Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 35

Capítulo: 35

Quando voltei a mim mesmo, me vi aos pés do monstro gigante, meio enterrado em lama vermelha de sangue onde deveria estar meu vilarejo. Fumaça e nuvens de tempestade obscureciam o sol, horrores de todos os tipos marchavam ao meu redor e voavam acima de mim.

— Mes... tre... — ouvi Felicita murmurando não muito longe de mim.

Virando com dificuldades meu pescoço rachado e de mecanismos amassados e emperrados na direção da voz, vi minha aprendiz presa sob uma carcaça completamente carbonizada.

— Mes... tre... — Felicita repetiu. E percebi que ela não estava debaixo da carcaça.

— Ah...! — tentei me levantar, sentindo um aperto gelado no peito, ainda que eu não possuísse mais coração, quando percebi que não conseguia mover minhas pernas ou meu braço esquerdo. — Não... — notei que eles não existiam mais; eu havia sido reduzido à metade de um tronco com um braço só.

Franzindo o que restava do meu rosto, apertando o que restava de meus dentes, me arrastei pelo campo sangrento até o corpo carbonizado da garota. Sua pele era então como o leito seco de um rio, dura, partida e vazando o pouco sangue que não havia sido evaporado de suas veias.

Eu não estava nem na metade do caminho quando um par de pés femininos pousou, desinteressado, próximo de mim.

— É chato, né? — uma voz masculina questionou. — Tudo pelo qual você se esforçou tanto, tirado de você num segundo por alguém que nem se importa... —  Agachando-se ao meu lado, o Recepáculo segurou a cabeça de um velho barbudo. — Esse daqui passou pelo mesmo. E a aprendiz dele também. E agora é sua vez — olhou para Felicita quase com pena. — Sabe, é uma coisa boa que ela não vai passar pela mesma decepção — atirando a cabeça de Versus fora, continuou: — Digo, é melhor perceber no começo de sua jornada que ela é falha do que dedicar séculos a ela para... o que? — olhou ao redor com um sorriso no rosto. — Chegar na incrível posição de ser alguém respeitado por um vilarejozinho?

— Felicita... Espere aí! — continuei a me arrastar, focado apenas na garota ferida adiante. — Seu mestre... vai te... salvar.

O Receptáculo suspirou.

— Sério mesmo? Não acha que está na hora de desistir? Sua mestra sabia melhor que você, em — balançou o dedo indicador na minha direção. — Sabe, você tem bastante experiência, eu admito. Mas não acha que é arrogância demais rejeitar tudo o que foi testado e aprovado ao longo de tantos milênios assim? Por que você pensa que sua experiência é mais importante que a de todas as outras pessoas?

— Seu mestre... vai... — me arrastei pelo chão lamacento, resmungando.

— ...Eles estão mortos, sabia? Seus amigos feiosos. Sem a proteção sua e a do bom velhinho, eles não tiveram nem chance — deu de ombros. — Talvez tenha sido melhor assim, considerando que vocês puderam apenas estender o sofrimento da coitada.

O Receptáculo caminhou até uma pilha de destroços e desenterrou dois outros corpos chamuscados, depositando-os próximos à Felicita. O primeiro era de um jovenzinho ex-pirata, e o segundo era de um monasta excomungado.

— Olha só! Não sobrou nem aquele seu povinho que você tentou esconder num buraco, haha — me segurou pelo que restava de meu cabelo antes de continuar: — Sua aprendiz vai morrer, Machius. Todo mundo morreu. E você vai morrer também. E aí, valeu a pena o seu... pequeno experimento? — O Receptáculo riu. — Eu até chamaria sua aventura de “jornada de autodescoberta” ou algo assim, mas sejamos sinceros, você apenas protegeu o próprio ego pelos últimos anos. Você não aprendeu nada. Honestamente? É quase impressionante. Você ficou muito bom em esnobar os seus superiores.

— Me-Me-Mes... tre — chamou minha aprendiz quando finalmente a alcancei.

Ela estava tão machucada que temi sequer tocá-la. Não apenas isso, seus olhos e ouvidos haviam sido machucados demais para que ela ao menos notasse minha presença. Daquele jeito, pensando estar completamente sozinha e imersa em dor indescritível, minha única aprendiz, a única pessoa que me conhecia e mesmo assim acreditava que eu fosse realmente especial, iria...

— Aqui — Natanriel me ofereceu solenemente uma enorme cruz, uma arma ancestral. Minha arma. — Se mate. Assim você pode proteger seu tão importante e grandioso ego, não é? — explicou com um sorriso de orelha a orelha.

Hestitei.

— Mes...

Mas a voz progressivamente mais baixa de Felicita me impulsionou e tomei a arma em mãos.

— Você só tem uma chance, Machius, não a desperdice. A garota tomou as próprias escolhas, como você sempre quis que ela fizesse, e ela morreu numa guerra.

Não havia mais ninguém para me salvar. Ninguém.

Mas Felicita, talvez pudesse ser...

— Diga-me. E quanto à sua espada? — perguntei. — Você sempre disse que queria ser o marechal mais forte, não qualquer outra coisa que estivesse no topo.

— ...Não podemos ser o que quisermos para termos o que quisermos, Machius. Você já deveria saber disso. Olhe para si mesmo: para se tornar um conquistador, deixou de lado a própria humanidade. Virou uma máquina.

— Eu...? Pff...! Pff-hehehe! Hehehehehe!

— Ai, ai. Eu te dei uma pancada tão forte que seu cérebro foi danificado também, é? Ficou biruta?

— Não, não, é só que... eu me lembrei de algo engraçado. Uma piada que demorei tempo demais para entender.

— Ah, é? Qual? — o Receptáculo apertou os olhos, cheio de suspeita.

— Uma vez, alguém me disse para ser livre, e eu acabei provando cada grilhão disponível, tentando descobrir qual me faria mais livre. Isso não é hilário?

— Me poupe do seu papo de diferentão e se mata de uma vez, vai — o Receptáculo franziu o nariz, enojado. — Você não vai me convencer de nada nesse ponto.

— O meu sonho nunca foi me tornar um conquistador, Natanriel... — apontei o cano de minha arma para mim mesmo, sorrindo. — Eu queria ser um artífice.

Puxei o gatilho.

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