Capítulo: 33
— Todos os vermes-tubo ao redor do vilarejo já foram devorados, mas quando mandamos alguém abater uma das criaturas mais distantes, eles são atacados por membros de uma ou outra facção — Ed explicou. — Também destruíram nosso sistema de captação de água.
— Mande Versus acompanhar os lenhadores da próxima vez. Diga para coletarem o sangue dos vermes também, ele pode nos sustentar por mais um tempo antes de nos intoxicar por excesso de vitamina — sugeri.
— Você tem certeza? Se o velho for emboscado, vamos perder um dos nossos dois mais fortes combatentes — Salessandra questionou.
— Eles vão precisar de uma força extrema para matá-lo, o que não vão arriscar. Ainda não. Não enquanto não tiverem certeza de com quem estamos aliados — expliquei.
— Certo — Ed concordou.
— Bem, do nosso lado, não vai nada certo — minha amiga coçou a cabeça. — Tremores têm acontecido cada vez com mais frequência, nossos túneis colapsam um atrás do outro.
— Devem ser as tuneladoras do Sindicato — eu não duvidaria se estivessem enchendo o subsolo de explosivos para mandar a todos nós aos ares. — Se elas já estão aqui, é inútil tentar uma fuga pelo subsolo.
— Isso pode assustar o povo, fazê-los pensar que não há mais escapatória — Ed apontou.
— Diga que as escavações foram, na verdade, para criar um abrigo, que o buraco pode protegê-los no caso de um conflito. Preparar tal abrigo deve mantê-los ocupados o suficiente para que não pensem nisso — respondi.
— ...Pesadelo, tá bom — Salessandra franziu o cenho, mas concordou. Pouco antes de deixar minha casa com Ed, reportou, sem olhar para mim. — Ah, e mais uma coisa. Sua vizinha morreu dos ferimentos do último ataque.
— ...Entendo. Enterre-na junto dos outros.
Sozinho, subi a escada até meu quarto no segundo andar.
“BAM!”, lá, soquei a parede, rachando o exoesqueleto que a compunha.
— Mestre... — Felicita, quem me acompanhou através da reunião até ali em silêncio, tocou meu ombro carinhosamente. — Ahm... Uhm...
Suspirei, me endireitando.
— Está tudo bem. Nenhum dos inimigos quer dar o primeiro passo, pois sabem que o primeiro que usar sua carta na manga vai ser o primeiro a cair. Nós temos, ao menos, essa vantagem. Eu só preciso descobrir como usá-la eficientemente... Não, talvez eu já saiba como fazê-lo.
Me sentei à minha escrivaninha. Uma pilha de cartas descansava à minha frente, todas contendo discursos de ódio e perdão em partes iguais; convites para me juntar a um lado ou outro. Eu só precisava abrir mão de parte de mim mesmo e da vida de tantos outros de meus amigos e companheiros para ser aceito por alguém.
Quem sabe? Talvez nem todos aqueles comprometimentos fossem tão ruins assim.
Ajudar o Primor Gênito a impor seu senso estético a todos, exterminando aqueles que se pareciam comigo ou Salessandra e Edgardo? Talvez eu conseguisse uma exceção para aqueles mais próximos de mim, mas com certeza aquilo deixaria um gosto ruim na boca...
Ficar do lado do monastério e usar de um terror antigo para assassinar aqueles que não acreditassem no mesmo que eu? Não era uma opção tão diferente da anterior, considerando que eu não compartilhava tais crenças.
Pensando bem, todos eles eram tão similares...
— Desde sempre, desde o começo — apertei os olhos, encarando a pilha de cartas. — Sempre a mesma coisa. Fraco demais, forte demais. Jovem demais, velho demais. Feio demais, bonito demais! — empurrei as cartas para longe, derrubando-as ao chão. — Esse ideal que eles exigem sequer existe!? Ele sequer pode existir!? Não! Mesmo se você matar e matar e matar e matar, e empilhar corpos até o próprio sol!
— E-Eu confio no Mestre! O Mestre é o mais fo- Kuh! — fechei minha mão ao redor do pescoço de minha aprendiz, a interrompendo e erguendo seus pés do chão. Eu a sufocava.
— Mas que pesadelo, eu já disse que não faço milagres!
— Mes... tre...! — Felicita gaguejou, seu rosto mudando de cor. — Se é... sua ordem — parou de resistir.
— Minha...?! — soltei-a. — Vá.
— Mestre? — Felicita chamou, tocando o próprio pescoço depois de recuperar o fôlego.
— Eu sinto muito. Por favor, me deixe sozinho.
Ela obedeceu, ainda que relutante, e sentei-me à minha escrivaninha mais uma vez.
Quando Versus retornou com suprimentos e mais cartas deixadas para trás pelos nossos inimigos, o que li foram apenas ultimatos: eu tinha 24 horas para decidir a quem servir.
✹
19 horas depois, eu observava o sol nascer de minha janela, segurando uma folha de papel.
Na carta de minha autoria, eu jurava lealdade em troca da garantia de segurança de meus amigos, meus companheiros, e a minha própria. Mas, na parte em que deveria estar escrito o nome da facção à qual eu me aliaria, havia apenas um espaço em branco.
Suspirei, lamentando não poder sentir o frescor do ar da madrugada encher meus pulmões artificiais.
— No fim das contas, acho que... Huh? O que é aquilo? — apertei os olhos. — É... uma montanha?
Definitivamente parecia com uma montanha. Exceto que estava se aproximando.
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