Capítulo: 1
Uma vez minha Mestra me disse que magia era algo fácil, exceto as partes difíceis. Naturalmente, apontei o absurdo da declaração, e por isso ela me puniu me forçando a usar um vestido de garota por um dia inteiro, mas ninguém precisava saber dessa última parte, somente que a lição me foi gravada.
— Magia é como arte, um ato de criação pela vontade do indivíduo. Por isso, seus praticantes são artífices — sussurrei meus ensinamentos enquanto carregando meu revólver, meu artefato, com um pequeno pergaminho enrolado como um cartucho. — E como arte, possui duas metades igualmente relevantes: técnica e alma. — Apontei a arma contra meu alvo, um dos muitos milhares de verme-tubo que compunham aquela floresta. — Somente uma pode ser ensinada.
“Bang!”, puxei o gatilho, um ponto de luz branca surgiu no corpo do animal imóvel adiante, e do exoesqueleto quitinoso da poliqueta emergiu uma série de espinhos do mesmo material.
Assustado, o animal recolheu seu órgão vermelho de filtragem de ar, mas estava ileso, apesar das novas protuberâncias.
— Isso! — comemorei por replicar uma das técnicas de minha Mestra dando um pulo para o alto. — Ai! — Cai numa pedra e torci o tornozelo, pagando o preço por quebrar as leis do universo. — Que azar... Bem, fazer o quê?
Me levantei, limpei minhas roupas e ajeitei meu cabelo, me perguntando se minha Mestra notaria que eu fugi do quarto de novo. Ela era especialmente rígida quanto à minha aparência, afinal, tendo me selecionado dentre tantos outros órfãos por ser “bonitinho”: eu tinha aparência feminina o suficiente para atrair atenção indesejada, meu corpo sendo naturalmente esguio, meu queixo mais triangular do que o dos outros rapazes, e meu cabelo castanho (o qual eu não era permitido cortar) já alcançava minha cintura.
“Clap, clap, clap”, uma mulher bateu palmas às minhas costas.
A mulher exibia forma atlética, tinha cabelos curtos, olhos, lábios e boca da mesma cor cor de piche, e sua pele era tão branca que fazia a mais pura fábrica de seda andorinhão escura em comparação. Era uma belezura em uniforme de artífice procuradora, apesar da fama que artífices tinham de serem indesejáveis: vestia uma capa negra curta com um bordado branco de uma caveira com estrelas de dez pontas para os olhos.
— Mestra Morrogna! — naquele pequeno vilarejo onde nasci, era a mulher mais intimidadora e influente; guardiã de todo o assentamento e autoridade superior.
— Excelente execução de um feitiço direto, Machius — muito mais alta do que mesmo o aldeão mais alto, ela se ajoelhou e colou um adesivo refrescante no meu tornozelo inchado. — Mas tens de cuidar melhor de ti mesmo.
Se ao menos os outros soubessem o quão gentil ela realmente era...
— Meu fofíssimo aprendiz.
— N-Não me chame de “fofo”, eu já tenho quatorze anos, sou um homem feito, Mestra! Isso é embaraçoso! — afastei as mãos que apertavam minhas bochechas.
— Aah, eles crescem tão rápido... — suspirou, tristonha. — Parece que foi ontem que comecei a te treinar. E pensar que ano que vem já chega sua formatura..
— Você não deveria estar feliz que seu aprendiz vai finalmente se formar um artífice?
— Você tem razão. Mal posso esperar para ver a cara que aqueles velhos do Sindicato vão fazer quando você simplesmente arrasar no teste, fufufu — Morrogna deu uma risada que assustaria a maioria dos aldeões. — Mas para isso, você precisa estar bem alimentado. Vamos, o almoço está pronto.
Começamos a retornar em direção à casa de minha Mestra.
— V-Você não deveria, Mestra! Como seu aprendiz, sou eu quem deveria tomar conta de suas tarefas domésticas!
— Mas você estava ocupado, certo?
— Ah... D-Desculpe... — não apenas eu havia negligenciado meus deveres como aprendiz, como também o fiz por um motivo que eu apenas não conseguia admitir em voz alta, não para a pessoa a quem eu era mais grato do que tudo, quem me abriu as portas para alcançar meu sonho.
— ...Sabe, na época do meu expurg- digo, da minha própria formatura, eu estava tão nervosa.
— Eh?! Mestra Morrogna ficou nervosa?!
— Fufu, pois é.
— Mas a Mestra é a artífice mais forte que existe! Até derrotou um tatu-montanha sozinha! — apontei para a casa dela adiante, um enorme exoesqueleto de artrópode com janelas e portas esculpidas. — Com uma vontade capaz de conjurar feitiços de dez pontas, nenhum outro artífice pode vencer contra a Mestra!
— Nenhum mortal tem vontade mais forte que a minha, mas isso significa apenas que eles não podem usar feitiços diretos em mim. Se alguém conjurar uma bola de fogo e a atirar contra mim, eu queimaria do mesmo modo que qualquer outra pessoa.
— Mesmo assim... até sem um artefato, a Mestra seria uma procuradora de elite que pode conjurar feitiços de cinco pontas! Por que você ficaria nervosa com a formatura? É claro que você se formaria.
— Fufu. Obrigada, Machius. Mas até eu já fui uma aprendiz, sabe? Uns duzentos e oitenta, noventa anos atrás, eu estava com tanto medo de me formar que fugi do meu mestre e vivi como uma artífice clandestina por quase cinco anos, vivendo como caçadora de recompensas com um marechal em situação parecida.
Eu tinha inúmeras perguntas, mas comecei pela mais importante:
— U-U-UM marechal?! Tipo, um homem que usava aura?! Tipo, um cara?! Por tantos anos?!
— E infelizmente, um daqueles cobertos de pelo da cabeça aos pés — Mestra Morrogna franziu o nariz, enojada. Foi um alívio! — Admito que ele era bastante talentoso, porém — minha Mestra me motivou a me esforçar ainda mais.
— Como a Mestra superou o medo da formatura?
— Eu pratiquei — Morrogna sorriu.
— Mestra, uhm... Você me permitiria pular as tarefas domésticas até a formatura, a fim de estudar um pouco mais?
— É claro que não, Machius — Morrogna me puxou pelo ombro, e caminhamos até nosso destino abraçados.
Almoçamos um delicioso, se usual, ensopado de verme-tubo, servido em cumbucas decoradas por imagens muito coloridas de borboletas.
— Mestra Morrogna, eu vou para o quarto ler minhas anotações.
— Aaahn? Vai me deixar aqui sozinha? Eu vou ficar tão solitária...
— ...Que tal se a Mestra me der uma aula, então?
— Já que você insiste, fufu.
— Hehe, sorte a minha.
— Pois bem, como você já vem praticando os fundamentos da técnica por si mesmo, vamos focar no teórico. Aqueles velhotes adoram esse tipo de pegadinha, então me responda: se um oficial militar do Patronato lhe der uma ordem, como você deve responder?
— Devo lembrá-lo de que, apesar dos deveres de um artífice incluírem o uso de violência, respondo somente ao Sindicato, e sua autoridade sobre mim não é diferente daquela que ele tem sobre qualquer outro não-militar em tempos de paz.
— Então o Sindicato é um grupinho de traidores, conspiradores e nojentos?
— Não, mas servidores públicos com o monopólio do ensino da magia. Além de pesquisa, desenvolvimento e aplicação de artefatos de defesa, formamos também inúmeros provedores, artífices especializados na manutenção e uso da infraestrutura mágica da nação... Mestra eu não vou cair nesse tipo de pegadinha.
— É. Pegadinha — suspirando, minha Mestra levantou-se da mesa para lavar a louça. — Mas é sempre bom lembrar aqueles brutos de que não somos inúteis como os monastas depois que extinguiram os pesadelos — referenciou a religião decadente há séculos. — Eles vão encher seu saco sobre isso.
— Não acho que vou interagir muito com os militares — dei de ombros. — Hoje em dia eles só servem para guardar o Limite, é diferente da sua época Mestra, hehe.
— Também pensávamos isso na minha época. Dizíamos: “o Suserano Máximo é indisputável” e “a Supremacia Purista está sempre ocupada demais com os próprios conflitos internos para nos incomodar”... Fufu. Hoje em dia quem governa nossa nação é o Patrono Absoluto, e os Puristas experimentam com-
“Toc, toc, toc!”, alguém batia à porta.
— Já vai — Morrogna limpou as mãos numa toalha cor-de-rosa decorada com borboletas e docinhos, e atendeu o visitante: um homem alto e careca que vestia uma capa similar à da Mestra, mas a caveira às suas costas tinha estrelas de três pontas para os olhos. — Diga.
— Artífice procuradora de dez pontas, Morrogna de Toquestrela, alcunha “Décima” — o visitante saldou. — Trago notícias do Sindicato — ofereceu um envelope três vezes selado.
Aquele tipo de coisa não era incomum devido à posição de minha Mestra. Assuntos confidenciais, missões de subjugação de animais da redondeza, e às vezes até de caça de clandestinos distantes ou monstros pressionando da Floresta Negra ao nordeste ou atrapalhando os navios ao leste. Os relatos de minha Mestra, quando ela voltava das missões mais perigosas, sempre me eram muito interessantes, como quando falou sobre as estranhezas dos leviatãs, incluindo sua repentina evolução à sapiência apenas alguns milênios atrás, mas naquele momento eu tinha interesses mais urgentes.
— Eu vou para meu quarto — por isso não hesitei em me retirar.
E pela janela do segundo andar, fugi.
— Não se preocupe, Mestra, não vou demorar cinco anos, hehe!
✹
O vilarejo era construído com a quitina branca (depois de limpa e envernizada) dos vermes-tubo, e os prédios assimilavam-se em contorno com insetos: formas ovais erguidas por seis, oito ou doze pilares como pernas, cuja ao menos uma era sempre oca e assegurava uma escadaria em espiral. A população era de apenas umas duzentas pessoas, e essas eram todas ou agricultoras ou lenhadoras. O assentamento chamava-se “Macus”, como em “mucos”, pois a última população a habitar o local foi dizimada por uma doença que provocava a produção de tal secreção em excesso. Foi daí que herdei meu nome também. Resumindo, era um lugar terrivelmente entediante.
Mas nem tudo era ruim.
— Você não deveria estar varrendo a casa da sua mestra ou algo assim? — perguntou Musah. Mais alto, de cabelo rente e já exibindo os princípios de uma barba, ele era meu irmão mais velho e aquele que me criou no lugar dos nossos falecidos pais. — Pega! — atirou um graveto de quitina.
“Bag!” um graveto afiado de quitina tornou-se uma bola de espinhos.
— Boa.
— Valeu! — tirei uma farpa do braço, o fragmento tendo explodido do graveto. — E a Mestra me deu essa estação livre para praticar para minha formatura.
— Você me parece bastante pronto... Aquele pássaro ali, você consegue matá-lo? Faz tempos que não como nada além de verme-tubo.
— Ah... N-Não, ele está muito longe. Que tal aquele verme-tubo morto?
— Nah, eu já derrubo esses bichos todo dia, o dia todo. Vamos destruir alguma outra coisa — Musah seguiu a fundo na Floresta Vermelha.
— E só para você saber, a formatura não é uma cerimônia bonitinha em que só vão me fazer umas perguntas e me dar uma capa, tá bom?
— Não é?
— Não! Pessoas literalmente morrem em suas formaturas o tempo todo — apertei os punhos, olhando para o chão. — Aparentemente, na época da minha Mestra o evento até se chamava “expurgo”. Mas muitos aprendizes ficavam assustados demais para encarar o evento e fugiam.
— Haha!
— Ei, isso não é engraçado! A vida do seu irmão está em jogo, sabia?
— Foi mal, foi mal. Mas o que vocês fazem nessa formatura que é tão perigoso?
— ...Eu não sei — como qualquer grupo com poder, o Sindicato mantinha muitos segredos a fim de evitar competição, e dissidentes eram severamente punidos. Mesmo minha gentil Mestra nunca havia me contado o que realmente acontecia durante a formatura.
Ainda não havíamos encontrado nada de interessante além de vermes secos e mortos e colinas peladas, mas parei de andar, de repente meus pés pesando uma tonelada cada.
— Machius — meu irmão descansou uma mão no meu ombro. — Se você mudar de ideia, eu vou estar aqui, certo? Você pode se tornar um clandestino, fugir como os aprendizes do passado. Mesmo que aquela mulher assustadora venha atrás de você, eu conheço essa floresta melhor que ela, ela nunca nos alcançaria.
Sorri.
— Não. Eu tenho um sonho, afinal: me tornar um artífice.
— E eu sabia que você diria isso. Você vai se tornar o mais forte de todos! — Musah socou meu ombro.
— Esse nanico aí? Forte? — uma voz desagradável nos alcançou em meio à Floresta Vermelha.
— Casko... — meu irmão chamou o líder dos outros dois valentões. — E o resto.
— Ei! Meu nome é Lascko! — Gritou o capanga da esquerda.
— E eu Bascko! — Adicionou o da direita.
— Não tem nada melhor para fazer não? Tipo consolar a mãe corna de vocês? — disse Musah.
— Pelo menos nossa mãe tá viva — respondeu o rapaz de dezessete anos que já exibia sinais de calvíce, Casko.
— Seu desgraçado! — meu irmão avançou contra Casko, socando-lhe a cara. — Bwah! — e logo depois foi espancado pelos dois outros rapazes.
— M-Musah! — chamei, de repente paralisado. Se meu irmão mais velho não havia sido capaz de pará-los, eu dificilmente seria capaz de fazer diferente.
— Peguem o nanico — Casko ordenou seus meio-irmãos enquanto limpava o sangue que escorria de seu nariz.
Resisti, esperneei e retesei os braços, mas os outros dois rapazes eram muito maiores e mais fortes no fim das contas.
— Fiquei sabendo que você vai dar no pé logo, nanico.
— ...E ele vai voltar um artífice, seu pesadelo ambulante! — meu irmão, ainda machucado demais para lutar, atirou uma pedra contra o valentão, que facilmente se esquivou desta.
— Tch! Bascko, põe o barbixa para dormir — Casku desprezou os esforços de meu irmão para me defender, ordenando um dos capachos. — E quanto a você, tira as calças do nanico — ordenou seu segundo seguidor.
— Q-Que?! — comecei a suar frio.
— Você não pensou que realmente poderia fugir de mim, né? — Casku começou a despir-se. — Você pediu por isso, nanico. Cabeludinho assim... Você não vai ir para a cidade grande antes d’eu comer esse cu.
— Ah... Ah... NÃO! NÃO! — gritei, mas uma bota enterrou minha cara contra a terra cinzenta da Floresta Vermelha. Eu podia olhar apenas adiante enquanto escutando a risada dos valentões.
E olhando adiante, eu vi uma rocha se mover. A pedra que meu irmão havia atirado deitava-se próxima a esta, aparentemente havia a atingido e... a rachado?
Aquilo não era uma pedra, logo entendi.
No instante seguinte, o bebê desenrolou-se, ergueu-se e correu para a colina adiante, vibrando suas antenas.
O chão começou a tremer.
— Mas o quê?! — Casko caiu ao chão, com as calças ao tornozelo.
— Tatu-montanha — expliquei, me levantando, livre dos valentões que recuavam.
A nossa frente, uma criatura tão grande quanto uma colina desenterrava-se, revelando uma carapaça escura dura e segmentada, sete pares de pernas, e uma boca grande o suficiente para comer qualquer um de nós numa bocada só.
— AAAAHH!! — Casko correu com a bunda de fora. Logo, foi acompanhado por todos os seus meio irmãos.
E o tatu-montanha juvenil foi atrás.
— Ha! Bem feito! Espero que morram! Hahaha! — meu irmão gargalhou, ainda que coberto de hematomas.
— Essa não! Eles estão levando o animal direto para o vilarejo!
— Aff, merda... Ei sua Mestra-
— Eu tenho que impedi-lo!
— Espera! Machius! É muito perigoso!
Musah tinha razão. A carapaça de um tatu-montanha era tão resistente quanto ferro, tudo era esmagado sob seu enorme tamanho, e suas bocas podiam mastigar através de quitina e rocha igualmente. Não havia nada que um mero aprendiz de artífice pudesse fazer.
Mas mesmo assim, eu segui em frente.
— Eu não vou deixar! — resmunguei por entre respiração acelerada.
Saquei meu revólver e girei o tambor, selecionando seu feitiço mais poderoso. E bem quando o animal emergiu da Floresta Vermelha para o vilarejo em perseguição aos valentões, arriscando encarar azar pior do que qualquer outro que eu já havia lidado antes, disparei: “Bang!”
Um ponto branco com duas pontas brilhou diretamente sobre a carapaça do tatu-montanha, e o isópode chiou, vomitando muitos litros de sangue verde conforme seu exoesqueleto projetava espinhos para dentro do próprio corpo.
A seguir, tropecei num molusco que crescia ali perto e caí da pior forma possível sobre meu braço, quebrando-o em três locais diferentes.
— Blaargh! — de olhos esbugalhados e encharcado de suor, vomitei de dor.
Ouvi meu nome ser gritado pelos aldeões em êxtase pela visão do perigo abatido em frente ao vilarejo. Ouvi urras, palmas e assovios, mas eu simplesmente não era capaz de me erguer sob tanta dor, muito menos responder aos espectadores, mesmo que quisesse.
— ...M-Machius! — meu irmão, finalmente me alcançou. Tentei ao máximo mostrar um sorriso para ele, mas antes que eu conseguisse transformar a agonia em meu rosto numa expressão de felicidade, ele disse: — É terrível.
“Trum, trum, turm...”, estampidos abafaram as comemorações.
E quando olhei para trás, entendi o que era tão ruim assim: um tatu-montanha adulto, duas vezes maior do que aquele que eu havia abatido.
O animal tinha pernas tão grossas quanto os vermes-tubo que formavam a floresta, mandíbulas poderosas salivando um tipo de ácido que corroía tudo o que tocava; era tudo isso que avançava em nossa direção, desertificando a Floresta Vermelha impiedosamente.
— Estamos perdidos... — sussurrei.
— Ainda não — respondeu minha Mestra.
Num segundo ela não estava ali, e no outro poeira era erguida e sua capa curta balançava ao ar, seu rosto pálido competindo com o sol de tanta luz que refletia.
— Se torne algo útil, tá bom? — Morrogna disparou um feitiço no corpo do animal que abati, e este brilhou sob uma estrela branca de oito pontas e imediatamente começou a remexer-se.
Barulhos molhados, estalidos altos e o raspar de ossos contra ossos ecoaram tão alto quanto a marcha ameaçadora do tatu-montanha adulto. A carcaça do juvenil morto foi transformada diante de meus olhos: placas ósseas rompidas tomaram a forma de uma enorme flecha, entranhas emaranharam-se numa corda resistente retesada por quatorze patas. O cadáver do isópode tornou-se uma poderosa besta.
— Bom. Agora, mate seu papai.
A besta cadavérica disparou uma seta tão comprida quanto os pilares de sustento das casas da vila, e com tamanha potência que o mero assovio ensurdecedor da flecha foi o suficiente para machucar os tímpanos.
Quando o projétil finalmente atingiu seu alvo, enterrou-se por completo na testa do tatu-montanha e atravessou-o até a parte traseira, saindo ainda carregando seus órgãos internos, provocando uma ejeção explosiva do sangue verde do animal. Matou-o na hora.
— A Mestra é a mais forte! — saltei de pé de uma vez só, por um instante até me esquecendo da dor paralisante que sentia. — Kugh!
Morrogna encarou seu trabalho, inexpressiva e apenas tocando levemente a barriga. Mesmo depois de usar um feitiço daquela escala, o azar resultante lhe afetava como apenas leves dores estomacais. Era uma pena que o resto dos aldeões era incapaz de reconhecer o quão incrível aquilo era, e como ela os havia salvado; em vez disso, eles recuavam assustados.
— Pobrezinho, você se machucou tanto, meu fofíssimo aprendiz — Morrogna franziu o cenho, preocupada, e beijou minha testa. — Vá para minha casa. Lá, tenho flor-de-fígado para aliviar a dor por agora, e posso tratá-lo apropriadamente mais tarde — seguindo em direção à vila, atirou-me uma piscadela — Eu ainda tenho alguns assuntos oficiais a tratar aqui.
Não hesitei em fazer o que minha Mestra mandava; com certeza ela precisaria interrogar os aldeões, investigar a possível presença de ainda mais animais perigosos, e muito mais. Naquele meio tempo, aproveitei os efeitos da forte droga depressora.
✹
No banho, minha Mestra lavava meus cabelos delicadamente, até aplicando caros produtos de beleza importados da capital.
— Sabe, Mestra, eu não estou mais assustado — comentei, sorrindo e brincando com a água da banheira. Afinal, ver o reflexo de Morrogna às minhas costas, ainda que ela nunca me tivesse revelado mais pele do que a de sua face, vestindo seu uniforme a todo momento, me provocava reações embaraçosas. — Da formatura, eu digo.
— Ouvir isso me deixa mais feliz do que qualquer coisa, Machius — minha Mestra acariciou meu queixo, levando-me a encará-la nos olhos. Eu sentia meu rosto inteiro queimar, e não por conta da água quente. — Porque sua formatura foi adiantada para daqui a uma semana. Partimos para a capital amanhã — e rápido assim, a cor drenou-se de meu rosto.
— U-Uma semana?! Por quê?!
— Isso — Morrogna tirou de um bolso a carta que lhe foi entregue mais cedo naquele dia. — Entramos em guerra.
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