Capítulo: 10
O vilarejo era composto por trinta ou quarenta casinhas de pedra com telhados de musgo, quase todas cultivando o próprio quintal de cogumelos. Portas e janelas eram feitas de couro, e pinturas e estátuas de sapos pareciam ser o principal tipo de decoração do assentamento.
Seria um lugar pacato, se não pela máquina de guerra bípede, similar a uma ave não-voadora com uma cabeça de canhão, e as dúzias de soldados no meio do vilarejo gritando ordens para os locais.
— Em nome do legítimo Patrono Absoluto, Kálcaro Absoluto-Absoluto, os recursos deste vilarejo servirão aos esforços de guerra pelo nosso exército! — gritava um homem em cima da máquina de guerra. — Trinta e cinco por cento desta população entre quatorze e cinquenta e nove anos deve, obrigatoriamente, prestar serviço! — continuou, enfatizando legitimidade, dever, e mais tantas coisas que Morrogna provavelmente classificaria como bobagem.
Tínhamos problemas mais eminentes que exigiam minha atenção.
— Dois artífices e um serviçal. São espiões, com certeza! — um dos soldados que apontava sua espada ao meu pescoço gritou. — Vamos acabar logo com isso e executá-los de uma vez!
— Espere! — outro soldado, interrompeu. — Os traidores abandonaram esse fronte, segundo os manda-chuvas. Não deveriam haver espiões por aqui... Deveríamos torturá-los primeiro. Descobrir qual sua missão — deduziu. Dando de ombros, adicionou: — Mas é melhor destruir o serviçal primeiro, essas coisas não sentem dor.
Minha prioridade máxima: autopreservação.
Possíveis meios para evitar imediata destruição?
Resistência: havia três de nós, mais de trinta deles e uma máquina de guerra. Probabilidade de sucesso, nula.
Negociação: como serviçal, pensavam que eu era incapaz de oferecer qualquer informação útil, mesmo sob tortura. Probabilidade de sucesso, baixa.
Não!
Correção: como serviçal de combate, me consideravam refém inútil.
— Então, qual dos bonitões será meu novo mestre? — perguntei, monótono, e meu executor hesitou em baixar sua maça sobre minha cabeça por um momento. Até Edgardo e Salessandra, prestes a tentarem um último ato de resistência fútil, surpreenderam-se. Continuei: — Como modelo M4K1U5, ofereço prazer máximo à minha Mestra ou mestre- Erro! Aviso: modificações clandestinas detectadas. O Sindicato não se responsabiliza por quaisquer danos provocados por serviçais clandestinamente modificados.
— A-Ah, não! Por favor, não é como se nós tivéssemos roubado o garoto! — Edgardo entrou no jogo.
— Por favor, não nos execute, não sabíamos que essa região ainda estava sendo ocupada! — Salessandra fez o mesmo.
— São saqueadores tentando lucrar vendendo armas porcas para o primeiro exército que encontrarem — um soldado concluiu.
— Faz sentido. Digo, vocês viram o baixinho ali? É horroroso, mesmo para um artífice. Só podem ser clandestinos — outro acrescentou.
— Saqueadores, espiões, qual a diferença? Deveríamos executá-los de qualquer jeito, eu digo! — um terceiro apontou.
Aquele que me ameaçava ergueu sua maça sobre minha cabeça mais uma vez, e mais uma vez foi interrompido, mas então pelo oficial que apenas alguns minutos atrás gritava ordens e instruções de cima da máquina de guerra:
— O que está acontecendo aqui? Temos suprimentos para carregar, não fiquem enrolando!
— P-Perdão, patrono emergente! Encontramos estes saqueadores escondidos aqui, e estávamos prestes a executá-los.
— Saqueadores?
— Então, qual dos bonitões será meu novo mestre? — repeti.
— Hu, hu — o oficial riu e seus homens o acompanharam. — Já entendi, roubaram uma serviçal, né? — tocou meu peito. — Nossa, mas essa é uma tábua. E das duras! — checou o interior de minha calça. — Porra, é homem! — recuou, atirando os braços para cima, decepcionado, e seus homens riram ainda mais alto.
— A artífice ali é mulher — um soldado sugeriu.
— Idiota! Já comeu uma artífice, por acaso? Elas são frias! Literalmente!
— Erro! Aviso: modificações clandestinas detectadas — repeti de novo, e chamei a atenção do oficial mais uma vez.
— Serviçal, quais modificações lhe foram feitas? — perguntou o oficial, sério.
— Adição de garras metálicas, adição de pistões superiores, substituição de pele por quitina resistente, adaptações de comportamento para combate — listei.
O patrono emergente olhou por cima do ombro para o único jovem aldeão que não deveria ter mais que treze anos lhe esperando próximo à máquina de guerra, e depois tornou a me olhar.
— Eu sou seu mestre agora. Você vai lutar pelo exército do Patrono Absoluto legítimo — apontando para meus companheiros, adicionou. — E vocês podem escolher se pagam sua sentença com vida ou com seu serviço.
Assim, nos juntamos ao exército rebelde, nossos oponentes até apenas alguns dias atrás, e partimos ainda mais para o sul para combater a invasão da Supremacia Purista.
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