Capítulo: 32
Eu deixei o campo carregando uma cesta de frutos, folhas e moluscos.
— Cuidado, crianças! — Ed gritou para seus alunos, que deixavam a escola às pressas, ansiosos para brincarem na floresta e coletarem todas as esponjas e corais que seu professor havia pedido como dever de casa.
— Não se preocupe, se um monstro aparecer, eu acabo com ele! — prometeu um dos jovenzinhos a um colega, ansioso para pôr em prática os métodos de auto-defesa que meu amigo lhes ensinou. — Ah! Machius, Machius, Machius! Se eu matar um tatu-montanha, você me aceita como aprendiz também?!
— Se você procurar problemas e um tatu-montanha não te achatar, eu mesmo que vou fazê-lo. Ouça seu professor e não saia das trilhas — censurei.
— Buuh, chatooo — o jovenzinho seguiu seus amigos floresta adentro.
— Não se preocupe, Salessandra e seu grupo têm mantido a mata segura — Ed prometeu.
— Eu tenho que agradecê-la por isso. Aqui, isso é para você — dei uma fruta piramidal ao meu amigo. — É bastante doce e gostosa. Provavelmente. Enfim, você merece, por cuidar das crianças — levantei um polegar.
— Haha, é o mínimo que posso fazer.
Continuei em direção à minha casa.
— Realmente, não se encontra esse tipo de costura em qualquer lugar, e- — meus vizinhos trocavam seus artesanatos e produtos (e fofocas) uns com os outros com sorrisos no rosto. — Opa, boa tarde, Machius!
— Boa tarde.
— Como serviram as luvas?
— Perfeitamente, nenhum grão de areia tem entrado em minhas juntas. Obrigado.
— Hahaha! Não precisa agradecer. Mesmo.
Chegando à minha casa, tirei as botas sujas e depositei a cesta sobre a pia para seu conteúdo ser lavado posteriormente.
— Bem-vindo de volta... querido! — Felicita chamou.
— Quem?
— ...Digo, Mestre — surgiu, decepcionada. — Como foi o dia?
— Tranquilo — dei de ombros. — Todos os dias têm sido tranquilos, recentemente.
— Mestre, por acaso... você tem estado entediado? Você é, na verdade, um fanático por batalhas?
— Não e não — era verdade. Eu apenas... — Enfim, tem doces?
— Sim, a vizinha nos deu uma torta — Felicita suspirou.
— Ooh, eu adoro as tortas daquela dona. E quanto a você, como vai o treino que te passei?
— Bem, mas continuo empacada nas quatro pontas. Parece até que a força de vontade necessária para superar esse patamar é imensurável...
Conversando sobre o dia a dia e discutindo sobre magia, jantamos.
✹
Naquela noite, li o livro escrito por um dos meus vizinhos, sentado à cama.
Apesar de não mais poder sentir a brisa na pele ou o aconchego de um colchão, o ritual em si me confortava o suficiente.
Além disso, o livro não era tão ruim assim, apesar de vergonhosamente prepotente, era uma história interessantezinha sobre elfos contra uma assustadora e instável entidade onipotente.
“Toc, toc!”, soou à minha porta.
— Entre? — convidei, e se revelou minha aprendiz. Vestindo apenas uma camisola preta e branca, semitransparente e decorada com muitas rendas e babados. — Felicita, você precisa de alguma coisa?
— ...N-Na verdade sim, Mestre. Eu preciso é de... de voc-!
“TOC, TOC, TOC!”, bateram na entrada de casa.
— Machius! Machius, você está ai?!
— Salessandra? O que foi? — me aproximei da janela e chamei a visitante de aparência desesperada.
— Nós precisamos conversar. É urgente.
✹
Recebi minha amiga com chá, sentado na mesa da sala de jantar. Após ouvir seu relato, qualquer sono ou reclamação que eu ou minha aprendiz pudéssemos ter havia sido substituído por relutância quase pesarosa.
— ...Quanto tempo temos? — perguntei depois de encarar meu chá intocado por um longo instante.
— Eles não parecem estar com pressa, avançando vagarosamente, talvez cientes da presença uns dos outros, mas mesmo assim... — Salessandra entrelaçava as mãos frente à boca, suor pingando de sua testa franzida. — Umas três semanas. Talvez duas. E isso falando de suas forças principais, seus batedores podem muito bem já estar sobre nós.
— T-Todos eles. Em duas semanas — Felicita abanou o próprio rosto com seu leque. Batendo na mesa, forçou um sorriso: — Mas nós temos o Mestre! Contanto que ele esteja aqui-
— Não se engane, não tem nada que eu possa fazer por mim mesmo contra tantos inimigos, ainda mais quando eles vieram preparados.
— Mas o Mestre é o mais forte-
— Minha Mestra era tão forte quanto eu sou agora quando ela morreu — os ombros de minha aprendiz caíram, bem como seu sorriso. Ela tornou a abanar-se, suando tanto quanto minha amiga. — Só temos uma chance de sobreviver a isso, é se escaparmos. Salessandra, chame todos aqueles que podem lutar agora mesmo, e mande que todos os demais façam as malas. Faça um breve resumo para Ed, e deixe que ele cuide das crianças e não combatentes. Partimos em duas horas.
✹
Decidido aquilo, enchemos nossas bolsas somente com o necessário, e após explicar a situação para os combatentes, nos reunimos todos no centro da vila no meio da madrugada. Quase uma centena de rostos assustados sob a luz amarelada das lâmpadas recém-compradas.
Enquanto Ed terminava de repassar as instruções para os civis, eu discutia uma última vez com a escolta:
— Desculpa, chefe — o piloto segurou o chapéu sobre o peito e balançou a cabeça de um lado para o outro em negativa. — Mas eles têm aeronaves muito mais rápidas, manobráveis e difíceis de detectar. Mesmo se eu pudesse fazer umas sessenta viagens para levar todo mundo, eles nos pegariam fácil, fácil.
— Entendo...
— Machius — Ed se aproximou, assentindo.
Me tornei ao resto dos aldeões, que esperavam cheios de incerteza. Me contive para não apertar os punhos ou demonstrar qualquer sinal de apreensão, mantendo uma expressão perfeitamente neutra.
— As forças que dividiram este país, esta Terra, se aproximam para tornar essa Floresta Vermelha num campo de batalha. O que quer que construímos aqui, podemos reconstruir em outro lugar se sobrevivermos. Por isso, partimos.
— P-Para onde vamos? — perguntou minha vizinha que fazia boas tortas, a mesma mulher que um dia Basku já fez de refém.
— Já explorei a Supremacia Purista no passado. Existem ermos dentro daquele território habitados apenas por bandidos com os quais podemos facilmente lidar. E agora que eles movimentam toda sua força num único bloco, é nossa chance de cruzar a fronteira sem sermos detectados — deixei de lado a parte em que admitia que as chances daquilo dar certo eram menores que minúsculas.
Posicionando os combatentes na retaguarda e nas laterais de uma longa fila de civis, seguimos floresta adentro com apenas algumas lanternas e o mais silenciosamente que a multidão podia; os mais fortes de nós avançavam adiante do resto, garantindo que o caminho estava limpo.
Três horas de viagem depois, nos deparávamos com um problema.
— Pesadelo, aqui também? Pft! — Salessandra cuspiu do nosso esconderijo enquanto observávamos o bloqueio militar adiante.
— Os puristas já bloquearam todas as estradas e trilhas para o sul. Nossa única chance de avançarmos sem sermos descobertos, é continuar pela floresta — Ed comentou.
— Hmph! Se eles foram competentes o suficiente para bloquearem todos esses caminhos, não acha que é um tanto ingênuo pensar que eles convenientemente permitiriam uma única rota de fuga para nós? — Versus questionou.
— Mesmo assim. Um talvez é melhor do que definitivamente não — conclui, retornando ao resto dos aldeões.
Continuamos a guiá-los sob a sombra dos órgãos de filtragem de ar dos vermes-tubo. E bem como Versus previu, não demorou para que tivéssemos problemas:
— Hyaaaah! — um dos civis gritou, e todos nós corremos a toda velocidade de volta para nossos protegidos.
Fui o primeiro a alcançá-los e vi uma série de soldados enormes, trajados dos pés à cabeça de branco, completamente massacrando os combatentes mais fracos; disparavam feitiços com uma mão, e cortavam com aura com a outra.
— Essas abominações de novo! — tentei enfeitiçá-los, mas como da primeira vez, não funcionou uma vez que seus corpos eram, tecnicamente, frutos de um feitiço de várias dezenas de pontas. — Não me subestimem! — enfeiticei os vermes-tubo ao nosso redor.
— Huff...! — os soldados puristas bufavam, inabalados mesmo quando a vida selvagem dominante ao seu redor puxava cada um dos seus membros até arracarem-lhes.
“Vrururu!”, ruiu às minhas costas, de onde eu havia acabado de vir.
— Amigos! — retornei, me deparando com ainda outro ataque de forças puristas especiais que surgiram do nada.
— Huff! — o último dos inimigos apontou sua arma à Versus, apesar de empalado múltiplas vezes por estacas de madeira. — Bwah! — finalmente parou de atacar quando as mesmas estacas de madeira cresceram dentro de seu corpo, tornando-se pequenas árvores e explodindo o inimigo em pequenos pedacinhos.
— Hmph! Coisas irritantemente insistentes — Versus praguejou.
— Machius! — Ed se aproximou, tapando um buraco que vazava sangue em seu braço. — Perdemos dois. E lá atrás?
— ...Oito.
— Pesadelo, esse é só mais um motivo para continuarmos a avançar — Salessandra disse. — Já sabemos do que eles são capazes, são invulneráveis a ataques convencionais, temos que avançar enquanto podemos evitar o grosso das forças inimigas, ou vamos perder muito mais que apenas dez!
Não pecisamos respondê-la, como quer que fôssemos fazê-lo, uma vez que os órgãos de filtragem de ar dos vermes ao nosso redor se partiram para revelar uma aeronave na forma de um homem nu com os braços abertos e sem nariz. De uma abertura nas costelas do homem, um par de soldados puristas de elite apontava suas armas a nós.
— Que falta de educação! — Versus reclamou, e as sementes e esporos microscópicos que cobriam a aeronave cresceram, a envolveram e a desestabilizaram, trouxeram-na ao chão numa estrondosa explosão.
E mesmo assim, das chamas os inimigos emergiram, imperturbados; de seus corpos chamuscados cresciam pequenas e asas e penas negras, e conforme seus ferimentos se fechavam diante de nossos olhos, mais penas e asas negras surgiam.
— ...Ao m-m-menos façam a gentileza de permanecerem mortos — o velho artífice reclamou de novo, mas então com suor brotando à testa.
Versus criou uma barreira de madeira, nos protegendo dos disparos puristas, e eu fiz os vermes ao nosso redor de fantoches para acabar com os atacantes.
— Eles já sabem que estamos aqui, preparam esse caminho de antemão. Se continuarmos em frente, vamos estar fazendo exatamente o que eles querem, nos cansando e enfraquecendo aos poucos. Talvez os mais fortes sobrevivam, mas o resto da vila definitivamente não vai conseguir fazê-lo — entendi.
— Então, Mestre... o que faremos? — Felicita abanou a si mesma.
— ...Voltamos à vila e procuramos uma outra rota de fuga.
Fizemos como eu disse. Ou pelo menos, metade de como eu disse, uma vez que, de volta á nossas casas, vimos de um lado o colosso voador que era aeronave Absoluta partindo as nuvens não muito longe dali, carregando uma estrela cadente, e do outro lado um sem-número de artífices suicidas de azar de larga escala se instalando, e ainda de outro lado uma procissão de monastas já montava acampamento.
Estávamos presos lá, cercados por inimigos de todos os lados.
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