Capítulo: 4
— O inimigo se abriga no porão de um hospital improvisadamente fortalecido. Os andares superiores já foram bombardeados às cinzas, mas o subsolo possui geradores, purificadores de ar e água, e suprimentos o suficiente para que os malditos sejam um incômodo por anos, a menos que lidemos com eles antes que estabeleçam uma linha de suprimentos — minha Mestra explicou para a meia dúzia de artífices procuradores que liderava, todos pálidos e de lábios e de bocas negras. Cadáveres ambulantes. — Os brutos perderam uns três mil dos seus numa série de invasões frustradas, e a estratégia da vez é exatamente a mesma de sempre, mas agora mandando a gente à frente a fim de culparem o Sindicato pelos seus fracassos para não serem executados por incompetência grosseira.
— Pft! Como se metade de seus equipamentos não tivesse sido produzida por nós — disse uma mulher com cabelo raspado que segurava um longo rifle. — Deveríamos relembrá-los quem foram aqueles que bombardearam o prédio!
— Concordo com Salessandra. Eles sequer podem operar artefatos, se alguém aqui é um verdadeiro recurso prioritário, somos nós! — concordou um homem magro e alto que carregava um par de revólveres antes de atirar uma goma cor-de-rosa na boca, um estimulante popular vindo da seiva de árvores formigueiro.
— Salessandra, Mililiano, continuem a pensar assim e vocês não vão durar muito tempo — apontou um artífice baixinho, cujo rosto era escondido por uma balaclava. — O campo de batalha não favorece a ninguém.
— Você saberia disso, né, Edgardo? — com um meio sorriso, um homem caolho e obeso zombou dos companheiros, acendendo um charuto com a tocha de seu lança-chamas.
— Guilmar... — Edgardo murmurou.
— Se vocês não queriam lutar, deveriam ter se juntado às outras Ordens. Procuradores existem para matar coisas. Na verdade, deveriam estar felizes que finalmente estamos sendo úteis para algo além de coletar bugigangas para os nerds ou recrutar pirralhos por aí — os demais franziram o cenho ou cerraram os punhos, mas não desmentiram Guilmar. — Então? Qual o plano da vez, Décima?
— Salessandra vai nos oferecer cobertura daquela caixa d’água. Edgardo e Mililiano vão avançar o máximo que puderem sozinhos; não se preocupem em de fato alcançar o prédio, mas façam o máximo de barulho que puderem. Guilmar e eu vamos até as valas — a Mestra relatou, imperturbada.
Todos assentiam, menos um.
— Espera aí. E quanto ao pirralho ali?
— Meu serviçal vem comigo. Será meu escudo.
Apertei o cabo de meu revólver, me preparando para entrar em combate.
— Uau, serviçal? Do tipo artífice ainda. Qual o nome dele? — quis saber o mascarado, Edgardo.
— Um serviçal não precisa de nome. Agora parem de desperdiçar meu tempo e vamos já às nossas marcas; a operação começa em doze minutos.
— É isso que eu gosto de ouvir — o de lança-chamas, Guilmar, tirou o charuto dos lábios e, ao passar por mim, apagou-o na minha bochecha. — Espero que você sirva para algo além de apagar charutos, hahaha!
✹
Esperando próximo à minha Mestra, escancei o cenário em busca de possíveis ameaças; vi soldados com espadas, arco e flechas, bestas e lanças esperavam, atentos, entre os restos do que um dia já havia sido um hospital.
Também vi uma vala que um dia deve ter sido um obstáculo cavado pelos defensores do hospital, mas então via-se cheia de cadáveres, e por todo lado os céus límpidos refletiam nos enormes trechos de vidro ao chão resultante do bombardeamento mágico, o vermelho do anel de sangue que circundava nosso astro, Origem, mesclava-se com o sangue dos mortos à base do aclive que levava à base inimiga.
O mero fato de que eu existia era prova o suficiente de que o Sindicato era capaz de feitos incríveis mas, possuindo apenas as memórias quando Machius ainda era vivo, eu me surpreendia com a destruição do campo de batalha mesmo assim.
— Bombardeio a caminho — minha Mestra comentou, lendo os braços de um relógio de bolso.
Segundos depois, uma intensa luz brilhou à distância, sua forma de estrela de quatro pontas quase irreconhecível de onde eu estava, e os soldados inimigos rapidamente desceram escadaria abaixo. Bem a tempo.
Uma tempestade de chamas choveu sobre os restos do hospital, derretendo pregos e canos expostos.
— Hahaha! — Guilmar gargalhou, levantando-se de seu esconderijo, apesar do calor intenso o suficiente para causar danos à pele. — Tá na hora do show — vagarosamente caminhando adiante, o caolho puxou um dos dois gatilhos do seu lança-chamas e emitiu um jato de água, formando uma barreira a nossa frente. A Mestra e eu o seguimos de perto.
— Cinco... quatro... três... dois... um... — na contagem regressiva, o tornado de chamas dissipou-se, como se nunca tivesse existido, e no instante seguinte, sem desperdiçar um segundo sequer, os demais artífices saltaram de seus esconderijos e correram a toda velocidade adiante. Ao mesmo tempo, nós três nos escondemos novamente.
Não demorou para que os primeiros disparos fossem ouvidos. Espiando por sobre uma parede de tijolos semidespencada, vi Mililiano disparando esferas verdes de seus dois revólveres na direção dos inimigos, que rapidamente derretiam em contato com tal líquido. Mas sua posição era desvantajosa e seus feitiços atingiam, na maioria das vezes, apenas escombros. E logo, nem isso, uma vez que passou a enfeitiçar apenas as inúmeras flechas que eram disparadas contra ele.
— Não têm artífices? Haha, isso vai ser um massacre — Guilmar lambeu os lábios.
— Estão dentro do porão. São mais úteis lá, protegendo a todos de bombardeios — explicou a Mestra.
Mililiano, sobrecarregado, foi atingido numa perna por uma flecha de besta e fraquejou.
— Já era, esse — apontou Guimar, despreocupado.
Uma explosão repentina, porém, desviou trajeto dos projéteis inimigos: Edgardo avançava ainda mais adiante que o companheiro, disparando um lança-granadas a torto e a direito.
Não apenas isso, sangue inimigo fora derramado quando uma pequena faca rapidamente atravessou todo o campo de batalha por si só e atingiu o peito de um rebelde, matando-o instantaneamente.
Por algum motivo, me peguei encarando a cena por muito mais tempo que o necessário; Morrogna e Guilmar já preparavam-se para prosseguir.
— Vamos — ordenou minha Mestra, e obedeci.
Enquanto os inimigos distraíam-se com os outros três artífices que produziam o máximo de caos possível, nós finalmente alcançamos a vala.
— Queime — Morrogna instruiu simplesmente.
— É pra já! — Guilmar cuspiu chamas de seu artefato-arma, que produzia um pequeno círculo de estrelas de quatro pontas, e as labaredas intensas rapidamente envolveram e consumiram os cadáveres.
Quando a fedorenta fumaça negra de carne carbonizada começou a flutuar, minha mestra sacou a arma que carregava no coldre próximo ao peito: um esguio revólver com uma baioneta serrilhada, uma arma de tambor de seis balas com cabo de marfim e metal entalhado com imagens de amantes.
— Não desperdice meu tempo — comentou Morrogna, puxando o gatilho.
E o feitiço de sete pontas que disparou atingiu a própria fumaça, dissipando-se na enorme cortina de gases negros.
— Sete pontas, huh? No limite do azar que nossos corpos podem suportar — Guilmar admirou-se quando a cortina de fumaça, por inteira, mudou de rumo e seguiu na direção da base inimiga.
Quando os rebeldes perceberam que havia algo de errado, que apenas dois atacantes avançavam contra sua base e uma única artífice atacava de longe, já era tarde demais: toneladas de gases de carbono, fuligem e vapor cegavam-nos e cozinhavam-nos vivos.
— Para a colina — ordenou Morrogna, girando o tambor do seu revólver, selecionando outro feitiço e disparando dessa vez para o alto; provocou uma explosão de luz verde, e os guerreiros do exército correram na direção das ruínas do hospital, uma centena de homens com espadas, escudos e machados, armas de corte e impacto, e vestindo sobretudos decorados por penas de arara por sobre armaduras leves de malha.
— Mestra? A fumaça — apontei como não conseguiríamos nos aproximar da base inimiga tanto quanto os inimigos não poderiam sair dela.
— Você deu permissão para essa coisa falar por conta própria?
— A pergunta é: eu dei tal permissão para você, Guilmar? — o caolho deu de ombros e apenas seguiu em frente em silêncio. Sem olhar para mim, Morrogna explicou, impassível: — E quanto a você, serviçal, não me compare com aqueles canhões fabricados em massa.
A Mestra estalou um dedo, e a fumaça que assombrava as ruínas do hospital amalgamou-se num ponto cada vez menor, até todo aquele material orgânico tomar a forma de um enorme braço de carne apodrecida e garras afiadas.
O braço agarrou as portas de aço do porão e puxou enquanto artífices e guerreiros posicionavam-se.
No mesmo instante em que as portas foram arrombadas, o braço foi dilacerado por uma saraivada de feitiços e flechas, inimigos saltaram de alçapões secretas ao exterior da ruína, nos cercando, e um pandemônio caiu sobre nós.
— Ah — quando me dei conta, um guerreiro já brandia sua espada contra minha cabeça, mostrando-me todos os dentes num rosnado.
“Vush!”, sua lâmina passou por cima de mim quando me agachei.
Tentei perfurar-lhe a barriga, mas falhei em romper os anéis de aço da malha que o protegiam e, no instante seguinte, um poderoso impacto em meu cocuruto me atirou ao chão. Eu havia sido atingido pelo pomo de sua espada.
Vendo sua lâmina despencar uma segunda vez contra mim, lembrei-me dos implementos metálicos que fortaleciam meus ossos, tentei bloquear o ataque, percebendo tarde demais que sua espada emitia um leve cintilar branco, envolta em pequeninos pontos de luz.
O fio inimigo talhou meu braço como uma faca quente corta a manteiga, deixando-o ainda conectado a mim apenas por uma fina tira de pele.
Por mais pequenos e mortos que fossem os vestígios do Machius que já fui dentro de mim, senti vontade de gritar. Mas não o fiz. Em vez disso, apontei meu revólver e disparei um feitiço contra o pescoço de meu atacante.
Imediatamente após ser atingido, o inimigo enrijeceu-se, sua expressão passou de raiva desenfreada num instante para desespero sem proporções no outro. Protuberâncias terríficas surgiram por todo seu corpo conforme seus ossos cresciam rapidamente, e logo estes perfuraram sua pele por todos os lados, transformando o homem por completo num chafariz do próprio sangue.
Encarei o cadáver pelo que me pareceu uma eternidade, até sentir um chute às costas.
— De pé, serviçal! — Guilmar exibia um sorriso de orelha a orelha. — A parte boa vem agora.
Entendendo que o perigo na superfície havia sido resolvido, acompanhei o artífice caolho e minha mestra porão abaixo.
— ...Seu braço.
— Está tudo bem, posso resistir à perda de sangue por mais vinte e três minutos, Mestra — a saldei com meu braço restante, o outro membro tendo se perdido algum momento depois que matei meu oponente. — Meus sistemas tensionam os músculos de meu braço, atrasando a perda de consciência e desligamento.
Morrogna me encarou por um minuto, mas não respondeu, e enfim continuamos nosso caminho.
Quando alcançamos o coração da base inimiga, nossas forças já haviam quase aniquilado os rebeldes resistentes. Alguns rendiam-se perante as lâminas de nossos homens gargalhantes, veementemente instruídos pelos artífices operadores das máquinas de guerra para não matá-los. Outros lutavam até o último suspiro em túneis toscamente cavados que estendiam-se por sabe-se lá qual distância. Isolados sem as tuneladoras do Sindicato, aquilo era o melhor que podiam fazer.
— Isso, isso. Eles devem ter guardado as coisas boas em algum lugar por aqui! A birita, os cigarros, as pílulas, onde estão?! — Mililiano cuspiu uma massa descolorida de goma e lambeu os lábios com um sorriso.
Foi interrompido em sua busca, bem como todos nós:
— Décima! — chamou um soldado de longa e lustrosa barba branca. Vestia uma armadura completa de aço por sob o sobretudo tradicional, exibindo também, porém, um capacete com penas azuis; um patrono e oficial de alta patente. — Sua missão foi cumprida, retorne à base e faça um relatório imediatamente.
— Querendo a glória toda para si mesmo, sem nem mesmo ter derramado sangue, velho Emanuele? — Morrogna sorriu.
— Não seja ridícula! E pare de desperdiçar meu tempo e faça como eu digo!
— Consumimos muitos recursos nessa operação, precisamos garantir que o reestoque não vá somente para seus bombardeiros — a Mestra explicou, e o patrono atirou um olhar cheio de desprezo para os artífices operadores de canhão que contavam os reféns.
— ...Nós vamos garantir-
— Vinte minutos — minha mestra me puxou pelos cabelos violentamente. — É o tempo que temos antes que meu transmissor em tempo real morra por hemorragia.
— Transmissor em... ! — Emanuele empalideceu. — E-Então, vá logo.
— Fufufu, mecenas. Sempre tão mesquinhos — Morrogna resmungou alto o suficiente para que o oficial a ouvisse, mas este fingiu ignorância e engoliu a raiva.
Dentro de um dos túneis inexplorados, nos separamos em grupos menores e logo achamos uma sala bloqueada por caixas, barris e móveis do outro lado.
— Deixa comigo, Décima! — Guilmar conjurou uma bola de fogo que explodiu a entrada para o bastião de rebeldes. — Ora, ora, ora, quantos ratinhos temos aqui! Um, dois, três... temos simplesmente tantos deles! — homens e mulheres feridos e assustados encolhiam-se aos cantos da sala recentemente cavada.
— Precisamos deles vivos-
— Ei, ei! Décima! Nós não precisamos de tantos assim, correto? Tudo bem se... Eu BRINCAR um pouco com eles?! Hyaaah! Hahaha! — Guilmar, sem ordem prévia, incendiou um par de rebeldes.
— E-Eles vão matar a todos nós!
— Seu gordo idiota — Morrogna sacou seu revólver, franzindo o cenho.
Desesperados, os sobreviventes tomaram as armas que haviam depositado à sua frente e avançaram.
— Aaah! — um rebelde enfaixado por bandagens sujas atirou-se sobre Guilmar com uma espada longa.
— Opa! — o artífice obeso e caolho puxou-me pelos cabelos e me pôs no caminho da lâmina inimiga.
Fui dilacerado, partido em dois por uma lâmina voraz; minhas entranhas esparramaram-se ao chão como lavagem atirada aos porcos.
— Alvo errado, haha! — Guilmar gargalhou, atirando a metade superior do meu corpo para o lado e apontando sua arma ao atacante.
Minha visão escurecia rapidamente, tamanho dano ao meu corpo sendo demais mesmo para os milhares de sistemas complexos dentro de mim sustentarem. Mas antes que minha consciência se esvaísse por completo, vi o massacre de Guilmar sendo interrompido quando um feitiço de minha Mestra transformou seu corpo numa árvore de órgãos, sua coluna vertebral brotando como uma planta das costas do homem, seu excessivo número de corações ainda todos conectados a esta.
Morri uma segunda vez.
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