Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 22

Capítulo: 22

A aeronave, pouco maior que um carro e similar a uma água-viva ou uma flor, cada um de seus tentáculos ou pétalas se movendo rapidamente, nos trouxe a uma enorme fissura à base de um vulcão inativo no meio de uma densa selva de copas negras a muitas horas de viagem do Limite.

Uma vez que a aeronave pousou ao fundo do abismo, numa plataforma metálica bem iluminada, fomos imediatamente guiados para uma instalação construída no interior de uma das paredes escarpadas do abismo; corredores e salas metálicas, lâmpadas sobre nossas cabeças e abaixo de nossos pés a cada passo, e amplos espaços onde inúmeros artífices pesquisadores e produtores trabalhavam em enormes máquinas que continuamente cuspiam novas linhas escritas em rolos de pergaminhos afixados em si, ou em tubos de vidro igualmente grandes que pareciam conter pedaços de matéria orgânica.

— Não posso dizer que sinto falta disso — Salessandra comentou enquanto passávamos em frente a uma sala de operações, onde um grupo de artífices costurava novos corações a uma pessoa desacordada.

— A senhorita Salessandra já esteve aqui? — Felicita perguntou.

— Nah. Esse lugar não está em nenhum mapa, mesmo os dos próprios membros do Sindicato. Mas já estive em muitas outras instalações parecidas. Todo artífice já esteve — atirando um olhar de esguelha aos artífices que nos escoltavam, adicionou: — E eles são sempre cheios do mesmo tipo de babaca.

— Salessandra, talvez seja mais sábio esperarmos pela decisão dos nossos... anfitriões antes de insultá-los — Edgardo se pôs entre Felicita e outro artífice que nos guiava.

— Você também já esteve em lugares como esse muitas vezes, senhor Ed? É tão ruim quanto a senhorita Salessandra diz? Eu sei que o Sindicato queria destruir a mim e minhas irmãs, e por isso eram nossos inimigos, mas nunca nos detalharam sua vilania.

— ...Esse é um lugar de poucos.

— Entendo... E mesmo com essa hostilidade toda, o Mestre conseguiu se destacar como nenhum outro artífice e manter um coração puro e ao mesmo tempo!

— Na verdade, eu não sou oficialmente um artífice. — Era verdade, eu não havia superado a Formatura, afinal.

— QUÊ?!

— Aqui, para dentro — os artífices procuradores equipados com armamentos ancestrais que nos escoltavam nos forçaram para dentro de uma sala selada.

Do outro lado da porta, uma sala circular espaçosa, e opostos a nós quatro, três tronos muito altos sobre os quais se sentavam os próprios líderes do Sindicato; um de rosto asquerosamente peludo com quatro vezes mais olhos do que o normal, outro com uma série de tentáculos rosados de carne crescendo no lugar dos olhos e nariz, e o último com uma cabeça muitas vezes inchada e coberta por veias dilatadas.

Os mesmos que casualmente me forçaram a um teste que custou minha vida. Os mesmos que mandaram a Mestra em missões suicidas e a abandonaram à própria sorte.

— Machius de Macus-

— Machius de Toquestrela — corrigi um dos membros do comitê triplo.

— ...Nós sabemos sobre os experimentos do Primor Gênito, bem como sobre as armas suicidas de Kálcaro, e dos testes com estrelas cadentes dos lealistas, e até das aspirações ridículas de piratas e organizações religiosas decadentes — os três completaram as frases um do outro, insuportavelmente repetindo a mesma baboseira que todos os outros. — Então não fique tão cheio de si só porque idiotas e supersticiosos te superestimam.

— Vocês me chamaram aqui só porque estão carentes, ou têm algo a dizer de verdade?

— Seu vira-latas insolente! — o artífice de oito olhos grunhiu. — Nós criamos você, pensas que podes mesmo nos desafiar?!

— De joelhos! — ordenou o artífice de tentáculos faciais, apontando uma palma a mim, produzindo uma estrela de sete pontas sobre minha cabeça.

E no instante seguinte, meu corpo parou de me responder; caí ao chão como uma marionete cujas cordas haviam sido cortadas.

— Machius!

— Mestre

— Pirralho!

Meus amigos tentaram ajudar, mas com um simples sacudir de dedos, o artífice de cabeça inchada os atirou para longe com tanta força que pude ouvir ossos partindo.

— Admitimos, não esperávamos que um mero serviçal como você pudesse evoluir, muito menos alcançar um nível de poder como o seu — os três tornaram a discursar, arrogantes. — Oito estrelas, não é... — continuaram, seus rostos nojentos contorcendo-se no que deveria ser inveja. — Claro, feitiços ridículos de oito estrelas, vindos de um escravo igualmente ridículo, mas dignos de um mínimo de atenção, supomos. Por isso, lhe oferecemos uma chance de viver sob nosso controle, sob o manto do Sindicato.

Por mais que eu tentasse retomar controle sobre meus membros, estes permaneciam imóveis; nem um único dedo sequer se movia. É claro, um artífice inferior não podia diretamente afetar seu superior, mas e se eles tivessem construído este artífice superior? Os milhares de intrincados feitiços que conectavam meu cérebro ao meu corpo não pertenciam a mim, não nasceram de minha própria intenção. Não, eu era apenas um cliente, os verdadeiros patrões eram aqueles sobre os tronos.

— ...Como se eu fosse aceitar isso! — trincando os dentes, rejeitei a oferta, rejeitei o controle, rejeitei a parte de mim que não era eu.

— O que...?! — o comitê triplo surpreendeu-se quando me coloquei de joelhos, meus braços e pernas tremendo, descontrolados, mas se movendo; minha força de vontade inundava os complexos sistemas mágicos dentro de mim e assumia controle.

— Tch! Então morra! — o artífice de cabeça grotescamente inchada mexeu em um painel escondido em seu trono, e este levantou-se sobre quatro patas de aço, revelando também um enorme canhão em seu meio.

“TRUM!”, disparou um arco elétrico.

— Maldito escravo! — reclamaram os outros dois membros do comitê quando saltei para longe do último ataque, e também transformaram seus tronos em máquinas de guerra. — Mordendo a mão que te alimenta!

— Não — respondi, correndo muito mais rápido do que os três conseguiam mirar, e rapidamente escalando o trono daquele de oito olhos. — São vocês que cospem no prato em que comem! — um soco foi tudo o que precisei para explodir a cabeça do artífice de rosto peludo, sua especialidade não sendo o combate direto.

— Mais um passo, e eu explodo seus amiguinhos! — o artífice que representava todos os produtores, aquele com tentáculos faciais, apontou seu canhão aos feridos. Subestimou-os. — Guah!? — sequer percebeu que Salessandra vinha conjurando uma pequena lâmina; foi atingido no peito com precisão de uma expert.

Ao mesmo tempo, Edgardo corria para a saída do outro lado da sala, carregando Felicita em suas costas.

— Inúteis — o líder dos procuradores ativou ainda mais mecanismos escondidos em seu trono, e o canhão da máquina de guerra abriu-se em quatro partes, expondo um enorme bloco de circuitos mágicos; um pesado pedaço de cobre com dezenas de milhares de linhas verde-azuladas conectando centenas de milhares de minúsculas criaturas presas em âmbar. — É assim que se usa uma máquina de guerra! — conjurou um feitiço de sete pontas que englobou a sala inteira, e raios choveram sobre todos nós.

Sem um artefato para responder à altura, pude apenas me esconder sob um dos tronos de quatro patas. Felizmente, Edgardo já havia tirado as outras da sala.

— Seu serviçal ingrato, vou te banhar de metal derretido! — prometeu meu inimigo enquanto seus raios liquefaziam a máquina de guerra sob a qual eu me escondia. — Hahaha- Uh? — parou de gargalhar quando percebeu que eu arranquei um pedaço do metal maleável do trono com minhas próprias mãos insensíveis e resistentes ao calor. — HAAARGH!? — recuou quando atirei o projétil improvisado contra sua cabeça.

Uma vez que a tempestade de raios desapareceu, corri na direção do último dos membros do comitê, mas este era mais ágil que os demais e, pensando rápido, acionou ainda um último truque do trono no qual sentava-se, e foi arremessado muito para cima junto de seu assento.

— S-Seu serviçal maldito! Pesadelo de escravo! Você vai se arrepender! — prometeu o inimigo, desaparecendo na escuridão acima.

— Machius! Vamos, temos que sair daqui! — Edgardo chamou da saída que arrombou.

— Sim. Vamos logo — segui até meu amigo antes que o Sindicato ativasse ainda outro mecanismo problemático.

Não cheguei a tempo de evitar o próximo mecanismo problemático.

“Vuush...”, o meio do chão da sala abriu-se de repente, inundando-a de um vapor congelante. E envolta nesse vapor, dentro de um tubo de vidro, flutuando num líquido verde, uma figura humana feminina, pálida, alta, de lábios e cabelos negros, linda.

— Mestra...?

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