pft!

— Se está com fome, consuma a si mesmo — girei o tambor de meu revólver e enfeiticei.

Mas a criatura, bem como os leviatãs de antes, exibiu estranha resistência ao que deveria ser um feitiço instantaneamente mortal, e continuou a avançar apesar de que seu ácido estomacal deveria estar a destruindo de dentro para fora.

Já se encontrava a meio caminho até nós, quando apontei:

— Deve estar frágil o suficiente agora.

— Boa! — Salessandra não hesitou em disparar de novo, a adaga que fez cruzar os ares, então, penetrando fundo no céu da boca do inimigo e fazendo jorrar sangue e ácido estomacal.

— Brwawawah! — o inimigo bizarro remexeu-se como um sangue-suga numa frigideira, o chão sob nossos pés tremendo, e poeira caindo sem parar do teto semidestruído.

— Por que não morre de uma vez?! — Salessandra disparou de novo e de novo, mas nenhuma das outras adagas pareceu apressar o fim da vida de seu alvo. Pelo contrário, apenas incentivou-o a apressar-se em nossa direção.

— Descanse de uma vez! — Edgardo atirou um segunda feitiço explosivo bem colocado, que dessa vez explodiu logo atrás do cabo das várias adagas enterradas no céu da boca do monstro, impulsionando-a com potência o suficiente para que as armas saíssem por inteiro do outro lado da cabeça do nosso estranho perseguidor.

— Pft! Foi tarde — Salessandra cuspiu.

— A-Acabou...? — Felicita deu as caras pouco depois.

— Sim — repondi, contornando o cadáver.

Não dei mais que dois passos antes que o chão sob meus pés, fragilizado pela batalha e pelo peso do enorme cadáver, cedeu e fomos todos engolidos por escuridão.

 

Capítulo: 17

 

— Tá todo mundo bem? Felicita? — Edgardo ajudou a garota a se levantar. — O traje de alguém está danificado?

— Estou bem, e meu traje está intacto. Obrigada.

— Não vejo mais nenhuma daquelas coisas — comentou Salessandra, rifle pronto.

— Não vejo muito de nada — respondi, apertando meus olhos artificiais. — Isso é algum tipo de estacionamento?

Sem ter realmente como sair pelo buraco do qual entramos, desbravamos a escuridão adiante, a lanterna embutida nos capacetes dos trajes iluminando apenas concreto, correntes e símbolos pintados ao chão, até alcançarmos uma parede ao final do espaço e uma janela que estendia-se horizontalmente para além do alcance da nossa lanterna. Próxima à janela, havia uma simples porta metálica.

— Aberta — atravessei a soleira da porta para uma sala com uma série de armários metálicos frente à grande janela horizontal.

— E-Esse lugar...! — Salessandra tremeu.

— O-O que? O que tem aqui? — Felicita se aproximou, agarrando minhas roupas.

— O motivo pelo qual expedições são organizadas — respondi, abrindo um dos armários e revelando uma enorme arma anciã.

— É uma sala de tiro ao alvo. Provavelmente para treinamento de agentes da seita ou teste de armas experimentais — clarificou Edgardo. —  Milênios separam nossa tecnologia da de nossos ancestrais, mas o design básico não mudou tanto assim, nem o das salas de testes, pelo jeito.

— Hahaha, boa, Machius! — Salessandra socou meu ombro, logo tomando um rifle ancestral em mãos e o analisando; uma arma com contorno relativamente similar a sua própria, porém com muito mais tubos, medidores e luzes intensas quando nutridas pela vontade inerente da artífice.

— Não tem pergaminhos, mas... — Ela removeu a munição do próprio rifle e a inseriu na arma ancestral, cujas inscrições alquímicas ascenderam todas. — Parece que aceita os nossos feitiços!

— Ao menos os indiretos — suspirei quando nenhuma das armas que saqueei não aceitou o pergaminho que inseri nela.

Enquanto todos saqueávamos tantos equipamentos ancestrais quanto possível, lentamente nos afastamos uns dos outros, e me peguei inutilmente tentando arrombar um baú trancado.

— Eu acho que não tem nada que eu possa fazer contra materiais ancestrais... — desisti, encarando a lâmina danificada de meu revólver. Uma pena, considerando que, a julgar pelos símbolos desenhados no baú, era uma arma desespecificada, logo, uma que aceitaria meus feitiços.

— Machius — Felicida chamou por entre suspiros, ofegante. — Tem um minuto?

— Claro — sorri, torcendo para não criar desavenças num dos mais inóspitos territórios de toda Origem.

— ...Você me perguntou sobre meu feitiço antes. Bem, a verdade é que aquele feitiço é o único que posso conjurar. E ele não faz nada de especial, só produz um tipo de parque de diversões.

— O único feitiço que você sabe... é um de onze pontas?

— Sim. Esse é meu propósito. Não sei exatamente como funciona, mas fui criada comendo e bebendo e aprendendo coisas muito específicas com o único objetivo de conjurar um único feitiço uma única vez... no coração do território inimigo.

— Sem nenhum balanceamento contra o azar, não é? — perguntei, encarando cogumelos brancos que pulsavam lentamente e cresciam através do concreto rachado.

— Sim. Fui criada durante minha vida inteira num lugar parecido com esse, a diferença era que eu tinha tantos brinquedos e comidas gostosas quanto quisesse, e meus cuidadores fariam absolutamente tudo o que eu pedisse. Você entende, não é? Uma vida inteira sem dor alguma. Um único feitiço de onze pontas.

Você é a arma, não seu feitiço. Foi criada para reproduzir uma Perdição em menor escala.

— ...Sim — fechou os punhos. Continou, seguindo uma risada fraca: — O azar resultante deveria ser o suficiente para destruir uma cidade inteira.

— Você me ressente? Por não deixá-la cumprir sua miss-?

— Ei, Machius, por quem você luta? — me interrompeu. — Você sabota os puristas e os verdadeiros lealistas, mas é um desertor dos traidores e do Sindicato. Duvido que você esteja do lado dos monstros também. Então, pelo quê? Vives apenas pela adrenalina de um recuperador até que seu sistema de purificação de ar falhe ou apareçam mais leviatãs do que você pode lidar?

Inconscientemente, meus dedos apertaram o cabo da arma de Morrogna. Por quem? Pelo que? Minha antiga Mestra havia me dado o direito de escolha, ou a maldição de vagar para sempre de um lado para o outro até que as rachaduras que lentamente espalhavam-se pelo meu corpo artificial finalmente me imobilizassem? Eu era apenas um perigoso desertor desinteressado?

— Meus cuidadores sempre me falaram que minha causa era a mais nobre e admirável. Que eu fui especificamente criada através de seleção cuidadosa de linhagens, cheia de potencial. Eu estava pronta para morrer naquela noite. Então-

— Eu não tenho a resposta que você procura — interrompi. — Você está viva agora porque se eu não tivesse lidado com você, eu estaria morto; e por mero capricho, curiosidade, desejo. — dando as costas à Felicita, adicionei: — Se você não quer me acompanhar para qualquer ruína que eu venha a explorar a seguir, sinta-se livre para partir — encarando a garota por cima de meu ombro, sorrindo, concluí: — Mas se você quiser vir comigo, eu não importo de explicar sobre quantos símbolos você quiser.

— “Desejo”? — vi a garota apertando o próprio peito logo antes de eu partir.

 

 

Todos já havíamos enchido bem as mochilas que nos foram cedidas, e nos preparávamos para retornar à superfície quando tremores puseram a integridade da ruína milenar à prova.

— Os cogumelos estão pulsando mais rápido — notei.

— Todo mundo, agachem-se debaixo daquela mesa e cubram suas cabeças — Edgardo instruiu, e obedecemos.

Poeira caía como cachoeiras do teto, e os muitos tubos que corriam sobre nossas cabeças rangiam desconfortavelmente.

— Merda, isso não vai desabar agora, não é? — Salessandra remexeu-se.

— Essa instalação está aqui desde antes da fundação do Sindicato e já viu mais terremotos do que nós já vimos o sol nascer. Vai ficar tudo bem — Edgardo confortou.

— Mas um dia, ela também vai cair, como todo o resto. Esse pode muito bem ser o dia — dei de ombros. E todos me encararam em silêncio. — M-Mas estatisticamente falando, não deve ser hoje.

Talvez estivéssemos (relativamente) seguros de desabamentos no que deveria ser uma das instalações mais bem fortificadas daquela Terra, mas o mesmo não poderia ser dito das criaturas de antes:

— Braawaahh...! — ecoou da escuridão distante do campo de tiros.

— Continuamos escondidos ou resistimos?

— Brwah...! — outro rugido, então da direção oposta e do outro lado de uma porta diretamente conectada ao lugar.

Depois, outro rugido, e outro, e outro, e cada um vindo de uma direção, de cima, de baixo, dos lados.

— Eles já sabem onde estamos — levantei apesar do chão instável, sacando meu revólver. — Felicita, se esconda dentro de um dos armários — ordenei enquanto Salessandra e Edgardo ambos equipavam-se com as armas ancestrais saqueadas.

— Não! Eu não vou deixar o Mestre lutar sozinho!

— Mestre? — repeti, confuso.

— V-Você disse que não se importaria de me ensinar várias coisas, não é? Você basicamente me aceitou como aprendiz, então!

— ...Certo, considere isso sua primeira lição, então — atirei meu revólver antigo à garota. — Contém os três primeiros feitiços que você deve aprender: crescimento ósseo, contração muscular, e desequilíbrio sensorial. A intensidade e minúcias dos efeitos são aplicadas conforme sua intenção.

— C-Certo! — Felicita segurou a arma, respirando fundo.

— E quanto ao azar? Uma garota bonitinha que nunca pegou no pesado até ontem pode muito bem... — Salessandra comentou, apoiando o enorme rifle ancestral sobre o peitoril da janela do campo de tiro ao alvo; sua arma possuindo um suporte em “V” logo abaixo de duas baionetas afiadas.

— Na Terra mais azarada da Origem, onde os céus, a terra e o mar já desejam sua morte, o azar deve estar balanceado o suficiente — expliquei. — Vocês cuidam do campo de tiros, eu e Felicita lidamos com as outras entradas.

— Deixa com a gente! — Edgardo ajoelhou-se, segurando uma espécie de tubo quadrado com quatro buracos em seu centro, um cabo com gatilho na parte de baixo do tubo, e um suporte para a mão na lateral.

— M-Mestre, não é melhor usarmos uma arma ancestral?

— Eu sou especializado em feitiços de ação direta, e nenhuma das armas daqui parece suportar estes. E você nem sequer tem uma especialização — expliquei, derrubando um armário frente a uma porta num extremo do corredor.

“Bang!”

Um disparo depois, os cogumelos que cobriam o chão envolveram a barricada improvisada, fortificando-a ao menos um pouco. Parecia que os feitiços de Morrogna funcionavam também em fungos, ainda que significativamente pior.

Antes que eu alcançasse a porta do lado oposto da longa sala, porém, a primeira das criaturas invadiu aos berros.

— Hyaah! — Felicita atirou repetidamente contra a criatura, causando leves lesões sobre todo seu corpo.

— Excelente — sorri, enfeitiçando os dentes do inimigo e fazendo-os cavar o próprio crânio. Aquelas coisas eram surpreendentemente resistentes mas, três feitiços depois, o corpo inteiro da criatura havia se tornado contra si mesmo, e ela ao menos não conseguia mais se mover.

— Mesmo tantos feitiços de sete pontas não são o suficiente para matar essas coisas tão facilmente... — Felicita cobriu a parte da viseira onde ficaria sua boca, soando enjoada.

— Vai morrer eventualmente, mas temos de conservar nossa vontade. Há mais vindo.

Dito e feito: assim que terminei de falar com Felicita, ouvi os primeiros disparos feitos por Salessandra e Edgardo.

Com um brilho de uma estrela de seis pontas, o rifle ancestral produziu uma espada inteira que voou tão rápido quanto uma flecha até o primeiro alvo e partiu-o ao meio. E não parou. Num piscar de olhos, a espada, girando como uma hélice, dividiu mais um, dois, três, quatro inimigos antes de finalmente perder ímpeto e cair ao chão.

— Pesadelo! Pft! — Salessandra cuspiu, sorrindo de uma orelha à outra.

Antes mesmo que o choque pela potência da nova arma de Salessandra tivesse assentado, Edgardo puxou o gatilho de seu próprio artefato-arma, e este fez aparecer, com potência similar, um grande rosto enfurecido de metal sólido, que logo comprimiu-se ao tamanho de um polegar, o objeto tornando-se branco iridescente devido apenas à pura pressão antes de ser atirado na direção do abismo, onde explodiu contra uma horda inteira de criaturas. A onda de choque sozinha cavou o chão de concreto e aço, e esmigalhou o tronco inteiro de um inimigo, enquanto a subsequente chuva de metal derretido incendiou dúzias de oponentes próximos.

— Tal poder destrutivo...! — Edgardo, com as mãos tremendo, encarou o próprio novo artefato-arma mais uma vez.

— ...N-Não se deixe abater, Mestre!

— Eu não estou abatido.

— Se você pudesse usar uma arma ancestral, seu poder seria incomparável!

— Já disse que não estou abatido.

— Brawah! — uma criatura de boca circular caiu de um ducto de ventilação do teto.

Então, mais uma avançou por cima do cadáver daquela que matei antes, e ainda outra arrombou a barricada que levantei há pouco.

Mas, dequela vez, era diferente.

— Se torne algo útil — enfeiticei aquilo que havia finalmente morrido, transformando-o em minha própria arma superior.

A coisa se atirou sobre o alvo mais próximo com sua cabeça tornando-se uma broca pontiaguda; perfurou o pescoço do companheiro e decapitou-o antes de seguir contra o seguinte inimigo.

“Bang!” enfeiticei a cabeça decapitada ainda em pleno ar, e esta morfou-se como uma armadilha de ursos, mordendo através da coluna vertebral do segundo invasor.

— Mestre, atrás de você! — Felicita gritou, disparando nos cogumelos ao chão, fazendo o atacante tropeçar e atrasando-o por um segundo.

— Muito bom... minha aprendiz — acariciei sua cabeça protegida pelo macacão. E no instante seguinte, os corpos que eu controlava estraçalharam a criatura que tropeçou.

— Machius! Ainda mais dessas coisas estão vindo — avisou Edgardo.

— Como pesadelos elas descobriram onde estávamos?! E quantas delas há?! Pft! — reclamou Salessandra.

— Quanta força de vontade vocês ainda têm? — perguntei.

— Não muita. Esses artefatos são potentes, mas consomem muita vontade — admitiu o artífice mascarado.

— E nossas armas antigas não são fortes o suficiente para matar essas coisas — adicionou Salessandra.

— Vamos avançar à procura de um caminho para cima, não podemos ficar aqui até estarmos cansados demais para resistirmos e sermos comidos. Edgardo, você na retaguarda, Salessandra, você na dianteira.

Atrás da porta que nós três encarávamos, aquela da qual vários inimigos já haviam invadido, um número possivelmente sem fim de inimigos e um labirinto possivelmente sem saída. As nossas costas, eventual morte certa.

Era quase nostálgico.

— M-M-Mas que bagunça... — gaguejou uma voz desconhecida para além da escuridão da qual as criaturas emergiam.

Não. Havia uma mudança recente mas significativa.

— Não há mais criaturas vindo do campo de tiro ao alvo — apontei. — Não há mais criaturas vindo de lugar algum.

Finalmente, o intruso pisou à luz das chamas resultantes do combate; um velho de longa e hirsuta barba branca e cabelos enozados, vestindo trapos e carregando um cajado dentre todas as coisas, algo apenas uma fração melhor que uma varinha.

— Esses feitiços nojentos... M-M-Morrogna, minha aprendiz, é você?

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