Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 26

Capítulo: 26

Comparada com a aeronave do Sindicato, aquela que nos transportava por sobre a imensidão da Floresta Negra naquele momento era muitas vezes menor, mais lenta e mais barulhenta; quase sem decorações, era um mero triângulo de aço dividido por tubos e outras peças de cobre.

— Mercenários, né? E clandestinos ainda. Não precisam se preocupar, eu não vou dedurar vocês nem nada, hahaha! — o piloto comentou, vestindo uma roupa restritiva improvisada; medidas contra azar. Ajeitou um chapéu de vaqueiro antes de continuar: — Honestamente? Eu odeio artífices e essa galera toda. Olha só, a cidade rio acima? Contra Corrente? Deixaram ela aos bichos! Se dependesse de mim, não existiria Sindicato, nem Patronato, nem nada.

— Palavras sábias — respondeu Salessandra.

— É, só que é aquilo, né? Se todos são ruins, a gente escolhe os menos ruins — deu de ombros. — Tem que seguir alguém, né?

— Piloto, estamos mudando de direção? — notei que não seguíamos para o assentamento mais próximo.

— Haha, só um pequeno desviozinho. Normalmente, eu reservo essa rota para aqueles que pagam pelo circuito turístico, mas heróis como vocês merecem uma exceção.

— Oh, atrações? — Ed aproximou-se da janela. — Onde, onde?

— Você quer trocar de assento? — sorri para minha aprendiz.

— Meh, meus cuidadores já me levaram para ver todo tipo de atração. Honestamente, depois da milésima cachoeira ou canyon, todos parecem iguais.

— O que vou mostrar para vocês não é uma cachoeira ou canyon, moça, mas algo muito melhor! Ali, olhem! — o piloto sobrevoou uma cratera profunda, escondida pela própria borda, nos mostrando um enorme harpão feito de algo que parecia-se com ossos cravado ao chão.

A estrela cadente seria, de fato, impressionante o suficiente para prender nossa atenção, se não tivesse de competir com a imagem de uma aeronave tão massiva que cidades inteiras caberiam nela. Ao mesmo tempo.

— A-A Nave Absoluta?! — o piloto gaguejou, tão assustado que perdeu controle da própria aeronave por um segundo.

E não era para menos, aquela era possessão da família do Patrono Absoluto, os líderes do exército lealista; não apenas um palácio voador, com dezenas de torres crescendo como estalactites em sua barriga, como também todo um ecossistema na parte de cima, um terraço forrado por flores e árvores cor-de-rosa.

E como o quartel-general móvel dos líderes supremos de metade da nação, é claro, era muito bem guardado: nossa própria aeronave foi apreendida em instantes.

 

 

Muito para minha surpresa, pouco depois de sermos capturados, separados e termos nossos equipamentos confiscados por soldados muito apreensivos, em vez de sermos levados para uma prisão, nos guiaram para uma imensa mansão localizada bem em meio ao enorme jardim.

— Você, por ali — um dos guardas me empurrou.

— Para onde vocês estão levando meus amigos?

— Não seja ridículo, não vou me repetir para um serviçal! — disse o guarda de longa e lustrosa barba branca...

— Você é familiar. Eu te conheço?

O guarda sorriu antes de responder:

— Sua mestra conhecia. E fiz questão de que ela não poderia me acusar de querer roubar sua glória uma segunda vez.

Foi difícil controlar meu tom quando eu disse:

— Meus amigos-

— Seus amigos vão ficar no quarto de hóspedes — uma bela mulher me interrompeu, surgindo de um caminho por entre as árvores. Usava um lindo traje cor-de-rosa como se pétalas de flores, sua pele era sem falhas, e era simplesmente estonteante, seu rosto de boneca enquadrado por cachos também cor-de-rosa. — Você vai poder vê-los em breve, Machius de Toquestrela, eu apenas gostaria de convidá-lo para tomar um chá.

— ...Certo — segui a mulher.

— Vocês não precisam nos acompanhar, homens.

— P-Patrona Regente! — os guardas bateram continência e assumiram posto próximo à entrada da trilha na floresta.

— Eu peço desculpas por Emanuele. São tempos difíceis, e de repente uma aeronave estranha traz estranhos abordo.

— Tempos difíceis, é? — olhei ao redor, para o enorme jardim voador cheio de fauna e flora originária do Terra Perdida, a muito extinta em todo o resto de Origem. — Nem parece.

— Somos a Família Patrona Absoluta, o rosto da nação. Como representantes de todo o povo, não podemos fazer feio, não é? Além disso... — me apresentou uma mesa repleta de doces no meio de uma clareira. — Negociações sempre se saem melhor quando se tem chá e petiscos.

— Negociações? — me sentando à mesa, não hesitei em provar os doces bonitos. Me faltava o paladar (e eu jamais deixaria de lamentar esse fato), mas a sensação de satisfação era real.

— É claro. O lendário aprendiz da artífice lendária tem muito a nos oferecer, afinal — a Patrona Regente sorriu, sentada à minha frente. — E nós também temos muito a oferecê-lo.

— Eu não sei do que você está falando, moça. Eu só quero voltar para casa, e não estou muito a fim de voltar às linhas de frente.

— Hahaha, mas é claro! Que desperdício seria lhe jogar contra fogo inimigo como mera bucha de canhão. Não, o que eu quero saber é: quem é seu mestre.

— Ninguém.

— ...Entendo. É claro que você não simplesmente compartilharia tal informação tão facilmente — a Patrona Regente bebericou de uma delicada xícara. — Mas quem sabe o que eu tenho a falar sirva de incentivo.

A mulher me encarou séria, e eu soube: lá vinha...

— Nós sabemos sobre as ambições puristas. E sobre aquela dos rebeldes. E dos leviatãs, e dos piratas, e dos monastas, e sim, do Sindicato também. Você sabe o que isso significa, Machius?

— É, é, eu sei — toquei minha própria testa, já incomodado com o que se tornava rotina. — Significa que vocês também têm sua própria arma secreta, e estão superconfiantes nela e que podem derrotar todos os outros “idiotas” cujas armas secretas e planos de dominação da Terra são, definitivamente, piores que os seus. Olha, moça, eu não trabalho para ninguém, e definitivamente não tenho ambições de conquista nacional ou multinacional.

— Então você é um tolo! — gritou uma segunda mulher, tão bonita quanto a primeira, mas mais jovem, com um tapa-olho e vestida dos pés à cabeça de preto. Apontando uma espada ao meu pescoço, comentou: — E não preciso de tolos.

— Lareana, minha filha — a Patrona Regente limpou os lábios, decepcionada. — Como a futura Patrona Absoluta, você deve logo aprender virtudes de paciência e elegância. Se você quer ameaçá-lo, por que não ordenar a execução de um de seus amigos?

— Vadia doida — a herdeira legítima sorriu, mostrando os dentes, e fez como a mãe sugeriu, alcançando seu rádio e ordenando: — A puta fria, matem-na.

Suspirei, tornando a comer o delicadamente decorado (e provavelmente delicioso) bolo a mim oferecido.

— Ora? Pensei que você se importaria mais com seus companheiros. Acho que esperei demais de um serviçal, afinal — a Patrona Regente franziu o rosto bonito. — Bem, se não precisamos deles...

— Estão me ouvindo, pesadelo?! — a herdeira reclamou, encarando o próprio rádio. — Confirmam a morte daquela coisa?

— Hmm, que estranho, né? — apontei, alcançando os biscoitos a seguir. —Talvez o rádio daquela unidade tenha dado algum problema?

— Lareana, contate a todos os guardas estacionados na mansão.

— E-Estou tentando, mas... Nenhum responde.

A Patrona Regente me encarou, em silêncio, parada como uma estátua.

Sua filha, porém, não demonstrou o mesmo autocontrole.

— Argh, deixa que eu faço esse porra falar eu mesma! — brandiu sua espada contra mim. Ou, ao menos, tentou. — U-Uh...?!

— F-Filha? — a Patrona Regente encarou, empalidecida, a filha com cujo corpo enrijecera-se de repente. — O que você fez com ela!? — levantou-se, sua cadeira caindo na grama.

— Em vez de exigir que eu te explique todos os detalhes de minha “genialidade”, como vocês adoram fazer, por que você só não encara os fatos? Eu não possuo artefatos mágicos no momento, e ainda assim posso fazer o que bem entender com qualquer pessoa nesta aeronave. Isso não é o suficiente? — exagerei um pouco, uma vez que, desarmado, eu poderia controlar apenas algumas dúzias de pessoas. Mas era conveniente que, já que os fios que me conectavam com minhas marionetes eram tão finos, as estrelas que eu produzia ao conjurar esses feitiços eram igualmente discretas.

— M-Mas, eu sou uma marechal de quatro pontas! E os guardas chegam até cinco! — disse a herdeira. Trincando os dentes, rejeitou a realidade: — Isso é inaceitável! Um ultraje! Me solte agora mesmo, seu serviçal imprestável!

— Faça como sua mãe disse e aprenda umas virtudes, tá bom? — fiz com que minha marionete mantivesse a boca fechada. — Agora, como agradecimento pelos doces... — me levantei da mesa, alisando minhas roupas com as mãos. — Eu repito: não tenho mestres. E espero que entendas que o fato de eu não ter matado você e todos dentro desta aeronave é prova o suficiente disso. Então, se puder liberar meu piloto e meus amigos, eu agradeceria — dei as costas às mulheres e segui de volta à mansão e ao cômodo de hóspedes.

No dia seguinte, retomamos nossa viagem com suprimentos renovados e até uma escolta... E um certo guarda barbudo da família Absoluta sofreu um acidente terrível ao cair da aeronave.

 

 

— Por que você o deixou fugir?! Me responda, mãe!

— Não seja tola, Lareana! Se sem arma alguma aquela aberração já era forte o suficiente para massacrar essa fortaleza inteira por si só, imagine usando uma arma ancestral. Pesadelo, podemos estar sob seu controle até agora — mordi a unha de meu polegar. — Precisamos nos apressar. Não sei para quem aquele serviçal trabalha, mas é evidente que subestimamos o desenvolvimento de armamentos de nossos inimigos... — censurou a mim mesma. — Vamos recuar nossas forças do campo de batalha.

— O quê?!

— Qualquer território que não é essencial ao desenvolvimento do “Projeto Armão” pode ser abandonado sem ressentimento. Se não retomarmos a dianteira em nossas pesquisas, será o fim. Vamos acabar com qualquer competição, todo e qualquer inimigo em três anos- não! Um ano. Em um ano, ou essa Origem vai pertencer a nós, ou a ninguém.

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