Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 29

Capítulo: 29

A floresta de moluscos não havia mudado nem um pouco, os animais crescendo da terra e filtrando o ar, serenos, exatamente como quando os vi pela última vez. Mas algumas coisas haviam mudado, afinal.

— Eu sinto muito, Machius — Ed pôs uma mão em meus ombros. — Não havia nada que você pudesse ter feito.

À nossa frente, uma lápide simples, um pedregulho com um nome cravado nele que lia “Musah”. Meu irmão mais velho. Minha única família.

A lápide se encontrava exatamente onde minha casa ficava há tantos anos atrás, agora um trecho indistinguível dos demais da floresta, os moluscos crescendo onde antes pessoas viveram e memórias foram cultivadas.

Me entristecia. Profundamente. É claro que sim. Mas talvez fosse o choque, ou talvez os tantos anos que passei longe, ou talvez ainda meu corpo falho, mais máquina que homem, mas eu não conseguia encontrar em mim um impulso, uma resposta que soasse natural àquilo. Eu deveria dizer alguma coisa? Fazer alguma coisa? Meu coração de metal se partia e eu não podia fazer nada quanto a isso. Havia alguém que possuía respostas para qualquer uma daquelas perguntas?

Não sei por quanto tempo fiquei sentado encarando aquele pedregulho, mas eventualmente Ed suspirou e moveu os demais:

— Vamos levantar acampamento entre aqueles moluscos, andando.

 

 

— Mestre? — já era noite, tão escuro que eu já nem mais conseguia ler o texto cravado na pedra, quando minha aprendiz se aproximou, carregando uma lâmpada.

Evitei olhar em sua direção. Não queria que qualquer expressão que eu estivesse vestindo fosse iluminada.

Monstros, máquinas, desastres naturais, magia e aço, eu tinha uma resposta para tudo isso, mas para um único pedregulho, imóvel, não.

E uma vez que eu parava para pensar, será mesmo que EU tinha qualquer resposta? Será que qualquer decisão que tomei até aquele momento foi mesmo tomada por mim?

— Uhm... É... Aqui! — de repente, Felicita me envolveu em seus braços. — Eu não posso dizer que entendo, porque não entendo. Mas eu sei que você está sofrendo, e... eu queria poder fazer alguma coisa. Mas também não posso. Mas quero que você saiba que você não tem que passar por isso sozinho. Você não está sozinho.

Nenhum de nós se moveu. Nenhum de nós falou mais qualquer palavra. Pelo resto da noite, revivi as memórias boas que compartilhei com o nome escrito no pedregulho em silêncio.

E quando o sol nasceu, pensei em voz alta:

— Está bom.

— Uh? Mestre?

— Isso. Está bom — me levantei. — Vamos. Tem outro lugar que quero visitar.

Não foi uma longa caminhada até a casca de tatu-montanha tornada casa de dois andares. Ao menos, o que sobrou dela: havia sido há muito tempo saqueada e destruída.

— O que havia aqui?

— A casa dela — eu disse, tirando a cabeça de Morrogna da mochila e cavando um buraco no chão com minhas próprias mãos.

Tendo enterrado a cabeça, cravei uma pedra com o nome de minha Mestra com minhas unhas e coroei seu túmulo com esta.

Suspirei, encarando a segunda lápide do dia.

Parte de mim, arrogantemente, esperava viver uma catarse naquele momento. Esperava orgulhosamente dizer que havia concluído minha missão, me tornado forte e sábio e verdadeiramente entendido o que aquela mulher quis dizer quando me mandou naquela aventura toda. Ao invés disso, porém, eu sentia vergonha. Eu havia falhado, e só percebi isso na noite anterior.

Saí por aí levantando uma bandeira que não era minha, conjurando feitiços que não eram meus, falando palavras que não eram minhas, e o fiz tanto em frente da minha aprendiz quanto da minha Mestra.

Minha vontade era mesmo de me autoexilar em algum ermo distante para nunca mais dar as caras a ninguém.

— Mestre, uhm... então, o que vamos fazer agora?

— Como eu disse, está bom. Este lugar — me levantei. — Quero ficar aqui por um tempo, se isso não os incomoda.

Ed e Salessandra, observando a sabe-se lá quanto tempo de uma distância respeitosa, sorriram.

Pelo resto da manhã, dividimos as tarefas; quem coletaria materiais, quem coletaria comida, quem construiria o abrigo, e discutimos como ensinar Felicita durante o processo.

Pelo resto da semana, abrimos uma clareira apenas um pouco distante da minha antiga vila e limpamos o interior de uma família de tatus-montanha para usar suas cascas como casas.

Pelo resto da estação, coletamos e compramos sementes para o cultivo.

Foram dias tranquilos. Até que meu passado voltou para me assombrar, e justamente como a figura que eu menos esperava.

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