Contra Todas As Estrelas Do Céu - Capítulo: 34

Capítulo: 34

Como uma baleia assassina bípede com rosto de tubarão-duende, e tão alta quanto um horizonte, a criatura absurdamente grande deixava pegadas tão grandes quanto lagos inteiros no chão da floresta, e varria tantos moluscos para longe com o balançar da própria cauda que fazia surgir novas clareiras.

— Wuuuuuh! — grunhiu, fazendo meu corpo de quitina vibrar mesmo àquela distância.

— Os leviatãs fizeram o primeiro movimento — guardei o papel e tomei minha arma. — É claro que eles não esperariam um dia inteiro, não planejam deixar nenhum de nós sobreviver. Mas o que os outros vão fazer quanto a isso?

A resposta foi inteiramente decepcionante: meia dúzia de aeronaves puristas, lealistas e rebeldes decolaram contra a arma suprema dos leviatãs, mas seus feitiços sequer pareceram incomodar a criatura massiva, que destruiu todos os atacantes, bem como boa porção da floresta, com um único jato de água pressurizado que cuspiu.

A seguir, as demais facções repetiram exatamente a mesma estratégia, mandando apenas um pouco mais de aeronaves.

— Malditos idiotas, realmente não vão usar suas armas secretas mesmo agora?!

— Mestre! — Felicita invadiu meu quarto. — Lá fora-!

— Eu sei. Reúna os outros no subterrâneo e esperem lá — pisei no peitoril da janela.

— Não!

— É uma ordem, Felicita. Me obedeça!

— Eu... Eu... não vou! Eu vou com o Mestre lá fora enfrentar aquelas coisas e salvar todo mundo! — disse a garota que nunca sofreu antes de me conhecer, e mesmo assim me seguiu até terras perdidas e encarou monstros e maníacos de todos os tipos.

— ...Faça o que quiser — saltei à rua baixo. — Todo mundo, para o abrigo subterrâneo! — gritei para os civis, que obedeceram sem questionar. Os civis obedeceram.

— Bicho grande do caramba. Pft! — Salessandra cuspiu, carregando o rifle ancestral ao ombro. — Então, qual o plano?

— Os leviatãs não criariam uma arma que poderia se voltar contra eles, o que significa que devem estar controlando aquela coisa de alguma forma. Só precisamos encontrar seu “piloto” e destruí-lo.

— Hmph! E como nos aproximamos? — perguntou Versus, se apoiando no cajado.

— Talvez eu realmente devesse ter continuado na minha cidade natal... — nosso piloto ajustou o chapéu de vaqueiro. — Infelizmente, eu sou idiota o suficiente para gostar daqui. Vamos!

— Machius, ela... — Ed atirou um olhar de esguelha à minha aprendiz, que me acompanhava de perto.

— É livre para fazer como quiser — respondi, e todos nós subimos a bordo.

Enquanto voávamos em direção à enorme criatura, ao menos nossos outros inimigos fizeram a cortesia de não nos abater imediatamente. Mas nosso primeiro desafio se revelou muito antes de sequer entrarmos em distância de combate: a arma suprema dos leviatãs cuspiu ainda outro jato de água pressurizada, abatendo tantas aeronaves que não a nossa somente porque o piloto era um clandestino veterano, especialista em passar despercebido, e voava perto demais do chão.

Mas aquilo não seria o suficiente para evitar o que veio a seguir: o monstro colossal expeliu uma nuvem de gás de seu espiráculo, que dificultou a visão e cobria a floresta de vermes-tubos e nossa nave com um muco viscoso e pesado.

— Piloto, a nave vai aguentar? — Ed perguntou, se segurando através da turbulência.

— Amigo, ela já não aguentou! — o piloto puxava o volante, apertava botões e dava seu máximo para não terminarmos como uma bola de fogo no chão.

— Isso é longe o suficiente — eu disse quando finalmente atravessamos a nuvem, sobrevoando os pés massivos da arma suprema dos leviatãs. — Daqui para frente é conosco. Pouse em algum lugar seguro e não saí de dentro dessa nave até que tudo esteja acabado.

— Não precisava nem falar! — o piloto respondeu.

Abri a porta e pulei.

E foi como cair numa poça de lama; a pele da criatura estava, por inteira, coberta pelo mesmo tipo de muco espesso e pegajoso de antes, meus movimentos eram dificultados. Diferentemente daquele dos parasitas que rapidamente avançaram em minha direção, animais semelhantes a pulgas, mas cobertos de armaduras e com suas pinças e mandíbulas portando lâminas afiadas de metal. Estrelas-do-mar viam-se grudadas em suas barrigas.

— É claro que eles teriam guarda-costas... — apontei meu artefato-arma aos defensores do monstro gigante e enfeiticei-os, assumindo controle do verdadeiro corpo daqueles leviatãs.

— Mas que pesadelo, eu mal consigo dar um passo! O que é essa gosma?! — Salessandra reclamou, erguendo a bota com dificuldades; meus amigos me acompanharam para fora da aeronave.

— Subam — ofereci um parasita de montaria para cada um deles, e todos montamos nas criaturas. — O que quer que esteja controlando essa coisa deve estar o mais perto possível do sistema nervoso, então vamos à cabeça.

Guiando os parasitas por suas antenas, escalamos até as canelas do monstro gigante quando nos deparamos com mais dos leviatãs de guarda.

— Hmph! Coisas nojentas — Versus apontou seu cajado às criaturas, mas Salessandra o impediu.

— Preserve sua força. Vamos precisar dela se as coisas piorarem.  Ed, vamos lá!

— Vamos!

Os dois artífices avançaram na dianteira, disparando explosões e espadas, massacrando a onda de pulgas armaduradas. Seus ataques também abriam buracos e perfuravam a pele da arma suprema dos leviatãs, mas comparados à sua altura massiva, estes não eram piores que mordidas de mosquitos.

Quando chegamos na altura da cintura do monstro gigante, este já se encontrava quase em cima do acampamento das facções que nos cercavam apenas até um dia atrás, e mesmo assim estas se recusavam a usar toda sua força, temendo a vulnerabilidade que demonstrariam aos seus demais competidores se o fizessem.

— Preferem que todos sejamos mortos do que abrir mão de seu controle — franzi o cenho.

Conhecendo aqueles idiotas, era bem possível que ainda acreditassem que eu era algum tipo de arma secreta de alguém e tinha uma carta na manga, que não seria sábio fazerem qualquer coisa antes de descobrirem o que eu planejava.

— Wuuuuuuurgh...! — o monstro gigante estufava o peito, que emitia luz intensa, como se o próprio sol brilhasse dentro de si.

O que quer que aquela coisa estivesse preparando, não seriam apenas nossos inimigos que seriam pegos no impacto; o vilarejo e seus habitantes seriam completamente aniquilados.

Não chegaríamos ao piloto daquele monstro gigante a tempo.

— Pesadelo, façam alguma coisa! — Gritei, observando os exércitos estacionados, encarando uns aos outros hesitantemente. — Isso não vai destruir apenas seus inimigos, seus idiotas! Vocês não poderão reinar como cadáveres!

— Mestre, olhe! — Felicita apontou.

No instante seguinte, o monstro gigante cuspiu um raio azul de água pressurizada tão intensamente que as montanhas distantes foram fatiadas como pães. Sim, montanhas distantes, pois no último segundo, o monstro gigante desviou seu ataque contra um novo inimigo supremo e igualmente desinteressado na política do confronto. Disparou contra os recém-chegados que Felicita havia apontado. Disparou contra uma nuvem negra de centenas de bilhões de Caelifanos que avançavam devorando, quase instantaneamente, carne, couro, madeira, ossos e quitina.

E apesar da aniquilação total do vilarejo que construí ter sido postergada por um segundo, aquilo não me trazia nenhuma felicidade. Primeiro porque, se os caelifanos estavam ali, já haviam devorado quase metade da área habitável daquela Terra, os piratas tendo executado seu plano irresponsável. E segundo porque o feitiço de sabe-se lá quantas pontas do monstro gigante mal havia diminuído o número dos recém-chegados.

Más notícias, porém, raramente vêm desacompanhadas.

— É claro. Agora vocês decidem se mover — notei os inimigos que montavam cerco entrando em ação... — E uns contra os outros. É claro.

Centenas de milhares de super-soldados avançaram contra o acampamento da igreja, imunes a quase todos os danos mundanos, invencíveis quando enfrentando soldados normais, avançando despreocupadamente através de fogo cruzado, bombardeamento e ataques de todos os tipos.

Por sua vez, os membros do Monastério responderam revivendo os antigos predadores da humanidade, os pesadelos, e instantaneamente incontáveis criaturas do mundo dos sonhos invadiram toda a Terra Sadia, brotando das cabeças de tantos artífices e marechais desprotegidos, assim abatendo líderes inimigos sem sequer precisarem levantar-se das almofadas das quais oravam.

Tais líderes inimigos incluíam também aqueles das forças rebeldes, pelo jeito, uma vez que estas devolveram o ataque à própria maneira “detonando” meia dúzia de bombas de azar massivo no campo de batalha que havia se tornado a Floresta Vermelha; num instante, o chão se abriu em fendas chamejantes grandes o suficiente para engolir cidades inteiras, e uma tempestade de raios vitrificou outro território tão grande quanto.

Raios estes que atingiram também a aeronave ancestral da herdeira legal do Patronato, raios empoderados por azar sem igual, que derreteram o metal ancestral e provocaram incêndios e explosões em toda a máquina massiva. E é claro, esta devolveu a destruição em igual escala: a estrela cadente que carregavam produziu um brilho de quase vinte pontas, e das nuvens negras da tempestade de azar, passou a chover um veneno tão vil que mesmo rocha e metal entravam em decomposição.

Chão rochoso este do qual emergiu ainda outra ameaça, uma erupção de energia azul-esverdeada que vinha diretamente contra o monstro gigante o qual escalávamos.

— P-Planos? — Salessandra perguntou.

— Até parece — foi tudo o que consegui responder.

— Wuuurgh!! — o monstro gigante segurou o laser com as mãos, sendo empurrado para trás e cavando trincheiras enormes com os pés.

— Segurem-se! — gritei, como se pudéssemos fazer qualquer outra coisa enquanto tudo tremia.

O laser eventualmente perdeu sua força e se dissipou... Mas o monstro gigante já tinha um novo alvo, na forma do que deveria pensar ser o responsável pelo ataque que havia desintegrado suas mãos, a aeronave ancestral dos lealistas. O redirecionamento de sua agressividade, porém, permitiu que os caelifanos finalmente alcançassem o campo de batalha.

Teriam devorado tudo e todos rapidamente se não fosse pela massa incongruente de penas que despencou dos céus e passou a competir com o enxame por quem consumia mais. Por um lado, caelifanos eram absorvidos pela Perdição, que os mordia com muitos bicos de dentes humanos e os tornavam também bolas de penas e asas; por outro, os monstros devoravam as criaturas penadas como qualquer outra coisa, e para cada um que caiu, dez mil outros continuavam a invadir do norte.

— Hmph, eles finalmente nos descobriram... — Versus sussurrou, parecendo culpado.

Desastres de todos os tipos consumiam a Terra Sadia, pessoas sangravam, monstros sangravam. Parecia o fim de tudo. Incluindo o meu.

— Te achei! — comentou uma figura com enormes asas de borboletas. Seu corpo era feminino e familiar, mas sua face destoava completamente deste, de barba hirsuta e de sorriso grotesco.

— Natanriel? — perguntei, boquiaberto, à cabeça costurada no corpo de minha antiga Mestra.

— Me chamam de “Receptáculo” agora, haha.

O Receptáculo e aquele que havia ferido a arma secreta dos leviatãs conjurou um feitiço contra mim.

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