Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 36

Capítulo: 36

Armas desenvolvidas em segredo por séculos pelas organizações mais poderosas da Origem, capazes de achatar montanhas, secar oceanos, transformar metrópoles inteiras em crateras vazias, e assassinar qualquer pessoa em qualquer lugar através das raízes invisíveis que conectam nossa própria consciência. Armas tão absurdas que podiam fazer alguém duvidar da própria natureza da realidade por permitir tamanha destruição.

Meros brinquedos perante o controle sobre leis arbitrárias da realidade que os astros monopolizavam.

Disparado pelo próprio sol, um arco-íris cortou através das nuvens e do campo de batalha e caiu sobre mim como uma força punitiva, uma represália do próprio universo por ter me atrevido a desafiá-lo. Num instante, a luz reduziu tudo o que restava da Floresta Vermelha, bem como os campos e montanhas ao redor desta a um plano campo de fósseis de opala vividamente coloridos, exércitos e espécies inteiras desfeitas num instante por seu poder absoluto. Com exceção de um único ponto.

— Huuurhg...! — eu me ajoelhava sob o feixe massivo de energia, o afastando com minhas próprias mãos.

Meu corpo era bem como antes do ataque do Receptáculo, e isso era por minha própria vontade.

— Você também... Não é meu mestre! — me levantei, estapeando o arco-íris com as costas da minha mão e dissipando o raio solar também pela minha própria vontade.

Olhei ao redor e não restava nada além de estátuas de pedras preciosas, a forma dos objetos tão frágil quanto porcelana para aqueles que dominavam A Arte...

Para aqueles como eu.

— Voltem — produzindo uma estrela de muitas pontas, controlei cada uma das partículas fundamentais que um dia já compuseram aqueles seres vivos, mas então estavam dispersas por muitos horizontes, e as ordenei bem como eram apenas alguns segundos atrás. Com uma exceção: — Vocês viram o que eu posso fazer. Todos vocês. Eu garanti que vocês teriam essa memória quando lhes refiz partícula por partícula.

À minha frente e no meio do meu vilarejo, um grupo de pessoas que desejava ter o mundo na mão; autointitulados seres perfeitos, sábios, herdeiros legítimos, e até mesmo uma estrela do mar especialmente grande estava presente.

— Agora, é contra meus princípios forçar as pessoas a me obedecerem por força, mas... eu não seria hipócrita por seguir a minha própria vontade, e se vocês ameaçarem esse vilarejo ou seus habitantes mais uma vez, eu não vou apenas matar vocês, mas vou perpetuamente reconstrui-los num abismo de chamas. Entendido? — lentamente, aqueles líderes assentiram suas cabeças (ou o que eu julguei ser suas cabeças). — Bom — brandi uma mão, e desapareceram todos, levados para muitos horizontes de distância, suas casas.

— M-Mestre...?! — uma jovem mulher de pele negra como obsidiana e cachos brancos como ossos se aproximou, não boquiaberta, mas- — Isso é um sonho! — me abraçou. — Eu estou tão, tão feliz!

— Para mim também. Eu também estou tão, tão feliz — devolvi o abraço, também sorrindo.

— Mas que pesadelo — Salessandra, por outro lado me encarava, boquiaberta.

— Machius, o que... o que aconteceu?! — Ed quis saber, tremendo.

— Eu... melhorei como um artífice?

— Nenhum artífice poderia ter feito algo assim! — Salessandra berrou, atirando as mãos ao alto. — No mínimo, você reescreveu nossas memórias por completo e fez desaparecer todas as armas secretas daqueles malucos! E no máximo, você... você...

— Ascendeu como um Astro — Versus me encarava muito sério.

— Hooo! Ho! Ho! Ho! — Felicita riu alto. — Eu disse que o Mestre era o mais forte! Venho dizendo isso desde o começo! Hooo! Ho! Ho! Ho!

— Não, não o mais forte, nem um astro — eu disse, olhando para cima e para os incontáveis astros e estrelas que brilhavam tanto. — Ainda há tão, tão mais o que crescer. Mesmo agora, não consigo quebrar todas as regras.

— Do que... você está falando, Mestre?

Fiz um cafuné na cabeça de minha aprendiz com a maior delicadeza que a superfície dura de minha mão permitia.

— Mestre?

— Eu sinto muito, Felicita. Eu preciso ir.

— Eh? Ir? Para onde?

Lentamente, meus pés levitaram-me para longe do solo.

— L-Leve-me com você! Mestre!

— Eu não posso.

— Por que não?! Mestre! Por quê?! Por quê?!

— Ainda existem mais alguns... “líderes” cabeça-duras que pensam que estou tentando usurpá-los, acredite ou não — expliquei, cada vez mais distante dos meus amigos, da minha aprendiz e dos aldeões aos quais me apeguei tanto. — Sinto muito, Felicita, mas dessa vez, realmente não posso levá-la comigo. Mas sei que vamos nos ver de novo. Eu vou estar esperando por você — eu já partia as nuvens com meu corpo, mas minha voz ainda os alcançava a tantos horizontes lá abaixo sem problemas. — Salessandra, Edgardo, vocês foram os melhores amigos que já tive, e eu não teria chegado aqui sem vocês. Versus, eu também te devo uma... mais do que uma, na verdade. E quanto ao resto de vocês, pessoal, é como sempre foi até agora. Vocês são livres para fazer o que quiser, e o que vocês querem é a escolha certa... mas o tempo que passamos juntos foi o período mais feliz da minha vida inteira. Para todos vocês, obrigado.

Ascendi à imensidão sem luz ou vontade própria, para além da Origem: a vendo por inteiro pela primeira vez, era como um enorme verme de carapaça dura enrolado numa bola. O astro me fitava, rancoroso, mas também relutante demais para gastar energia numa briga com alguém que pensava trabalhar para outro astro, ou ainda ser um ser como ele, mas disfarçado... Aumentavam de tamanho e poder, mas aquele tipinho não mudava tanto assim em suas visões, pelo jeito.

Qualquer expectativa que eu tinha de que meu novo lar seria diferente morreu ali mesmo. Mas eu precisaria aprender muito mais. Refinar minha técnica. Refinar minha alma. Refiná-las para muito além daquilo que eu já havia feito. O universo antes do universo era um não-lugar de criação, e eu queria criar desimpedido.

Por isso, parti sorrindo. Havia uma pessoa que me via como o mais forte, e eu não queria desapontá-la quando nos reencontrássemos.

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