Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 11

Capítulo: 11

— O que nós vamos fazer agora?! — Salessandra sussurrou enquanto todos nós avançávamos bem no centro da pequena formação rebelde, sua voz abafada pelo barulho de engrenagens girando e rochas sendo esmagadas pelas patas da máquina de guerra. — Não podemos lutar por esse exército!

— Por que não? — perguntei.

— Oras, porque dois terços do Sindicato está do lado dos lealistas, pirralho, e como artífices, não há espaço para nós se não aquele no seio do Sindicato — Salessandra explicou.

— Do que você está falando? O Sindicato não se importa com quem vence essa guerra, contanto que se salve, não é? Tem até um de seus líderes lutando pelos rebeldes.

— Com todo o respeito, do que você está falando? — Edgardo apertou os olhos.

— Ei, do que vocês estão falando? — a criança que fora recrutada na vila se aproximou de nós com um sorriso que ia de orelha a orelha.

— Meios de fazer dinheiro, amiguinho — Edgardo mudou de assunto.

— Podemos ser soldados agora, mas eventualmente a guerra vai acabar, e temos que garantir um emprego para esse dia, né? — Salessandra adicionou.

— E por que vocês só não continuam como soldados para sempre? — a criança insistiu, ajeitando o elmo grande demais que vestia. — Lutando por toda a Origem, subindo de patentes, ganhando fortuna, fama e glória! Há algo melhor? Haha!

— É por isso que você se alistou? — perguntei.

— Isso mesmo, escravo!

— Eu não sou escravo.

— Os moços dali de trás disseram que era — apontou para os outros soldados. — E disseram que eu não deveria conversar com você.

— Pft! Coff, coff! — Salessandra disfarçou (mal) uma risada abafada.

— Amiguinho, qual seu nome? — Edgardo quis saber.

— Vandro de Musgolhado.

— Vandro, sua família não tentou lhe impedir de se juntar... por quê? — perguntou de novo.

— Minha família está toda no exército. Primeiro, os moços com as penas azuis levaram meu pai e irmão mais velho. Um ano depois, levaram meu irmão e irmã do meio e fiquei sozinho — citou o exército lealista. Franzindo o cenho e nos encarando, adicionou: — Mas não precisam ter pena de mim! Eu não sou idiota, tá bom? Eu não sei muito sobre patronos ou linhagens, mas sei que somos inimigos agora. É só que eu não tinha escolha. Sozinho eu não estava conseguindo coletar comida, já que os bichos da redondeza ficaram muito mais fortes, e por causa dos impostos, meus vizinhos não conseguiam mais dividir comigo também.

— Considerando que você se juntou ao exército sem sequer conseguir levantar uma espada direito, você me parece bem idiota — eu disse.

— Qual é? — Edgardo suspirou.

— S-Seu escravo nojento! Quando você estiver morrendo, eu não vou te salvar!

— Se um dia eu precisar da minha ajuda, por favor, me deixe morrer.

O garoto chutou minha perna, mas apenas machucou a própria canela.

Problema o dele, ainda tínhamos mais várias horas de caminhada pela frente.

 

 

— Patrono emergente! — o batedor deslizou a colina de musgo seco abaixo, levantando poeira. — Estão vindo.

— Certo — o oficial arrumou o capacete decorado por penas vermelhas de arara. — Os rebeldes recuaram dessa região, mas nós não somos covardes como eles! — começou a discursar algo sobre a glória do primeiro Patrono Absoluto e a legitimidade de seu filho bastardo.

Quando alcançou a marca dos três minutos de discurso, percebi que preferia muito mais o estilo direto ao ponto de Morrogna, que animava os soldados com suas ações em vez de palavras.

Depois de uma série de aplausos desanimados, enfim, o oficial chegou ao ponto estratégico de fato:

— Com essa estratégia, nós vencemos contra ninguém menos que a Décima, a artífice Morrogna de Toquestrela, a mais talentosa artífice dessa geração. Seu cadáver podre é agora um troféu para o Conciliábulo, nossos próprios nerds que rejeitam os traidores do Sindicato — me peguei apertando o punho. — Então podemos derrotar esses idiotas da Supremacia Purista com essa mesma estratégia. Suas forças principais já avançam país adentro, e agora vamos cortar sua linha de suprimentos! E depois disso, quando essa rota estiver liberada... bem, digamos que temos uma surpresinha para as cidades desses invasores.

Mais palmas soaram, e as mãos que mais fizeram barulho foram as do pequeno Vandro.

— Obrigado, obrigado — o oficial sorriu. — Agora, vocês aí, dianteira, preparem-se para a investida. Vocês, mantenham guarda no topo do morro. Nós vamos detonar seus veículos com nossa máquina de guerra.

— M-Mas, patrono emergente... ele é jovem demais — um dos soldados apontou, desconfortável, que Vandro se juntaria a nós na dianteira do ataque.

— Você está me questionando, homem?!

— N-Não, senhor!

— Bom. Então, todos às suas posições!

Fizemos como o ordenado, e Edgardo, Salessandra, Vandro e eu esperamos o comboio numa vala logo ao lado da estrada que, devido a uma curva suave, nos deixaria cara a cara com o inimigo quando nos levantássemos.

— Eles estão nos usando de bucha de canhão — Salessandra franziu o cenho, apertando firme seu rifle.

— Você já não deveria estar acostumada com isso? — perguntei.

— Que? Não, esses pesadelos ambulantes são diferentes!

— Não fale mal dos verdadeiros patriotas! — Vandro respondeu, irado. — Eles estão nos dando uma chance de sermos heróis.

Os tremores provocados pelo avanço das tropas e veículos dos alvos silenciaram a discussão. Todos aguardavam, tensos, pelo sinal de ataque.

— Agora! — Edgardo disse, notando o sinal de luz com um espelho.

Nos revelamos para o comboio, disparando sem sequer mirar: “bang, bang, bang! Bum! Vush!”

Edgardo estourou um feitiço contra o veículo de guerra invasor, que era montado como um homem nu e esguio que andava sobre as mãos e pés, com o canhão despontando da própria face, mas falhou em destruir seu alvo; Salessandra atingiu dois soldados à dianteira, prefurando-os com adagas voadoras; e meus feitiços, bem como a flecha de Vandro atingiram, inutilmente, a carcaça de uma carro.

“Vrurururu!”, e no instante seguinte, uma chuva de centenas de feitiços voou em nossa direção; um artífice inimigo carregava um pesado artefato giratório fundido com um machado e conectado a uma caixa às suas costas que assobiava alto, emitindo vapor. Disparava dedos metálicos com unhas pontiagudas.

— Aaagh! — a criança chorava enquanto segurando a metade que lhe sobrara da mão esquerda.

— Fizemos o que podíamos — comentei com as costas contra a vala. — Se os outros falharem em destruir o comboio, seguimos a vala até o riacho e fugimos para a floresta.

“BUUM!”, a máquina de guerra dos nossos (atuais) aliados finalmente disparou contra os invasores.

— E-Errou... — Salessandra apontou, tomando nota da batalha com um espelho de bolso.

— Recrutas, avancem! — o patrono emergente ordenou aos berros do topo da colina.

— Hiyah-! — Vandro tentou levantar-se mais uma vez, empunhando somente uma faca, quando o impedi.

— Isso é suicídio.

— Me solta! Eu vou fazer meu pai orgulhoso, me solta! — brandiu sua faca contra meu braço, e instintivamente o deixei partir.

“Vrurururu!”, segundos depois, a criança foi reduzida a mera névoa vermelha quando centenas de pontiagudos dedos metálicos a trespassaram.

— Pesadelo! — Edgardo socou o chão.

“BUUM!”, a máquina de guerra bípede disparou uma segunda vez, finalmente destruindo o veículo armado invasor e atordoando os artífices puristas por tempo o suficiente para que os demais soldados a serviço do Absoluto-Absoluto executassem seus oponentes.

— ...Vencemos. Graças ao sacrifício daquela criança — Salessandra segurou a própria cabeça. — Foi isso que você quis dizer, não é? Não importa por qual bandeira lutemos, sacrifícios são necessários. Na guerra, não existe algo como bom ou mau, apenas vencedor e perdedor.

— ...Ahn? — não entendi exatamente do que a artífice falava, mas recebíamos ordens de voltar.

Voltar ao exército. Voltar às missões. Voltar a uma posição, um título, um papel.

— Recuperem equipamentos, suprimentos, informação, e qualquer coisa de valor dos mortos — o oficial passou a nos ordenar assim que nos aproximamos. Mais da metade dos homens sob seu comando havia morrido, e precisava de nós mais do que nunca.

Olhei para o céu de profundo azul sobre nossas cabeças, e uma estrela de trilhões de pontas que ofuscava tantas outras semelhantes. Olhei para a lua, o enorme astro humanoide com um buraco na barrica do qual sangue vazado produzia um anel ao redor de Origem, nossa casa.

Então, olhei de novo para o oficial à minha frente e suspirei profundamente.

— Mas que pesadelo de decepção.

Por um segundo, todos me olharam com espanto evidente em seus rostos. No instante seguinte, porém, me encararam apavorados, quando avancei muito mais rápido do que qualquer um dos humanos ali era capaz, e trespassei o coração do oficial com minhas unhas de metal afiadas, minha mão emergindo, vermelha, de suas costas.

“Bag, bang, bang!”

Ainda antes que os rebeldes pudessem apontar suas lâminas em minha direção, disparei uma série de feitiços, mutando as cabeças de meus alvos em criaturas aladas que desanexaram-se de seus próprios pescoços e atacaram os demais rebeldes.

Edgardo e Salessandra facilmente lidaram com os outros rebeldes distraídos pelos mutantes enquanto eu subi à máquina de guerra e removi o artífice provedor de seu interior logo antes que este fechasse a escotilha do veículo.

— P-P-Por favo-! — o artífice tentou implorar, até que esmaguei sua traqueia.

— Hargh! — o segundo artífice, procurador, no interior do veículo, apontou um revólver contra mim e disparou, mas atingiu apenas o cadáver do próprio companheiro.

“Bang!” enfeiticei o corpo em minhas mãos e o joguei dentro da máquina de guerra, onde explodiu num milhão de estilhaços ósseos, limpando o veículo de oponentes.

Pulei de volta ao chão, guardando meu artefato-arma.

— G-Garoto... — Edgardo me encarou com olhos arregalados.

— Machius — o corrigi. — Meu nome é Machius de Toquestrela.

— Machius, os feitiços que você acabou de usar... — Sallesandra hesitou. — Eram de quatro pontas.

— Hm — dei de ombros. — Parece que aquele treino todo finalmente deu frutos.

— Serviçais são incapazes de progredir magicamente! Muito menos avançar duas posições de uma vez só! — a artífice de cabelo raspado gesticulou intensamente.

— Pois eu preciso de mais força se desejo cumprir a última ordem de Morrogna. E acabei de perceber que não vou ser capaz de fazê-lo nem no exército lealista, nem no exército rebelde — dei as costas aos dois únicos sobreviventes. — E como este conjunto é, atualmente, a totalidade do Patronato, e com o oceano ao oeste e o Limite ao norte, só me sobra uma opção: vou à Supremacia Purista.

Comecei a caminhar, sem me importar se os dois viriam comigo ou não, determinado a cumprir minhas ordens.

No fim das contas, me seguiram.

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