Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 8

Capítulo: 8

O chão tremia e poeira caía do teto a cada novo impacto, soldados confusos e desesperançosos corriam de um lado para o outro; alguns escondiam-se, outros seguravam firme suas armas, paralisados, e ainda outros falavam de rendição.

— Seu idiota, você sabe o que acontece com soldados capturados?! Eles viram comida de artífices! — gritou alguém para lá do quarto da Mestra.

— Não... não, esse não pode ser o fim. Tem que haver uma saída, alguma coisa, algo... — Edgardo caminhava de um lado para o outro dentro do pequeno quarto tosco.

— D-Décima, o que faremos? — Salessandra questionou, segurando firme seu rifle.

Mas não houve respostas da Mestra, que fitava os próprios pés com expressão neutra.

— Décima! — Salessandra insistiu, balançando o ombro de Morrogna.

— Salessandra, tenho certeza de que a Mestra Morrogna está se esforçando para encontrar uma saída desta situação, mas esse tipo de pressão não vai-

— Agora não é hora de descansar, pirralho! — a artífice enfurecida gritou comigo. Tornando à minha Mestra, continuou: — Levanta esse queixo e tira logo a gente daqui, mulher, você é nossa chefe!

— Salessandra-

— Ela está certa, Machius — a Mestra, enfim, levantou-se, massageando os próprios olhos. — Como sua líder e mestra, eu tenho o dever de tirá-los daqui — caminhou até a porta.

No corredor do outro lado, flechas eram disparadas por nossos aliados à direita, e feitiços dos invasores à esquerda; rebeldes já percorriam os túneis.

“Bang!”, Morrogna atingiu um artífice inimigo em cheio, e seus ossos escaparam de sua prisão de carne, transformando-se numa espécie de teia de cálcio que embrenhou-se no teto, chão e paredes, bloqueando o caminho dos invasores.

— Vamos.

— P-Para onde? — Salessandra questionou, seguindo a Mestra de perto.

— Para a superfície.

— O quê?! Está acontecendo uma tempestade de vidro lá em cima, e os inimigos têm máquinas de guerra! Nós vamos apenas ser feitos em pedacinhos!

“Bang!”, a Mestra enfeitiçou um cadáver perfurado por flechas, e este transformou-se numa quadrúpede fera grotesca que logo se dispôs a caçar os invasores. “Bang, bang, bang!”, repetiu o processo e produziu ainda mais bestas que avançaram à nossa frente, garantindo passagem segura para nós.

— Vocês não vão — Morrogna concluiu, alcançando seu depósito: — Eu vou garantir isso — disparou um feitiço de nove estrelas contra a montanha de corpos acumulados ao longo de mais de um ano de resistência.

E logo, toda aquela massa em decomposição e cada uma das larvas que se alimentavam desta, cada osso quebrado, pele carbonizada, e chorume negro borbulharam, liquefizeram-se, e remodelaram-se numa única entidade massiva, uma inconstante aglomeração de podridão que pressionava o teto de terra e madeira acima.

Enquanto o aglomerado de morte ainda não tomava forma definida, mas apenas fragilizava mais e mais a estrutura da sala subterrânea em que se encontrava, minha Mestra tornou a me encarar.

— Meu fofíssimo aprendiz — sorriu, penteando uma mecha de cabelo para longe de meu rosto.

— Eh? — Salessandra levantou uma sobrancelha, mas minha Mestra não lhe prestou atenção.

Morrogna continuou:

— Sua Mestra foi uma idiota do começo ao fim. Não siga meu exemplo, tá bom?

— A Mestra não-

— Apenas me ouça. Meu mestre se foi antes que eu aprendesse essa importante lição, e agora cometo o mesmo erro. Mas você é diferente. Você tem talento de verdade, Machius.

— Eu... só consigo conjurar feitiços de até duas pontas, mesmo após tantos anos de treino.

— Eu não falo de algo tão superficial quanto técnica. Não há nada mais que possa ser ensinado a você depois de ter seu cérebro mexido pelo Sindicato e passado tantos anos sob minha tutela e a de Edgardo. E olhe para mim: a artífice mais talentosa em oitocentos anos, enfiada num buraco no chão, encurralada por uma turba com ferros pontudos e uma ou duas dúzias de artífices provedores pilotando máquinas de guerra, fufu — Morrogna pôs uma mão sobre meu peito duro e cheio de engrenagens. — Eu não posso apenas te explicar essa última lição, ou te prenderia para sempre. Sinto muito. Mas, cá entre nós, você já me provou compreendê-la parcialmente — a Mestra beijou delicadamente meus lábios duros de serviçal.

— Quê?! — Salessandra soou ainda mais confusa; mas uma explosão e sons de botas se aproximando logo a lembraram de coisas mais importantes às quais deveria prestar atenção. — Ei, eles estão chegando aqui!

Empertigando-se e franzindo o cenho, a Mestra concluiu, apontando a mão livre para mim.

— Machius de Toquestrela!

— Sim, Mestra.

— A partir de hoje, não serás mais servo de ninguém! Isso é uma ordem!

— Sim Me- Uh...?

Morrogna sorriu.

— Seja livre.

Então: “Bang!”

Morrogna disparou um feitiço de dez pontas contra a própria cabeça e caiu na borbulhante massa negra de cadáveres que produziu, desaparecendo em seu interior.

Num piscar de olhos, a massa expandiu-se contra o teto, paredes, e corredores, engolindo a tudo e todos em seu caminho, incluindo a mim e a meus companheiros.

Imerso em escuridão total, pude apenas sentir tremores intensos, vibrações espalhando-se através da massa cadavérica, mas nenhum sinal de hostilidade contra meu corpo.

Senti movimento, ouvi sons abafados de confronto. Houve uma poderosa onda de choque. E eventualmente, conforme a podridão ao meu redor cedia, retornando ao seu estado natural: “splah!”. Emergi da barriga inchada de algum tipo de criatura voadora. O ser havia sido claramente morto pela tempestade de vidro, como se todo o seu exterior houvesse sido lixado até que os tendões e conexões nervosas necessárias para o voo foram destruídas, e a criatura caiu.

— Morrogna... — Sussurei. Olhando ao redor à procura dela, logo percebi que me encontrava longe do campo de batalha. E que lá estendia-se o corpo colossal de uma criatura similar a uma borboleta, mas muito comprida, com três pares de asas de fina membrana de carne vermelha, e com membros humanos no lugar das patas. — Morrogna — eu soube instintivamente.

A criatura distante rapidamente desfazia-se em pedaços negros, a vontade que a sustentava não mais presente naquela realidade.

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