Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 6

Capítulo: 6

O corpo sem vida de Mililiano ainda estava quente à nossa frente.

Foi a Mestra quem quebrou o silêncio que já durava dez minutos:

— Fale para o médico colhê-lo. O que sobrar, jogue no meu depósito — instruiu, objetiva, monótona.  — Serviçal, siga-me.

Obedeci.

— ...Pft! Pesadelo — enquanto me afastando dos demais, ouvi Salessandra reclamando e cuspindo. O couro de suas luvas estalava alto sob seus punhos fechados forte demais.

— Ele não iria querer que nós perdêssemos a esperança. Morrogna tem razão, temos que fazer o que podemos... — Edgardo batia no ombro da companheira enquanto eu e a Mestra entrávamos num dos túneis da trincheira.

Contando comigo e os artífices sob comando da Mestra, os soldados do exército lealista resistindo na trincheira isolada totalizavam 147; e por virtude de ser a pessoa mais experiente e poderosa, a Mestra acabou naturalmente assumindo uma posição de liderança, ainda que não fosse patrona e, portanto, não pudesse oficialmente assumir tal papel. Originalmente, passávamos de 300 mas, devido aos constantes ataques das forças rebeldes que nos cercavam, éramos lentamente reduzidos. Mililiano, também, havia perdido a vida repelindo uma das invasões sem fim. E o resto de nós não se encontrava tão melhor que o morto, afinal.

— Décima — o mesmo artífice produtor de braços segmentados que havia me reparado da última vez esperava pela Mestra próximo à porta improvisada de seus aposentos. — Nosso último bolo de chá de choro acabou.

— Então use cachaça como analgésico.

— Combustível para combater frieira, esquentar comida-

— Meu depósito contém banha o suficiente para nos suprir-

— Ontem abrimos nossa última caixa de alimentos-!

Onde você está tentando chegar, soldado?

— ...Sei que nossos esforços para cavarmos um caminho de volta para linhas aliadas foram frustrados de alguma forma, mas nossos homens estão desesperados. É evidente em cada costela à mostra e olheira inchada, em cada novo corpo morto que enche seu “depósito” que não podemos continuar aqui por muito mais tempo.

— E? Você espera que eu, sozinha, apenas abata um caminho de volta para casa? Sob fogo de artífices, soldados, e marechais da dianteira e da traseira? Que eu enfrente máquinas de guerra e exércitos inteiros?

— É-É claro que não, Décima... Mas palavras como “deserção” passam a circular entre suas fileiras. Ressentimento, insatisfação e paranoia aproximam-se de uma pandemia. Pensei que eu deveria deixá-la ciente de tal.

— Hmph. Esses fedorentos e asquerosos são bem-vindos a tentar desertar, então.

O artífice produtor calou-se, seus olhos fixando-se nos próprios pés.

Mais uma vez, foi a Mestra quem quebrou o silêncio, então após um breve suspiro:

— Eu vou criar uns novos bonecos sexuais para os soldados. Isso deve acalmá-los por um tempo. Também diga para eles que as forças aliadas começaram a se mover e devem nos alcançar se resistirmos por mais algum tempo.

— É claro, Décima! Uhm... A-A última informação, ela é verdadeira?

— Dispensado — Morrogna entrou em seu quarto, e fechei a porta atrás de nós, minha maior preocupação sendo o bem-estar de minha Mestra, quem precisava urgentemente de descanso.

O quarto não passava de um buraco tosco de paredes e teto de terra, com placas de madeira atiradas ao chão numa tentativa igualmente tosca de manter a umidade longe. Num canto, uma cama de solteiro e um baú, no outro, uma escrivaninha sobre a qual descansava um pote cheio de joias e decorações de animais e insetos coloridos, um rádio e um lampião, a única fonte de luz do lugar.

A mestra sentou-se à escrivaninha e segurou a própria cabeça com ambas as mãos.

— ...Meu fofíssimo, eu sinto muito que você tenha que passar por tudo isso.

— O lugar de um servi-

— Mais emoção.

— ...Meu lugar é ao seu lado, Mestra.

— Você é a única coisa boa nesse lugar — se aproximou de mim com um sorriso. — E olhe o que estão fazendo com você — pesarosamente, passou os dedos sobre as cicatrizes que dividiam todo meu corpo como as fronteiras do país em guerra. Franzindo o cenho, continuou: — Estão tentando te transformar num deles. Um bruto horroroso. Estão tentando tirar você de mim... — seus dedos alcançaram meu pescoço. — Estão tentando tirar tudo de mim. Todos eles.

— Guh — arfei, inutilmente tentando inalar alguma coisa enquanto as mãos de minha Mestra impiedosamente bloqueavam minhas vias aéreas.

— Aqueles velhos malditos. Tudo o que fiz por eles não foi o suficiente?! — seus dedos apertavam cada vez mais forte ao redor de meu pescoço. Minha visão começava a escurecer, meus membros a perder a força. — Depois de tantos sacrifícios que fiz, eles exigem ainda mais, até a última gota?! Me punem?! — de repente, atirou-me ao chão de madeira.

— M-Mestra — chamei, ainda desorientado. — Se a vida desse serviçal lhe é mais útil ao ser encerrada, será um prazer morrer por suas mãos — palavras que sequer uma vez cruzaram minha mente, mas saíram tão naturalmente de minha boca, como se ensaiadas milhares de vezes antes. — Mas nessa situação-

Foi interrompido por uma bota no meu peito.

Acima de mim, minha Mestra me encarava com olhos arregalados, poços de escuridão insondável. Ela despia seu tronco.

— Isso mesmo. Você daria sua vida por mim, não é? — jogou a capa preta sobre sua cadeira. — Você faria qualquer coisa por mim — seu peitoral parou no chão. Descansando um joelho à minha esquerda e outro à minha direita, adicionou: — porque você me ama.

Antes que eu pudesse lhe dar outra resposta pré-programada, seus lábios negros e gélidos tocaram aos meus, não tanto selando minha boca, quanto a reordenando: empurrou minha língua com sua própria de um lado para o outro, envolveu-a e a sugou para dentro dos próprios lábios enquanto mordiscava os meus.

— Nghn-

— Hmmmm.

Eu não conseguia respirar direito, enquanto minha Mestra o fazia ofegante. Seus cabelos negros, como cachoeiras de piche, ocultavam nossos rostos de qualquer um que pudesse estar nos vendo, mas ela mantinha suas pupilas fixadas nas minhas como as de uma caçadora, ela me devorava.

— Aah... — mesmo quando nossas bocas finalmente deixaram de se tocar, uma ponte de saliva nos conectava. Sua mão caiu exatamente sobre minha virilha. — Quantas vezes você sonhou com isso, huh? — acariciou, por cima de minha calça, meu membro inchado.

Apesar da dificuldade que os feitiços complexos que animavam meu corpo tinham de traduzir emoções, a carne ainda reagia a elas instintivamente, afinal.

— Quantas vezes antes de dormir você não pensou nos banhos que te dei ou nas lições em que te segurei tão próximo de meu corpo, e tocou em si mesmo? — seus ombros tremiam tanto quanto o que ela segurava latejava. — Aah... Aah... Quantas vezes você se esgueirou à noite pelos corredores da minha casa e delicadamente empurrou a porta de meu quarto só para me ver dormir? — quando minha Mestra desabotoou minha calça e expôs minha roupa de baixo, uma mancha escura coroava minha ereção. Segurando firme minha cueca e o que ela mal continha, sussurrou em meu ouvido: — eu deixava a porta destrancada só para você.

Puxando a cós do uniforme até meu joelho, despiu-me, e logo fez o mesmo consigo mesma; hiperventilando, engolindo saliva demais, e com dedos tremendo, puxou sua calcinha preta para o lado, revelando montes inchados e cintilando, úmidos, sob a luz titubeante do lampião.

— D-Depois de te trazer até aqui, ao menos sua mestra pode te dar um mimo de aniversário atrasado, não? Já és um adulto de dezoito, afinal, fu-fufu... — baixou sua cintura, encarando minha ereção fixamente, e posicionando-a entre as próprias pernas. Tocando sua carne fria, minhas glândulas separaram seus montes, revelando lábios negros e pegajosos de algo transparente. — N-Não se preocupe. Sua Mestra vai te ensinar com paciência e direitinho, como sempre.

Eu não sabia o que dizer, ou sequer se deveria dizer alguma coisa. Como oficialmente um serviçal de combate, aquele era o último tipo de situação para o qual eu havia sido preparado.

— Hmmm! — centímetro por centímetro, meu membro adentrou à minha Mestra; a sensação era estranha, de empurrar sua carne com minha glândula, demorei a sentir seu parco calor interno pela primeira vez.

— Nghn.

— Ah! Que fofo! — Morrogna sorriu como nunca antes, mostrando todos os dentes brancos demais. — Pesadelo... Talvez sua mestra não vá conseguir se conter, afinal!

Minha Mestra ergueu sua cintura, e enquanto o fez, seus lábios de baixo agarraram-se firmemente ao meu membro, como se recusando a dizer adeus. Então, deixou-se cair mais uma vez, mais rápido do que da última, e foi como experimentar tudo de antes de uma única vez.

— Argh.

— Ah! Isso! Esse rostinho, esses grunhidos...!

Uma enchente de sensações impossíveis de processar, que eu não havia sido criado para processar, sobrecarregava meu cérebro parcialmente reanimado e sobrescrevia protocolos despreparados; sons simplesmente me escapavam.

— Não feche os olhos, Machius, olhe bem para mim.

Obedeci. Gravei bem a imagem de Morrogna com as calças nos tornozelos, sentada sobre minha virilha, engolindo minha excitação por inteiro com seus lábios inferiores.

— M-Mestra.

— Porra — suas mãos fecharam-se ao redor de meu pescoço uma segunda vez, e a cintura de Morrogna passou a subir e descer sobre a minha mais rápido. — Você não está feliz?! Ughnn...! F-Finalmente sendo fodido pela mestra com quem você sempre fantasiou!

Seu corpo chocava-se contra o meu em estalos altos e molhados, a cada novo impacto respingando suor e o que quer mais que estivesse no caminho.

— Agh- Mestra... Morrogna — grunhi com o ar que ainda restava em meus pulmões. Algo dentro de mim mudava, alcançava seu limite, eu me sentia à beira de um precipício- não. A beira de um penhasco. — Ugh? Aaaagh...! — minha coluna vertebral arqueou-se, meus dentes rangeram, e minhas unhas cavaram crateras na madeira sob mim.

— Hmmmmmm!! — ao mesmo tempo, a Mestra atirou a cabeça para trás e apertou os próprios seios, apertando-me com ainda mais força entre suas ancas. — É minha — me encarando de volta, seu cabelo estava grudado em seu rosto pelo suor. — A virgindade do meu fofíssimo aprendiz — levantou-se, e de seus lábios inferiores, despejou-se uma longa linha branca viscosa. — Não se preocupe, eu não posso engravidar — comentou, caminhando até sua escrivaninha.

Continuei deitado ao chão, encarando o teto bruto de terra logo acima.

E depois de sabe-se lá quanto tempo, quando olhei de volta para a Mestra, ela segurava o próprio rosto com ambas as mãos.

— ...Eu te matei. O que estou fazendo? Você está morto.

Sem saber exatamente o que fazer, fiquei à espera de ordens pelas próximas duas horas, até que nos vestimos novamente, e partimos para um dos depósitos da Mestra; uma sala qualquer cheia de cadáveres de aliados e inimigos.

Alguns feitiços depois, a Mestra havia coletado gordura o suficiente como combustível, e reanimado dois dos mortos, um homem e uma mulher, e reparado seus ferimentos. Tomou um broche de borboleta de um dos alvos reanimados, e mandou-os até as habitações dos soldados com a instrução de que eles tinham “duas horas”.

Era bom que todos estivessem bem descansados, não sabíamos quando o próximo ataque aconteceria, afinal. 

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